domingo, 27 de dezembro de 2015

GLORIA

GLORIA (Gloria, 2013, Fabula/Nephilim Producciones, 110min) Direção: Sebastián Lelio. Roteiro: Sebastián Lelio, Gonzalo Maza. Fotografia: Benjamín Echazarreta. Montagem: Sebastián Lelio, Soledad Salfate. Figurino: Eduardo Castro. Direção de arte: Marcela Urivi. Produção executiva: Andrea Carrasco Stuven, Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue. Elenco: Luis Collar, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Paulina García, Sergio Hernández, Diego Fontecilla, Fabiola Zamora, Luz Jiménez. Estreia: 10/02/13 (Festival de Berlim)

Gloria é uma mulher de cinquenta e poucos anos, separada há mais de uma década, mãe de dois filhos adultos, avó de um bebê e que mora sozinha em um pequeno apartamento de Santiago de onde pode ouvir as crises de um jovem vizinho com problemas psiquiátricos. Nos fins-de-semana, suas noites são preenchidas por bailes da terceira idade, onde ela tenta encontrar companhia e quem sabe um novo amor. Em uma dessas noitadas, ela conhece Rodolfo, um homem também separado, com quem inicia um promissor romance. Porém, o passado de seu novo amante não demora a atrapalhar seus planos: incapaz de distanciar-se definitivamente da esposa e das duas filhas, ele mostra-se não a solução para seus problemas, e sim mais uma dificuldade a ser vencida na luta pela felicidade e pela paz de espírito.

Com uma personagem simples na descrição e complexa na vastidão de sentimentos - demonstrados através de olhares melancólicos e de lágrimas que brotam nos momentos mais impróprios - a chilena Paulina García conquistou os eleitores do Festival de Berlim de 2013, de onde saiu-se vitoriosa como melhor atriz. Nada mais justo. Sem apelar para histrionismos previsíveis, García é o corpo e a alma de um filme cuja simplicidade aparente esconde uma profusão de camadas emocionais que justificaram sua escolha como representante oficial do Chile na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Mesmo tendo ficado de fora da lista final, "Gloria" não deixou de tornar-se, aos poucos, um dos filmes mais comentados do ano pelos fãs de cinema, principalmente pela receptividade mais que positiva junto a diversos festivais internacionais. Minimalista ao extremo - tanto em termos de roteiro quanto de interpretação - o filme de Sebastián Lelio é daqueles que demoram a conquistar (talvez seja necessário até mesmo mais de uma sessão para que isso aconteça), mas o faz sem artifícios dramáticos. É a vida como ela é, retratada com delicadeza e sobriedade.


Interpretada com impressionante naturalidade por Paulina García - que não demonstra o menor pudor em mostrar sua nudez em cenas de sexo que jamais passariam pelo controle de qualidade hollywoodiano (leia-se sem filtros ou corpos esculpidos à mão) - Gloria é uma mulher que se encontra em qualquer supermercado ou fila de banco: discreta atrás de seus grandes óculos, ela se desdobra para ser uma avó presente, faz ioga para agradar à filha que está em vias de envolver-se com um namorado sueco, se incomoda com o vizinho desequilibrado e, como um Tony Manero da terceira idade, trabalha a semana inteira na expectativa de divertir-se nos bailes de sábado. Não tem um corpo malhado e nem procura um príncipe encantado, apenas um homem comum, que esteja a seu lado nos anos que lhe restam. Gloria chora quando se emociona com uma canção - e a trilha sonora faz questão de homenagear a música brasileira, com uma bela versão de "Águas de março" - e chora quando ouve o email que o namorado da filha mandou, dizendo que a ama. Gloria comete erros de julgamento e muitas vezes sua carência a faz parecer uma adolescente. Gloria se sente traída, mas sabe perdoar - assim como também reconhece a hora de ser boba e partir para o contra-ataque. Gloria ri, chora, ama e odeia. Em uns dias perde e em outros ganha. Mas sempre recomeça, porque a esperança é a última que morre.

"Gloria" não é um filme para qualquer tipo de público. Talvez muitos o considerem chato, sem história para contar e com uma protagonista sem as qualidades heroicas que se espera de uma personagem principal. Porém, é esse o objetivo de Sebastián Lelio e seu filme: mostrar a rotina quase sem graça de uma mulher que busca a felicidade mesmo quando parece que não há mais onde se procurar. Mesmo que o filme em vários momentos dê inúmeras porradas na cabeça de sua protagonista - e poucas pessoas teriam sua paciência em relação aos problema que encontra em seu relacionamento com Rodolfo (Sergio Hernández) - ela nunca deixa de lado a tenacidade e a crença em si mesma e no amor. A cena final deixa tudo isso bem claro, e é impossível não estar do lado de Gloria quando os créditos finais começam. Se você não gostou da primeira vez, tente de novo: é aos poucos que tudo vai se tornando belo e encantador.

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