quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O MESTRE

O MESTRE (The master, 2012, The Weinstein Company, 144min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Mihai Malaimare Jr.. Montagem: Leslie Jones, Peter McNulty. Música: Johnny Greenwood. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: David Crank, Jack Fisk/Amy Wells. Produção executiva: Ted Schipper, Adam Somner. Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Madisen Beaty. Estreia: 01/9/12 (Festival de Veneza)

 3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams)

O cinema de Paul Thomas Anderson não é para qualquer um. A forma bastante peculiar com que o cineasta trata de personagens complexas/problemáticas não é exatamente o que os fãs de produções mainstrean procuram quando se dispõem a frequentar salas de exibição. Posto isso, é bom que o espectador saiba exatamente o que esperar quando se dispuser a assistir a "O mestre", um dos mais complexos trabalhos do cineasta que, desde seu segundo longa, "Boogie nights", se tornou uma espécie de queridinho da crítica mas nunca chegou a emplacar um enorme sucesso de bilheteria - justamente por não se render a concessões comerciais. Erroneamente descrito por gente mal-informada como uma crítica à Cientologia - culto bastante popular nos EUA e especialmente em Hollywood, onde tem seguidores fervorosos como Tom Cruise e John Travolta - a trama criada por Anderson vai mais fundo do que simplesmente expor as entranhas de qualquer culto ou religião, dando ênfase muito mais à alma de seu protagonista, torturado por questões pessoais mal resolvidas e uma insegurança cruel em relação a como tratar de sua própria vida.

Vivido por um sensacional Joaquin Phoenix na única atuação masculina de 2012 que era capaz de tirar o Oscar das mãos de Daniel Day-Lewis, o veterano da Marinha americana Freddie Quell é uma das mais fortes personagens criadas por Paul Thomas Anderson - e isso que estamos falando do homem por trás de crias antológicas como Dirk Diggler e Jack Horner, de "Boogie nights", Frank McKey, de "Magnólia" e Daniel Plainview, de "Sangue negro" (este último criado pelo romancista Upton Sinclair mas adequado perfeitamente à obra do cineasta). Sofrendo de um alcoolismo crônico oriundo de seu stress pós-guerra e incapaz de manter-se em qualquer emprego - além de ter sérios problemas de relacionamento com as pessoas que o rodeiam - ele acaba, em uma de suas crises, invadindo o iate de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), criador e líder de um culto chamado A Causa. Percebendo em Freddie uma alma presa a questões traumáticas de seu passado, Dodd também vê no jovem um grande potencial e o aceita junto a seu grupo e sua família. O comportamento errático e violento de Freddie, porém, vai entrar em rota de colisão com as regras e ensinamentos de Dodd, que se vê pressionado a tomar uma séria decisão entre manter ou não o rapaz junto dele.


"O mestre" é o típico filme que é muito melhor quando assistido do que quando resumido em palavras - e que cresce a cada revisão. Apesar da história ser interessante por si só, são as imagens cuidadosamente planejadas de Paul Thomas Anderson e a atuação de seus magníficos atores que dão a ele seu status de grande obra. Mesmo que o ritmo por vezes seja claudicante - e exija um nível de paciência extra de seus espectadores - a narrativa de Anderson é instigante o suficiente para prender a atenção, em especial porque, assim como em seus trabalhos anteriores, o roteiro nunca escorrega para o previsível, tanto em termos visuais quanto em níveis de história. Como poucos cineastas de seu tempo, Paul Thomas Anderson tem o dom de mexer em feridas adormecidas de suas personagens, que sofrem para atingir uma redenção que nem sempre existe, e o faz com maestria admirável. Em "O mestre", enquanto questiona a possibilidade das pessoas em ser donas da própria vida (sem depender de muletas de quaisquer tipos, incluindo aí e principalmente a religião) ele brinda o público com interpretações esplêndidas de seu elenco - outra característica marcante de sua filmografia.

É simplesmente hipnotizante, por exemplo, a cena em que Lancaster Dodd tem seu primeiro embate psicológico com Freddie Quell, com uma espécie de interrogatório que leva a uma catarse emocional empolgante: só por essa cena Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman já poderiam sair da cerimônia do Oscar com suas estatuetas douradas debaixo do braço. O mesmo pode ser dito da sequência em que os métodos e o culto de Dodd são questionados pelo convidado de uma festa - cena que tem consequências aterradoras que certamente justificam a má-vontade com que os cientologistas receberam o filme nos EUA. É essencial dizer, no entanto, que "O mestre" não é um filme sobre a Cientologia e nem tampouco critica qualquer espécie de grupo religioso. O filme - que poderia tranquilamente figurar entre os finalistas ao Oscar principal - é mais um impactante estudo psicológico de Paul Thomas Anderson, caminhando para se tornar um dos maiores cineastas americanos em atividade.

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