quarta-feira, 7 de outubro de 2015

JANE EYRE

JANE EYRE (Jane Eyre, 2011, Focus Features/BBC Films, 120min) Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini, romance de Charlotte Bronte. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Will Hughes-Jones/Tina Jones, Greer Whitewick. Produção executiva: Peter Hampden, Christine Langan. Produção: Alison Owen, Paul Trijbits. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkings. Estreia: 09/3/11

Indicado ao Oscar de Figurino

Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.

Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.


A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.

A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.

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