sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 years a slave, 2013, Regency Enterprises/River Road Entertainment, 134min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: John Ridley, livro de Solomon Northup. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Hans Zimmer. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Alice Baker. Produção executiva: John Ridley, Tessa Ross, Bianca Stigter. Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Brad Pitt. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steve McQueen), Ator (Chiwetel Ejiofor), Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama 

A ainda curta filmografia em longa-metragem do cineasta Steve McQueen - até então restrita a dois nomes, os poderosos "Hunger" e "Shame" - ganhou um importante terceiro capítulo com "12 anos de escravidão", um filme que se utiliza de seu requintado senso estético para contar uma trama pungente e cruel sobre um dos períodos mais nefastos da história da humanidade. Baseado em um história real, seu trabalho - premiado com um Golden Globe de melhor drama e três estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme) - tem um apelo mais universal do que os anteriores, mas, assim como eles, prescinde dos clichês ao evitar o sentimentalismo fácil, armadilha na qual os filmes sobre o tema frequentemente caem. Se a intenção do espectador é emocionar-se com longas sequências de maus-tratos ao som de um música grandiloquente e discursos empolados sobre liberdade, o filme não é este. "12 anos de escravidão" é forte, sim, mas sua força reside justamente em seu distanciamento milimetricamente calculado para emocionar sem pieguice.

O roteiro repleto de elipses - o que tanto ajuda na agilidade quanto atrapalha na compreensão de alguns fatos para quem está acostumado à maneira quase didática com que Hollywood normalmente trata seu público - talvez seja o primeiro fator de estranhamento do filme de McQueen."12 anos de escravidão" já começa sem explicar muito, deixando a audiência tão atônita quanto o protagonista, que se vê, sem entender muito o que está se passando, como um escravo, muito tempo depois de já ter sido liberto e ter uma vida como um homem comum nos EUA pré-Guerra de Secessão. É aos poucos que a trama começa a ser explicada, e mesmo assim, não de maneira linear. O roteirista John Ridley (também oscarizado) parece ter compreendido exatamente o estilo do cineasta, preferindo mostrar a luta do protagonista pela reconquista da liberdade mais através de imagens poderosas do que por diálogos - não chega a ser nervosamente silencioso como seus filmes anteriores, mas aposta acertadamente nas sensações em detrimento da manipulação sentimental.


E é a opção de Steve McQueen em fugir da manipulação o grande diferencial de seu filme. Por ser negro - e consequentemente ter uma ligação bastante emocional com o tema da obra - seria previsível que McQueen se deixasse levar pela tendência a enfatizar o lado fisicamente cruel da narrativa, forçando o espectador a emocionar-se com uma música redundante e interpretações exageradas. Seguindo o caminho oposto, ele prefere documentar a história sem subterfúgios outros que não o absurdo da situação, acreditando - acertadamente - que não é necessário aumentar o que já é sofrido o suficiente. A tática dá certo? Sim e não. Sim porque oferece mais ao público do que o esperado em termos de qualidade narrativa. Não porque talvez esse mesmo público - mal-acostumado que está - tivesse em mente mais um espetáculo de sadismo do que um libelo delicado à liberdade.

E não dá para falar de "12 anos de escravidão" - e louvar suas inúmeras qualidades - sem mencionar o elenco excepcional escalado por Steve McQueen. Chiwetel Ejiofor, até então um ator relegado a papéis coadjuvantes em filmes grandes ("Simplesmente amor" e "2012") ou papéis importantes em filmes bons pouco vistos ("Coisas belas e sujas") entrega uma performance silenciosa e expressiva no papel de Solomon Northup, um homem determinado a encarar seu destino sem deixar de perder a dignidade de ser humano - mesmo diante de atrocidades e golpes baixos. A estreante Lupita Nyong'o dá um show como a desesperada Patsey, objeto de desejo de seu senhor - e por isso mesmo alvo da ira de sua senhora - em pelo menos uma grande cena (seu Oscar de atriz coadjuvante foi mais do que merecido). E, se o elenco masculino conta ainda com bons momentos de Paul Dano e a presença do produtor Brad Pitt, é novamente Michael Fassbender (em seu terceiro trabalho com o diretor) quem rouba todas as cenas em que aparece. Como o cruel Edwin Epps, o ator alemão comprova seu imenso talento em um personagem a anos-luz de distância de seu militante político de "Hunger" ou o viciado em sexo de "Shame". Basta que apareça em cena para que Fassbender convença a audiência de sua maldade inerente. Não é pouca coisa.

No final das contas, "12 anos de escravidão" é um grande filme, contado com elegância e emoção nas medidas certas e que tem a ousadia de manter o estilo de seu diretor mesmo que ele não seja o que a grande massa espera. Vai fazer história, independente de ter sido eclipsado na cerimônia do Oscar pelos efeitos especiais de "Gravidade" - não teve um orçamento milionário, mas tem um coração imenso.

Nenhum comentário: