quarta-feira, 28 de outubro de 2015

UM DIVÃ PARA DOIS

UM DIVÃ PARA DOIS (Hope Springs, 2012, Columbia Pictures/Mandate Pictures, 100min) Direção: David Frankel. Roteiro: Vanessa Taylor. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Steven Weisberg. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Jason Blumenthal, Nathan Kahane, Jessie Nelson, Steve Tisch. Produção: Todd Black, Guymon Casady. Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carrell, Jean Smart, Elisabeth Shue, Mimi Rogers. Estreia: 08/8/12


Kay e Arnols Soames estão comemorando 31 anos de casamento. Dessa relação sólida e tranquila, nasceram dois filhos e um conforto que transformou-se em comodismo. Dormindo em quartos separados e sem assuntos em comum, o casal parece ter aposentado definitivamente sua vida sexual e afetiva. Mas Kay não quer entregar os pontos facilmente e, depois de ler o livro de um terapeuta de casais extremamente bem-sucedido, gasta quatro mil dólares de suas economias pagando um intensivo de sete dias em uma cidade costeira do Maine para recuperar seu casamento. A princípio decidido a não acompanhar a esposa no que considera uma loucura, Arnold acaba por ceder e eles começam, então, um período onde terão que trazer à tona assuntos que aprenderam a esconder com o passar dos anos. Com essa sinopse, “Um divã para dois” poderia servir para um drama-cabeça do sueco Ingmar Bergman, uma comédia intelectualizada de Woody Allen ou um filme erótico metido a profundo de Bernardo Bertolucci. Mas, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones nos papéis principais e a direção de David Frankel (de “O diabo veste Prada”), é apenas uma comédia dramática com bons momentos, bom elenco e a dose de previsibilidade comum a uma produção comercial e despretensiosa. Não muda a vida de ninguém, mas é garantia de um passatempo bastante agradável.
É lógico que ter Meryl Streep ajuda e muito. Já que o roteiro não foge do banal e da superficialidade, o talento da atriz em tirar leite de pedra acaba por tornar-se a principal razão para assistir-se ao filme. Mestre do minimalismo, Streep consegue convencer tanto nos momentos de humor – sutil às vezes, quase de mau-gosto de vez em quando – quanto naqueles em que sua capacidade de falar com os olhos lembra a plateia dos motivos que a levam a ser considerada a melhor atriz americana de sua geração. Ciente das vontades e do objetivo de Kay em salvar seu casamento e recuperar os dias de paixão com o marido, o público torna-se seu cúmplice, entendendo sem fazer esforço o que se passa por sua cabeça diante das constrangedoras perguntas formuladas pelo dr. Bernard Feld (Steve Carrell, bastante contido). Em contraste com a quase insensibilidade do marido (Tommy Lee Jones mais uma vez em um papel seco e no limite do brutal), Streep é uma flor de delicadeza, capaz de ultrapassar seus limites morais para reencontrar a felicidade doméstica (inclusive tentando praticar o sexo oral que aprendeu a fazer lendo um livro escrito por gays para ajudarem mulheres como ela). Mas que as feministas não preparem suas reclamações: se Kay corre atrás do prejuízo, Arnold também percebe, um tempo depois, que precisa fazer a mesma força. O filme não tem viés feminista nem machista. É apenas inconsequente.



Kay não é uma dona-de-casa que viveu para os filhos – apesar de não ter uma “carreira”, trabalha fora e tem condições suficientes para uma vida independente, se assim o quisesse. Arnold não é um homem mau, é apenas uma cria de sua geração, em que ser o provedor basta para ser considerado um bom pai de família. Amor e sexo quase não entram na sua equação, e ele acha que nunca ter traído Kay com outra mulher faz dele um exemplo a ser seguido. Ambos tem suas razões, ambos tem suas culpas. Ao longo do caminho, deixaram de lado suas vontades e seus desejos, assim como a disposição de falar sobre eles. Tudo parecia feliz. Mas, como bem lembra o terapeuta, para curar um desvio de septo é preciso quebrar o nariz; e para quebrar o nariz é preciso que isso seja feito de forma rápida. Kay é a catalisadora desse desejo de mudança. Arnold demora a acompanhá-la. É uma visão um tanto simplista a respeito das características de gênero, mas é preciso entender que estamos falando de um filme hollywoodiano com pretensões puramente comerciais e dirigido por um cineasta apenas correto e sem ambições sociológicas. “Um divã para dois” não se propõe a ser um estudo sobre as relações homem/mulher. Ele quer ser apenas uma boa comédia, aspiração que ocasionalmente alcança.
O maior acerto do filme é, sem dúvida, direcionar seu foco nos atores. Mesmo relegando a ótima Elisabeth Shue a uma única cena e Mimi Rogers a uma participação que nem chega a ser considerável, Frankel explora sem medo o talento superlativo de Streep e Tommy Lee Jones – que chega até mesmo a sorrir e dançar em uma cena, fato raro em uma carreira repleta de personagens carrancudos e ranzinzas. Sem apelar para o humor que se poderia esperar de Steve Carrell – o que não deixa de ser uma pena, já que o ator é sensacional quando tem um bom material em mãos, que o digam “Pequena Miss Sunshine” e “Amor à toda prova” – o cineasta só erra feio quando prefere manter-se no trivial e perde a oportunidade de discutir com mais afinco as questões levantadas pela trama: desde o princípio dá para imaginar o desfecho da história, e o roteiro nada faz para mudar essa percepção. Essa falta de ousadia é o que, afinal, impede “Um divã para dois” de ser uma comédia memorável, mantendo-a no nível de um entretenimento divertido, mas nunca brilhante.

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