sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

VERSOS DE UM CRIME

VERSOS DE UM CRIME (Kill your darlings, 2013, Killer Films/Benaroya Pictures, 104min) Direção: John Krokidas. Roteiro: John Krokidas, Austin Bunn, estória de Austin Bunn. Fotografia: Reed Morano. Montagem: Brian A. Kates. Música: Nico Muhly. Figurino: Christopher Peterson. Direção de arte/cenários: Stephen Carter/Sarah E. McMillan. Produção executiva: Jared Ian Goldman, Joe Jenckes, Pamela Koffler, Randy Manis, Stefan Sonnenfeld. Produção: Michael Benaroya, Rose Ganguzza, John Krokidas, Christine Vachon. Elenco: Daniel Radcliffe, Dane DeHaan, Michael C. Hall, Ben Foster, Jack Huston, Jennifer Jason Leigh, Elizabeth Olsen, John Cullum, David Cross. Estreia: 18/01/13 (Festival de Sundance)

Com todo o respeito que se pode ter com a obra de autores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, o filme de John Krokidas que conta um período crucial na sua formação vai acabar entrando para a história como "o filme em que Harry Potter fez cenas de sexo gay". Realmente, Daniel Radcliffe deixou para trás o estigma de ator de um personagem só - e um personagem extremamente marcante para toda uma geração - para mergulhar sem medo em um papel difícil e ousado (além da tal cena com outro homem, ele passa o filme todo fumando compulsivamente e usando drogas), mas "Versos de um crime" é bem mais do que apenas o veículo para a maturidade profissional de um jovem ator. Baseado em uma trágica história real acontecida nas raízes do movimento beat - de onde saíram os nomes seminais de Ginsberg, Burroughs e Kerouac - o filme de Krokidas é um bom retrato de um momento único na literatura americana moderna, e o respeito que tem pela trama e por seus personagens pode ser refletido em sua pífia bilheteria: mesmo com o chamariz do nome de Radcliffe nos créditos, a obra mal passou de um milhão de dólares de arrecadação no mercado doméstico. Sinal de que, mais do que simplesmente capitalizar em cima do nome do ator, Krokidas preferiu a integridade do seu trabalho. Só por isso já merece uma espiada.

A trama começa em 1944, quando o jovem Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe, muito bem no papel) é aceito na Universidade de Columbia, para desespero de sua mãe bipolar (Jennifer Jason Leigh) e orgulho de seu pai, o poeta Louis Ginsberg (David Cross). Assim que chega a seu novo universo, o tímido e desajeitado aspirante a escritor entra em rota de colisão com a ortodoxia do ensino e encontra no rebelde Lucien Carr (Dane DeHaan) o companheiro ideal para um novo tipo de vida social, regada a drogas, bebida e boemia. Nesse ambiente, ele conhece também o estranho William Burroughs (Ben Foster, sempre ótimo), de família nobre e ideais estéticos revolucionários e o entusiasmado Jack Kerouac (Jack Huston), que mesmo casado, frequenta o mesmo circuito dos estudantes. Para seu desgosto, porém, ele também fica conhecendo o misterioso David Kammerer (Michael C. Hall), que mantém uma relação dúbia com Carr há alguns anos. Fascinado pelo colega, Ginsberg aos poucos se envolvendo cada vez mais em suas ideais de por em prática uma nova escola literária, até que seus sentimentos começam a atrapalhar os planos - e Kammerer passa a se tornar uma ameaça ao grupo.


Passado no período anterior à publicação das obras mais famosas do grupo de protagonistas, "Versos de um crime" é mais feliz no retrato da geração beatnik do que o esperado "On the road", que Walter Salles lançou em 2012 e foi praticamente ignorado por crítica e público. Ao contrário da produção de Salles, o filme de John Krokidas vai mais fundo em todos os aspectos particulares do universo dos escritores/personagens, desde o consumo de drogas até a sexualidade dúbia que envolve Ginsberg, Carr e Kammerer (mostrado no filme sob uma luz complexa que dá oportunidade a Michael C. Hall de criar um personagem fascinante e monstruoso ao mesmo tempo). Sem medo de enfrentar temas espinhosos, o roteiro passeia sem julgamentos morais por mesas do Harlem, festas particulares regadas a excessos de todo tipo, desafios constantes à seriedade do academicismo da universidade e até pelos polêmicos métodos de inspiração dos autores. Sem deixar-se encantar em exagero por seus personagens, Krokidas (em seu primeiro longa-metragem) os trata com respeito, mas nunca com reverência em demasia, revelando seus defeitos da mesma forma com que mostra seus inúmeros defeitos. O roteiro pode até demorar a chegar onde realmente quer - o crime de que fala o título nacional só acontece mesmo no terço final da narrativa - mas até lá ele permite ao espectador algo raro no cinema contemporâneo: conhecer o que se passa dentro de cada um dos protagonistas.

Mesmo que não aproveite o bastante o talento enorme de Ben Foster como William Burroughs e o trate como coadjuvante de luxo, "Versos de um crime" também tem a seu favor a escalação corajosa de elenco. Daniel Radcliffe sai-se muito bem no papel central, mostrando que existe vida pós-Harry Potter, e seu parceiro de cena, Dane DeHaan, é perfeito para o tipo de personagens torturados. A química entre os dois é perfeita e sempre que estão juntos o filme cresce exponencialmente - coisa que não acontece quando o foco da narrativa cai na amizade entre Carr e Jack Kerouac, um desvio de atenção que quase prejudica o filme justamente quando ele está se encaminhando para seu trágico desenlace. Nem mesmo a doce presença de Elizabeth Olsen como a esposa de Kerouac ameniza a sensação de um precioso tempo desperdiçado quando se tem uma história mais importante a ser contada. Tal pecado, porém, não consegue estragar uma das estreias mais interessantes dos últimos anos na cadeira de direção. Com ou sem Harry Potter, "Versos de um crime" tem mais qualidades que defeitos e merece uma segunda chance junto a seu público-alvo.

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