sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O CONCERTO

O CONCERTO (Le concert, 2009, Les Productions du Trésor/France 3 Cinéma, 119min) Direção: Radu Mihaileanu. Roteiro: Radu Mihaileanu, Alain-Michel Blanc, colaboração de Matthew Robbins, estória de Héctor Cabello Reyes, Thierry Degrandi. Fotografia: Laurent Dailland. Montagem: Laurent Dailland. Música: Armand Amar. Figurino: Viorica Petrovici, Maira Ramedhan Lévy. Direção de arte/cenários: Christian Niculescu, Stanislas Reydellet. Produção: Alain Attal, Michael Blakely, Radu Mihaileanu. Elenco: Aleksey Guskov, Mélanie Laurent, Dmitry Nazarov, François Berléand, Miou-Miou. Estreia: 12/10/09 (Festival de Beauvau)

Uma comédia que une música clássica e crítica político-social em uma trama que não tem medo de misturar dramáticos segredos do passado com toques de humor pastelão não é coisa fácil de se encontrar. Talvez por isso o belo "O concerto" tenha agradado tanto às plateias e à crítica desde sua estreia, no Festival de Cinema de Beauvau. Longe das tradicionais produções francesas - ao menos daquelas menos populares que marcaram o país como pátria de uma cinematografia por vezes hermética demais para o grande público - o filme de Radu Mihaileanu se equilibra com rara sutileza entre o humor e o drama, sem jamais subestimar a inteligência do espectador, que tem a oportunidade de se deliciar com uma história bem contada e sensível, indicada ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e saiu da cerimônia do César (o Oscar francês) com as estatuetas de trilha sonora original e som.

Mesmo sem nenhum astro de primeira grandeza no elenco - o rosto mais conhecido é de Mélanie Laurent, a Shoshana de "Bastardos inglórios" e o par romântico de Ewan McGregor em "Toda forma de amor" - "O concerto" conquista sua audiência sem muito esforço, graças principalmente à forma cadenciada (seria musical?) de sua narrativa. Quando o filme começa, o faxineiro do consagrado Teatro Bolshoi intercepta um fax que convida a tradicional orquestra russa para um concerto de última hora em Paris. Acontece que tal faxineiro era, trinta anos antes, o regente da orquestra, famoso e respeitado até que a ascensão do regime comunista o relegou ao ostracismo artístico. Vendo na excursão proposta pelos franceses a grande chance de recuperar a autoestima perdida quando foi demitido em plena apresentação pelo fato de ter dado emprego a judeus, Andrey Simoniovich Filipov (Aleksey Guskov) resolve reunir seus antigos colegas e fazer-se passar por atuais profissionais do grupo. Para isso, ele terá que reuní-los apesar do tempo tê-los afastado e contratar como empresário o ex-agente da KGB Ivan Gravilov (Valeryi Barinov) - o homem responsável por seu afastamento dos palcos. O que poucos imaginam, na verdade, é que Andrey tem outro objetivo com o concerto, algo relacionado com o passado da festejada violinista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent).


Dedicando os dois terços iniciais de seu filme à busca de Andrey pelos recursos necessários à sua viagem e à organização do concerto, Mihaileanu oferece à plateia uma comédia de situações leve e quase despretensiosa, centrada em personagens cujos estilos de humor variam entre o bufão e o quase minimalista - mesmo que por vezes suas opções soem deslocadas, a exemplo da confusão exagerada em uma festa de casamento. Quando o drama assume os holofotes, no entanto, é que "O concerto" diz a que veio: enquanto mergulha o público nos dramas que envolvem a infância de Anne-Marie e a juventude de Andrey, o cineasta romeno vai costurando um delicado e comovente painel de emoções humanas que chega ao clímax na aguardada apresentação da orquestra, uma explosão fascinante de música e sentimentos capaz de arrepiar ao mais cético espectador. Se até então havia alguma dúvida dos motivos que levaram o filme a ser tão querido, ela se desfaz conforme a intensa melodia de Tchaikovsky preenche a tela e as peças do quebra-cabeça embaralhado pelo roteiro começam a se encaixar.

"O concerto" não é uma obra-prima. Algumas quebras de ritmo em sua narrativa e certos desvios de foco enfraquecem o resultado geral, mas é inegável que a comunhão entre a direção elegante, o elenco homogêneo e a inusitada mistura de música clássica e política deu liga. A lembrança que o filme deixa no espectador é a melhor possível, com seu final emocionalmente potente e a beleza de sua trilha sonora. Em um tempo repleto de violência e humor de baixo calão, não deixa de ser um bálsamo de bom gosto e delicadeza.

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