sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SEM EVIDÊNCIAS

SEM EVIDÊNCIAS (Devil's knot, 2013, Worldview Entertainment, 114min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrickson, livro "Devil's knot: the true story of the West Memphis Three", de Mara Leveritt. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Philip Barker/Melinda Sanders. Produção executiva: David Alper, Jason Baldwin, Holly Ballard, Maria Cestone, Molly Conners, Scott Derrickson, Michael Flynn, Sarah E. Johnson, Mara Leveritt, Jessie Miskelley Jr., Hoyt David Morgan, Jacob Pechenik. Produção: Paul Harris Boardman, Elizabeth Fowler, Clark Peterson, Richard Saperstein, Christopher Woodrow. Elenco: Reese Witherspoon, Colin Firth, Alessandro Nivola, James Hamrick, Seth Meriwether, Kristopher Higgins, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Matt Letscher, Martin Henderson, Elias Koteas, Dane DeHaan. Estreia: 08/9/13 (Festival de Toronto)

Nem mesmo o prestígio do cineasta canadense Atom Egoyan e o elenco liderado por dois vencedores do Oscar - Reese Witherspoon e Colin Firth - foram atrativos o bastante para que o drama de tribunal "Sem evidências" encontrasse seu público ou agradasse à crítica. Baseado em uma história real ocorrida em 1993, o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 e, ao contrário do que se poderia esperar de uma produção com nomes tão fortes, foi praticamente ignorado tanto nas bilheterias quanto nas cerimônias de premiação. Principalmente por ter sido lançado depois da trilogia de documentários "Paradise lost" - que tratava do mesmo assunto de forma bem mais profunda e detalhada - o primeiro filme americano de Egoyan encontrou resistência por parte da imprensa e passou quase em brancas nuvens pelos cinemas americanos. Seria apenas mais um caso dentre tantos se não fosse um detalhe: apesar de não ser uma obra-prima (nem tampouco o melhor filme do cineasta que assinou o belo "O doce amanhã"), "Sem evidências" é bastante interessante e não mereceu tamanha indiferença.

A trama é instigante e chocante: em uma pequena cidade do Arkansas, três meninos desaparecem misteriosamente e tem seus corpos encontrados alguns dias depois, nus, amarrados e com sinais de tortura. A pressão popular faz com que a polícia - que ignorou solenemente fatos estranhos ocorridos logo após o sumiço das crianças, como o aparecimento de um homem sangrando em um restaurante - chegue rapidamente à solução do caso, prendendo três adolescentes locais, acusados pelo testemunho de uma outra criança que diz ter assistido aos homicídios. De certa forma aliviados pela resolução rápida do caso, os habitantes da cidade sequer questionam os métodos da investigação e aceitam como fato consumado que tudo não passou de um sacrifício humano para rituais de magia negra - afinal, os jovens se vestem de preto, são tatuados, estranhos e falam a quem estiver disposto a ouvir sobre suas relações com o ocultismo. Quem não compra a teoria da polícia, no entanto, é Ron Lax (Colin Firth), investigador particular que se une à equipe de defesa dos rapazes para tentar descobrir a verdade sobre os crimes. Julgando que os réus estão pagando por algo que não cometeram, ele acaba por despertar a antipatia dos pais das vítimas, em especial Pam Hobbs (Reese Witherspoon), uma mulher religiosa que não se conforma com a morte do filho.


Evitando o excesso de flashbacks comum ao gênero, a narrativa clássica e direta de "Sem evidências" procura ater-se basicamente aos fatos relativos aos crimes e ao julgamento, ainda que sua opção em privilegiar o ponto de vista de Lax deixe bem clara sua posição em relação ao veredicto. Imparcial e buscando apenas a justiça pura e simples, o personagem vivido com sutileza por Colin Firth contrasta violentamente com as figuras de autoridade, que não hesitam em criar depoimentos falsos, forjar provas e ignorar pistas em sua sede de solucionar seu caso. Ao mostrar sem filtros a forma como toda uma cidade se volta contra jovens que fogem do padrão de comportamento tido como normal - e que acaba sendo a maior evidência contra eles - o filme de Egoyan também levanta discussões importantes acerca de preconceito e hipocrisia, especialmente quando se sabe que, após o julgamento, outros suspeitos bem menos apropriados ao gosto dos cidadãos de bem foram considerados e devidamente deixados de lado. Sem tentar dar respostas definitivas - mesmo porque elas ainda não existem - o roteiro de "Sem evidências" mostra os fatos de forma clara e objetiva e deixa que a plateia tire as próprias conclusões (por mais óbvias que elas possam ser). E se tanto Witherspoon quanto Firth estão contidos em suas atuações, é mérito do diretor fazer com que sua história fale mais do que seus astros.

Com sua história sendo contada em três frentes que jamais se atropelam (mérito do roteiro e da edição discreta), "Sem evidências" acompanha o julgamento dos acusados, as investigações de Lax e as tentativas de Pam em retornar à vida normal com delicadeza ímpar. Fiel a seu estilo emocionalmente econômico, Atom Egoyan só permite raramente que a dor de Pam se sobressaia ao enfoque policial da narrativa, mas quando o faz toca o coração da plateia sem apelar para o piegas. Talvez essa opção do cineasta em privilegiar o tom sóbrio e a discrição tenha sido um dos motivos da rejeição do filme pelo público e até pela crítica - que provavelmente esperava algo mais potente de um diretor de seu porte. Mas é inegável sua qualidade dramática, seu respeito pela história e pelos personagens e, mais importante ainda, seu sucesso em evitar o sensacionalismo. Não é espetacular, mas é um belo filme, apesar do injusto fracasso afirmar o contrário.

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