quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood, 2014, IFC Productions/Detour Filmproduction, 165min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Lee Daniel, Shane Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Rodney Becker/Melanie Ferguson. Produção: Richard Linklater, Jonathan Sehring, John Sloss, Cathleen Sutherland. Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Elijah Smith, Steven Prince. Estreia: 19/01/14 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Linklater), Ator Coadjuvante (Ethan Hawke), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Richard Linklater), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)

Em 1999, o cineasta Paul Thomas Anderson criou, com seu impressionante “Magnólia”, um épico sobre pessoas comuns e colheu elogios unânimes da crítica ao substituir cenas de ação e milhares de figurantes por cenas intimistas e personagens cujas preocupações se resumiam a brigar com seus fantasmas interiores. Quinze anos depois, um outro norte-americano pôs seu nome na história do cinema ao levar ainda mais longe esse conceito da grandiosidade do homem banal: com seu “Boyhood, da infância à juventude”, Richard Linklater encantou críticos, desconcertou plateias e entrou na corrida do Oscar 2015 com o pé direito, concorrendo a seis estatuetas – perdeu as principais, mas deu à Patricia Arquette o prêmio de atriz coadjuvante, repetindo a escolha do Golden Globe. O porquê de tantos aplausos fica claro assim que os créditos finais começam a subir. Em duas horas e meia de duração, Linklater conta, sem lances melodramáticos ou artifícios sentimentaloides, a rotina de um menino normal, desde a escola primária até o momento em que ele sai de casa para cursar a faculdade. Quando criança, Mason não era um garoto problemático; na pré-adolescência, não afundou em drogas ou álcool; e quando finalmente começou a viver de forma independente dos pais, mostra-se um rapaz de confiança e surpreendentemente maduro. Mas é justamente por ser tão comum – tedioso, diriam os detratores – que Mason é um dos personagens mais cativantes do cinema ianque contemporâneo. E o que é mais admirável? Ele é vivido, dos seis aos dezenove anos, pelo mesmo ator, Ellar Coltrane.
Ao contrário do que normalmente acontece em filmes que retratam o processo de amadurecimento de um personagem na transição entre a infância e a adolescência, o diretor não substituiu seu ator central: o que se vê na tela é o trabalho de treze anos, condensado em 150 minutos de cenas desprovidas de emoções falsas e recheadas de uma naturalidade rara no cinemão americano – algo talvez semelhante apenas à trilogia “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite”, não por acaso dirigida pelo mesmo Linklater: seu talento em criar diálogos críveis é tanto que muita gente chegou a questionar sua indicação ao Oscar de roteiro original. Compreensível. Acostumados a filmes que revestem sentimentos e relações humanas com um verniz de previsibilidade cada vez maior, muitos espectadores não souberam entender a proposta e o resultado final da obra. Afinal, pra que perder quase três horas da vida assistindo a vida de um moleque sem grandes problemas e que não possui nenhum poder alienígena? Todos aqueles que embarcaram sem reservas na viagem de Linklater, porém, só tiveram uma opção: considerar-se parte da família de Mason e acompanhar com carinhoso interesse partes de uma vida que poderia facilmente ser a sua.




Quando o filme começa, Mason tem seis anos de idade e é surpreendido com a notícia de que sua mãe, Olivia (Patricia Arquette, em uma decisão corajosa de envelhecer praticamente diante das câmeras), vai voltar a estudar, precisando, para isso, voltar à cidade natal, no Texas. Ao lado da irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), o garoto precisa lidar com o fato de abandonar os amigos e sua rotina. É nessa nova cidade que ele irá desenvolver-se, conhecer o amor, desiludir-se, trabalhar para completar a renda doméstica, descobrir a paixão pela fotografia e, vez ou outra, ter de lidar com os novos maridos da mãe – uma mulher forte, decidida e amorosa, mas incapaz de acertar-se afetivamente. Enquanto isso, vai firmando também a relação com o pai (Ethan Hawke), que, mesmo depois da separação, nunca perdeu o contato com os filhos – ainda que com menos frequência do que todos gostariam. Da primeira cena até o desfecho, não há nenhuma sequência que manipule as emoções do espectador: o cineasta conduz sua narrativa com leveza, bom-humor, ternura e um certo ar de nostalgia que torna tudo ainda mais encantador. Ellar Coltrane, com seu ar ingênuo, constrói um protagonista apaixonante, que se deixa levar pela vida com uma espécie de sabedoria zen, como se soubesse que tudo é parte de uma experiência maior. Ethan Hawke e Patricia Arquette encarnam com garra seus pais, oferecendo ao público trabalhos extremamente difíceis justamente por sua aparente simplicidade e a edição suave e fluida praticamente pega o público pela mão enquanto o acompanha pelos anos dourados de Mason. Pontuado aqui e ali por alguma referência pop – Britney Spears, Harry Potter, Lady Gaga – o roteiro não deixa de ser, também, um panorama sensível de parte da história dos EUA através dos olhos de um de seus filhos.
Linklater – preterido no Oscar por Alejandro G. Iñarrítu e seu “Birdman” – merecia a estatueta. Não apenas por ter investido mais de uma década em uma produção que corria o sério risco de nunca ver a luz dos refletores (a filha do cineasta chegou a pensar em desistir do projeto e Ethan Hawke aceitou a incumbência de levar a ideia adiante no caso da morte do autor) mas por ter ousado desafiar um mercado avesso a novidades e à quebra de paradigmas. Seu filme vai contra todas as regras do mercado – é longo acima da média, não tem grandes astros ou orçamento milionário, não tem um roteiro esquemático nem tampouco apela para efeitos especiais – e não tem a menor vontade de pedir desculpas por isso. É maduro, é belo e valoriza os pequenos momentos da vida como se eles fossem heroicos ou épicos. É, enfim, um dos poucos filmes da história que podem ser considerados como um “retrato da vida”. Muita gente pode torcer o nariz. Mas em inúmeras ocasiões a simplicidade ainda é muito mais interessante do que o luxo, e isso fica óbvio quando o espectador chega ao final do filme querendo ver mais e mais sobre a vida de Mason Jr..

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