quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

TOM NA FAZENDA

TOM NA FAZENDA (Tom à la ferme, 2013, MK2 Productions/Arte France Cinéma, 102min) Direção: Xavier Dolan. Roteiro: Xavier Dolan, Michel Marc Bouchard, peça teatral de Michel Marc Bouchard. Fotografia: André Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Gabriel Yared. Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Colombe Raby/Pascale Deschênes. Produção executiva: Xavier Dolan, Nancy Grant. Produção: Xavier Dolan, Charles Gillibert, Nathanael Karmitz. Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy, Evelyne Brochu, Manuel Tadros. Estreia: 02/9/13 (Festival de Veneza)

Menino-prodígio do cinema canadense, Xavier Dolan tomou o mundo de assalto logo em sua estreia como cineasta, o biográfico "Eu matei a minha mãe", lançado quando ele tinha apenas 20 anos de idade e que lhe rendeu entusiasmados elogios e prêmios, inclusive no sisudo Festival de Cannes. Depois disso, lançou o estiloso "Amores imaginários" - que enfatizava seu cuidado com o visual e o tornou queridinho do público que buscava um cinema que transitasse entre a seriedade do cinema francês e o tom mais comercial das produções hollywoodianas. Porém, depois do quase pretensioso "Laurence Anyways" - também premiado em Cannes a despeito de seus excessos - o ainda jovem Dolan (nascido em 1989) mostrou que também sabe ser sutil. Lançado no Festival de Veneza de 2013, "Tom na fazenda" surpreendeu por deixar de lado todas as características tão marcantes na filmografia do diretor (a passionalidade juvenil, a preocupação em exagero com o visual, a dificuldade em cortar cenas desnecessárias) e começar uma fase de maturidade em sua carreira. É uma grata surpresa, até mesmo para seus detratores.

Pela primeira vez utilizando material alheio - no caso uma peça teatral do corroteirista Michel Marc Bouchard - Dolan conta uma história onde os silêncios, o não-dito e o subtexto são muito mais importantes do que os diálogos, que surgem apenas como mapa para uma história de sentimentos dúbios e doentios. O próprio diretor ficou com o papel central, o publicitário Tom, que deixa Montreal para acompanhar o funeral do namorado, em uma cidade do interior do Canadá. Hospedado na fazenda de propriedade da família do rapaz - que escondia da mãe sua condição de homossexual - ele imediatamente percebe que terá grandes problemas em lidar com o irmão do morto, o truculento Francis (Pierre-Yves Cardinal), que tão logo o vê inicia um processo pouco discreto de bullying. Enquanto engole em seco as provocações do "cunhado" - que também lhe dá inúmeras mostras de uma personalidade torturada - Tom ainda precisa convencer Agathe (Lise Roy), a mãe dos dois, que seu filho Guillaume tinha uma noiva na cidade. Para isso, ele conta com a ajuda da amiga Sarah (Evelyne Brochu), que chega à fazenda justamente quando a relação entre Tom e François já está ultrapassando os limites da normalidade.


Um filme construído mais em cima de perguntas do que de respostas - como Guillaume morreu? qual era exatamente a relação dele com o irmão? por que François ainda mora com a mãe? por que Tom simplesmente não vai embora da fazenda quando os ataques de François aumentam de intensidade? o que dizia nos diários de Guillaume? - "Tom na fazenda" é precioso por deixar que o público preencha as lacunas da história de acordo com sua imaginação. Até mesmo a tendência de Dolan em exprimir-se através de gritos é deixada de lado, mostrando um lado até então desconhecido do ator, que injeta intensidade em seu personagem através de olhares (apavorados, devastados, desejosos, tímidos) e não apenas dos diálogos poderosos de Bouchard - que também dão oportunidade aos ótimos Lise Roy (em papel que também defendeu nos palcos) e Pierre-Yves Cardinal, perfeito na pele de um homem cuja verdadeira face se mantém escondida até mesmo quando tudo parece estar claro. Dolan acerta em priorizar a dinâmica da relação entre Tom e François - a força-motriz da trama - e o faz com uma sutileza surpreendente, acentuada pela trilha sonora discreta do premiado Gabriel Yared que dá espaço até mesmo para a melancólica "Going to a town", cantada por Rufus Weinright nos créditos de encerramento.

Ao deixar no espectador uma constante sensação de perigo e tensão, Javier Dolan consegue, com "Tom na fazenda", a façanha de unir, em um mesmo filme, o drama da morte, a angústia de ter que esconder a real identidade, o medo da violência e a sensação indescritível do desejo pelo perigo. Cineastas mais experientes talvez tivessem dificuldade em mesclar tantos elementos, mas Dolan, felizmente, acertou em cheio - e preparou a audiência para seu filme seguinte, o devastador "Mommy", em que fez as pazes com o passado e mostrou uma maturidade precoce e muito bem-vinda.

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