sábado, 10 de outubro de 2015

OBEDIÊNCIA

OBEDIÊNCIA (Compliance, 2012, Bad Cop Bad Cop Film Productions/Dogfish Pictures, 90min) Direção e roteiro: Craig Zobel. Fotografia: Adam Stone. Montagem: Jane Rizzo. Música: Heather McIntosh. Figurino: Karen Malecki. Direção de arte/cenários: Matthew Munn/Tom McMillan. Produção executiva: Carina Alves, James Belfer, David Gordon Green. Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin, Lisa Muskat, Theo Sena, Craig Zobel. Elenco: Ann Dowd, Dreama Walker, Pat Healy, Philip Ettinger, Bill Camp, Ashlie Atkinson. Estreia: 21/01/12 (Festival de Sundance)

O que leva uma pessoa a obedecer cegamente ordens de autoridades, sem ao mesmo questionar os limites de tais comandos? Até que ponto as pessoas são capazes de ir quando confrontadas com uma situação de tensão e paranoia? O ser humano realmente é bom por natureza e só age com maldade por extrema necessidade? Tais questões, importantes e polêmicas, são o combustível do perturbador "Obediência", filme independente eleito como um dos dez melhores de 2012 pelo prestigiado National Board of Review - que também reconheceu a excelência de Anne Dowd na categoria de atriz coadjuvante. Baseado em fatos reais ocorridos em 2004 - mas que surpreendentemente são mais comuns nos EUA do que se poderia imaginar - o filme de Craig Zobel mergulha o espectador em um claustrofóbico pesadelo que envolve a jovem funcionária de uma rede de fast-food acusada injustamente de roubar a bolsa de uma cliente. Centrando sua trama basicamente em uma exígua sala nos fundos do restaurante, Zobel obriga o público, sem dó, a compartilhar de uma revoltante história de crueldade e tensão.


A protagonista do filme é a carismática Becky (Dreama Walker), atendente do balcão de uma lanchonete popular na cidade de Ohio. Em um dia como outro qualquer, movimentado e complicado pela falta de ingredientes essenciais para os sanduíches vendidos no local, ela é acusada de ter roubado dinheiro de dentro da bolsa de uma cliente. Quem a acusa, por telefone, é um homem que se apresenta como Oficial Daniels (Pat Healy) e que pede à gerente do estabelecimento, Sandra (Ann Dowd), que leve a funcionária para um local isolado dos demais empregados. Em uma sala onde funciona o escritório, Sandra é incitada - sob o pretexto de apressar as investigações e evitar maiores complicações para a assombrada jovem - a revistar Becky, obrigar-lhe a tirar as roupas e deixá-la afastada de todo mundo até a chegada da polícia. Com o passar do dia, as ordens do policial ficam mais e mais ousadas, envolvendo até mesmo o noivo de Sandra, Van (Bill Camp) - que acaba por ultrapassar os próprios limites morais quando incentivado pelo suspeito homem da lei.


Conciso em sua maneira de conduzir a ação e manter a tensão até os minutos finais sem que seja preciso apelar para o óbvio e o mórbido, Craig Zobel constrói um filme desconfortável e realista, que não poupa nem seus personagens nem seu público. Aproximando sua câmera de forma quase invasiva em cada momento da trajetória kafkiana de Becky, ele não se apresenta como apenas uma testemunha neutra, mas principalmente como uma onisciência sufocante e brutal que não permite o menor respiro ou trégua. De forma inteligente e diabólica, também não cai na armadilha de rotular Sandra como vilã, apesar dela deixar escapar, sutilmente - e graças à atuação quase milagrosa de Ann Dowd - uma espécie de satisfação com o fato de castigar a funcionária que pouco antes havia debochado de seu linguajar ultrapassado e de seu recente noivado. Conforme a trama vai andando - e as punições à Becky vão se sucedendo - fica difícil ao espectador manter-se indiferente a tanta arbitrariedade e é nesse momento que se percebe o quão corajoso o cineasta é: ao invés de finalizar sua história com mais uma perseguição típica do cinemão comercial americano, ele prefere o caminho menos grandioso e entrega um clímax sossegado e discreto como o restante de sua obra.

"Obediência" passou quase em branco nos cinemas, principalmente por não ser produto de um grande estúdio ou ter nomes consagrados em seu elenco. Mas é triste, revoltante e intenso de uma maneira que poucos filmes tem a audácia de ser no panorama cinematográfico atual. Vale a pena descobrir.

Um comentário:

Carol Mendes disse...

Adorei a dica de filme!
Confesso que nunca ouvi falar dele, mas realmente gostei da proposta.
Já coloquei na minha lista do filmow, haha.

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