sábado, 2 de janeiro de 2016

IDA

IDA (Ida, 2013, Opus Film/Phoenix Film Investiment, 82min) Direção: Pawel Pawilkowski. Roteiro: Pawel Pawilkowski, Rebecca Lenkiewicz. Fotografia: Ryszard Lenczewsi, Lukasz Zal. Montagem: Jaroslaw Kaminski. Música: Kristian Selin Eidnes Andersen. Figurino: Aleksandra Staszko. Direção de arte/cenários: Marcel Slawinski, Katarzyna Sobanska/Jagna Dobesz. Produção: Eric Abraham, Piotr Dzieciol, Ewa Puszczynska. Elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnick. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 

Qualquer fã de cinema que conhece pouco que seja as engrenagens que movem a cerimônia do Oscar sabe que falar sobre o holocausto judeu na II Guerra Mundial é um método quase infalível de conquistar a cobiçada estatueta. Porém, creditar apenas à sua temática histórica o prêmio de melhor filme estrangeiro ao polonês "Ida" seria, no mínimo, injusto e equivocado. Dono de um lirismo que se reflete na esplêndida fotografia em preto-e-branco (também indicada ao Oscar) e na delicadeza de seus enquadramentos, o filme de Pawel Pawilkowski é, acima de tudo, um belíssimo e emocionante filme, conciso e contundente sem que seja preciso apelar para sentimentalismos. Contado principalmente através de suas poderosas imagens, é uma obra que cresce a cada revisão, graças à inteligência do roteiro em revelar apenas o essencial e deixar que a plateia preencha as lacunas de acordo com a imaginação.



A trama do filme se passa no começo dos anos 60, quando a jovem noviça Anna (Agata Trzebuchowska) está em vias de jurar seus votos e tornar-se oficialmente freira. Para sua surpresa, porém, uma tia cuja existência ela desconhecia entra em contato com as superioras do convento pedindo a visita da sobrinha. Temerosa de enfrentar o exterior do convento de onde nunca saiu, Anna descobre que seu nome verdadeiro é Ida, mas essa é apenas uma das várias surpresas que irão atormentá-la pelos próximos dias. Sua tia, Wanda (Agata Kulesza) é uma juíza de renome - apesar de não estar nos melhores dias da carreira - e acaba sendo a responsável por revelar a insuspeita origem da sobrinha, uma judia cujos pais foram assassinados por moradores de uma região rural do país. As duas partem, então, em busca da localização dos restos mortais da família enquanto fazem as pazes com seu trágico passado.

A jornada de Wanda - uma mulher torturada por seus próprios demônios e que afoga suas frustrações em uma promiscuidade chocante à pura noviça - e Ida - uma jovem inocente que aos poucos vai tomando contato com a dura realidade da qual foi poupada a vida inteira - é a base do filme de Pawilkowski, e o roteiro faz questão de frisar suas diferenças de comportamento e pensamento, através de atos e (poucos mas contundentes) diálogos. Com enquadramentos secos e diretos nas cenas do convento e poéticos e abertos nas sequências externas, o cineasta comenta o espírito de suas personagens sem precisar de longas e redundantes explicações verbais. Econômico em tudo - na forma de retratar a dor de suas personagens e até na curta duração de menos de uma hora e meia - o diretor consegue até mesmo a façanha de incluir um pequeno romance em sua trama, sem com isso desviar do foco de sua história, cuja força reside principalmente no talento de suas atrizes em transmitir uma enorme gama de sentimentos apenas com os olhos.

Estreante em cinema, a jovem Agata Trzebuchowska tem o rosto ideal para refletir o turbilhão emocional de uma menina diante dos horrores e da beleza da vida real, mas é sua companheira de cena, Agata Kulesza, quem rouba o espetáculo. Espantosamente parecida com a atriz Rachel Griffiths em alguns ângulos, é ela quem sustenta todas as viradas da história, sempre com precisão cirúrgica nas expressões. Seu arco dramático - de uma mulher aparentemente fria e distante até a vítima devastada de um crime inominável - é tratado com sutileza por Pawel Pawilkowski, que prefere acertadamente manter sua câmera silenciosa e discreta mesmo nos momentos mais trágicos da narrativa. Sua sobriedade (que pode ser confundida com frieza pelo espectador menos atento) casa perfeitamente com o tom de melancolia do filme, que se permite apenas uma curta sequência de fugaz felicidade em toda a sua narrativa. É uma história triste sobre autodescoberta, mas contada com elegância rara e um ritmo suave que só existem em filmes fora do circuito comercial americano. Brilhante!

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