segunda-feira, 19 de outubro de 2015

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU (Seven psychopaths, 2012, CBS Films/Film4, 110min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Lisa Gunning. Música: Carter Burwell. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Lisa Reynolds-Wasco. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Abbie Cornish, Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Gabourey Sidibe, Zeljko Ivanek, Tom Waits, Brendan Sexton III, Olga Kurylenko. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

A primeira cena remete aos filmes de Quentin Tarantino: uma dupla de matadores de aluguel joga conversa fora enquanto espera a chegada de sua próxima vítima - um bate-papo que vai do gângster Dillinger a "O poderoso chefão". Repentina e violentamente, a sequência termina com uma inesperada reviravolta, que pega tanto os personagens quanto o público de surpresa. Mas que o espectador não se deixe enganar: apesar de ser mais um cineasta/roteirista influenciado pela lufada de ar fresco que Tarantino deixou entrar no cinema policial americano na segunda metade dos anos 90, Martin McDonagh tem identidade própria, conforme mostrado em "Na mira do chefe" - uma comédia independente que encantou a crítica em 2008 e chegou a ser indicada ao Oscar de roteiro original. Repetindo sua parceria com o ator Colin Farrell, ele faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" um filme ainda melhor que sua estreia, repleto de um humor negro que ameniza de forma inteligente sua extrema violência e um uso brilhante de meta-linguagem que o aproxima do genial "Adaptação", de Spike Jonze.

Assim como no filme estrelado por Nicolas Cage em 2002, o personagem de Colin Farrell, Marty Faranan, é um estressado e angustiado roteirista que sofre a pressão de sentir-se incapaz de escrever uma linha sequer de seu próximo trabalho, do qual tem certeza apenas do título, "Sete psicopatas". Com a intenção um tanto esdrúxula de contar uma história sobre serial killers que evite a violência excessiva e ofereça à plateia uma sensação de paz e otimismo, ele se vê a cada dia mais entregue à bebida - "culpa de sua herança irlandesa!", dispara seu melhor amigo, o ator desempregado Billy Bickle (Sam Rockwell, excelente), que divide com o neurótico protagonista de "Taxi driver" bem mais do que o sobrenome. Sócio do excêntrico Hans Kieslowski (Christopher Walken) no rentável "negócio" de empréstimo de cães - eles roubam os animais e depois os devolvem nobremente aos donos, embolsando as recompensas - Bickle deseja ser colaborador de Marty em seu roteiro, e para isso não se intimida em colocar um anúncio em uma revista chamando psicopatas à sua casa para que contem suas histórias. Não bastasse tal insanidade, os dois amigos passam a ser perseguidos por Charlie Costello (Woody Harrelson), um mafioso impiedoso que descobre que seu amado cãozinho shih tzu, Bonny, está em suas mãos. Aflito e incapaz de pensar em uma forma de sair da confusão, Marty acaba por empreender uma fuga surreal - que pode, afinal, lhe dar as ideias necessárias para a conclusão de sua trama.


Brincando com a linguagem e desconstruindo sem cerimônia as regras pré-estabelecidas de como construir uma história com início, meio e fim bem definidos e claros, Martin McDonagh faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" uma deliciosa mistura de comédia e policial, muitas vezes borrando propositalmente suas linhas divisórias. Apresentando seus personagens como seres falíveis e por vezes contraditórios - caso do mafioso durão apaixonado por seu "cachorro gay", como define Billy - ele foge dos clichês do gênero, apostando mais no bizarro de cada um do que em suas características mais realistas. Essa lente distorcida oferece à plateia a possibilidade de embarcar em uma jornada cujo final não é possível prever desde seus primeiros momentos, como acontece na maioria da produção em massa da indústria hollywoodiana. Se aceitar as regras propostas pelo cineasta - ou seja, esquecer todas aquelas a que está acostumado por uma exposição sistemática a filmes quase iguais - o espectador tem grandes chances de se surpreender rindo em um instante e roendo as unhas em outro, principalmente na primeira metade, quando os psicopatas são apresentados em sequências dignas de figurar em antologias. Quem duvida basta prestar atenção à história do psicopata religioso (interpretado por Harry Dean Stanton): é de grudar os olhos na tela.

E se não bastasse um roteiro tão criativo - que muda de tom em sua metade final apenas para enfatizar seu rompimento com qualquer regra arbitrária - "Sete psicopatas e um shih tzu" ainda se beneficia (e muito) de um elenco em dias inspiradíssimos. Colin Farrell mostra mais uma vez que é um dos melhores atores subestimados de sua geração, apresentando um timing cômico ainda poucas vezes explorado e que comprova sua versatilidade. Woody Harrelson, Sam Rockwell e Christopher Walken, como de costume, roubam para si seus personagens, imprimindo a eles suas personalidades fortes e as participações especiais (Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Tom Waits, Gabourey Sidibe) transformam uma divertida brincadeira em um filme com aura de cult, a ser descoberto e valorizado com o passar do tempo. Poucos filmes merecem uma segunda chance tanto quanto ele!

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