sábado, 26 de dezembro de 2015

MANDELA: O CAMINHO PARA A LIBERDADE

MANDELA: O CAMINHO PARA A LIBERDADE (Mandela: Long walk to freedom, 2013, Videovision Entertainment/Distant Horizon/Film Afrika Worldwide, 141min) Direção: Justin Chadwick. Roteiro: William Nicholson, autobiografia de Nelson Mandela. Fotografia: Lol Crawley. Montagem: Rick Russell. Música: Alex Heffes. Figurino: Diana Cilliers, Ruy Filipe. Direção de arte/cenários: Johnny Breedt/Fred Du Preez, Melinda Launspach, Mandla Mathenjwa. Produção executiva: Basil Ford, François Ivernel, Cameron McCracken, Philswie Mthethwa, Geoffrey Ohena, Sudhir Pragjee, Sanjeev Singh. Produção: Ananth Singh. Elenco: Idris Elba, Naomie Harris, Tony Kgoroge, Riaad Moosa, Zolani Mkiva, Simo Mogwaza. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Ordinary love")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Ordinary love") 

Um dos maiores desafios quando se decide contar a história de uma vida em um filme - em especial uma vida longa e repleta de acontecimentos de suma importância - é conseguir condensá-la em palatáveis duas horas de duração (ou em alguns casos, um pouco mais) sem soar superficial ou deixar de lado acontecimentos vitais. Cineastas experientes já caíram na armadilha (Richard Attenborough acertou em "Gandhi" e falhou em "Chaplin", por exemplo) e o relativamente novato Justin Chadwick por pouco não se afundou ainda mais com o esperado "Mandela: o caminho para a liberdade". Com apenas dois filmes no currículo - o mais famoso deles sendo "A outra", adaptação do romance de Philippa Gregory sobre Ana Bolena e Henrique VIII, estrelado por Natalie Portman e Eric Bana - Chadwick arriscou-se na condução da história de uma das personalidades fundamentais do século XX e sobreviveu para contar a história. Mesmo com os defeitos que se poderiam esperar de uma produção tão ambiciosa, "Mandela: o caminho para a liberdade" consegue o feito nada desprezível de encapsular em pouco menos de duas horas e meia de projeção uma história repleta de sofrimento, esperança e violência sem deixar de lado o essencial: o retrato de seu protagonista como ser humano, passível de erros e acertos como qualquer um.

Com o roteiro de William Nicholson - Oscar por "Os infiltrados" - baseado na autobiografia do próprio Mandela, o filme de Chadwick não se contenta em mostrar ao público apenas as lutas do protagonista contra o apartheid e seu despertar político junto ao CNA (Congresso Nacional Africano) que acabou por levá-lo à presidência. Sem medo de querer abraçar o mundo com as pernas, Nicholson começa sua história na infância de Nelson, em uma tribo afastada da capital do país, e acompanha sua trajetória até as eleições de 1994, quando ele se torna o primeiro presidente negro da África do Sul. Quase didaticamente, o filme expõe à plateia as batalhas raciais que fizeram da região um dos lugares mais socialmente injustos do mundo enquanto segue a vida pessoal de seu protagonista, com seus casamentos falidos e até mesmo sua incapacidade de lidar com a desigualdade. Sem medo de denegrir uma imagem quase santificada pela população, o filme de Chadwick mostra um jovem Nelson Mandela capaz de agredir a primeira esposa e até seu lado mulherengo dá as caras - felizmente, porém, esse fator "TV Fama" não assume o foco por muito tempo, já que suas conquistas como homem público é que são o ponto central da produção, que decepcionou a muitos quando não alcançou todas as indicações ao Oscar que se esperava (apenas a bela canção-tema, da banda irlandesa U2, chegou à festa da Academia, depois de ter ganho um Golden Globe).


Interpretado com um misto de fúria e delicadeza por Idris Elba - ignorado pelo Oscar mas lembrado pelo Golden Globe com uma indicação à estatueta - o Nelson Mandela do filme de Chadwick tem pouco do mesmo personagem sob a visão de Morgan Freeman e Clint Eastwood no premiado "Invictus", de 2009. Sua transformação de advogado determinado a lutar pela igualdade racial através da luta física em um homem mais maduro e ciente de que apenas o diálogo pode mudar o estado das coisas é mostrada com delicadeza por um trabalho admirável de modulação de voz, de olhares mais complacentes e uma edição eficiente, que equilibra seu período na cadeia com as mudanças sociais e políticas que ocorrem em seu país e na vida de sua família (em especial na de sua segunda esposa, Winnie, em excelente interpretação de Naomie Harris). A opção em contar a história de Mandela juntamente com a da África do Sul de seu tempo é acertada, por permitir à audiência que entenda com todos os detalhes o tamanho de sua importância para o país e o mundo. Pode parecer uma ambição exagerada, mas Chadwick, mesmo com pouca experiência, consegue transmitir em vários momentos a angústia e a dor de uma nação dividida pela cor. Talvez um cineasta mais ousado pudesse injetar mais potência às cenas, mas seria injusto não reconhecer as muitas qualidades de sua obra.

"Mandela: o caminho para a liberdade" não é o filme que poderia ser. Tem alguns momentos francamente dispensáveis e por vezes carece de um foco mais definido. Porém, é interpretado com vigor e paixão, conta sua história sem apelar para o sentimentalismo e, melhor ainda, serve como um lembrete (mais um) sobre a força do amor em detrimento do ódio. Em uma época onde a tolerância precisa ser cada vez mais desenvolvida, é um filme obrigatório, sobre uma personalidade indispensável. Não é uma obra perfeita, mas é suficientemente bom para lembrar a todos sobre toda essa tragédia que ainda hoje machuca o mundo.

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