segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

TATUAGEM

TATUAGEM (Tatuagem, 2013, Rec Produtores Associados Ltda., 110min) Direção e roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Ivo Lopes Araújo. Montagem: Mair Tavares. Música: DJ Dolores, Johnny Hooker. Figurino: Christiana Garrido. Direção de arte: Renata Pinheiro. Produção executiva: Nara Aragão. Produção: João Vieira Jr.. Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia, Sylvia Prado, Sílvio Restiffe. Estreia: 15/11/13

Ditadura militar X liberdades individuais e culturais. Repressão X transgressão. Apolo X Dionísio. Violência X amor. Todas essas batalhas, travadas nas ruas, nas camas, nas boates e nas mentes, estão presentes em "Tatuagem", primeiro longa-metragem do pernambucano Hilton Lacerda, conhecido pelo roteiro de alguns dos mais radicais filmes brasileiros da safra pós-"Cidade de Deus", como os polêmicos "Amarelo manga", "Baixio das bestas" e "A febre do rato", todos dirigidos por Cláudio Assis. Em sua estreia como cineasta, ele não vai tão fundo quanto Assis na provocação estética, mas é extremamente bem-sucedido na sua missão de louvar um estilo de vida que, mais do que simplesmente desafiar as convenções sociais e morais de uma época negra na história do país, batia de frente com a truculência do Estado. Libertário, propositalmente exagerado e debochado sem ser bobo, "Tatuagem" é um tapa na cara da hipocrisia ao mesmo tempo em que é um belo documento sobre a liberdade.

Livre das amarras e das obrigações de ser uma produção de viés puramente comercial - leia-se sem o apoio e as imposições da Globo Filmes - "Tatuagem" é um filme marginal que retrata personagens marginais e os eleva à posição de heróis. Sua marginalidade, porém, não é pejorativa. Os protagonistas do filme são marginais porque escolheram viver à margem de uma sociedade doente, hipócrita e cega às atrocidades de uma ditadura militar que cerceou todo e qualquer direito à liberdade de expressão. É por sua coragem de desafiar o status quo que Clécio (Irandhir Santos, fabuloso como sempre) é o líder de um grupo de artistas que brinca com o perigo, com apresentações ousadas que cutucam o governo, a família e quem quer que represente a autoridade. Criativo e apaixonado pela arte do teatro, ele e seus colegas - um grupo que inclui o desaforado Paulete (Rodrigo García) - dividem uma espaçosa casa na Recife de 1978, já nos estertores da repressão, e frequentemente se vê obrigado a lutar pela liberação de seus espetáculos, recheados de palavrões, nudez e tudo aquilo que provoca arrepios nos lares tradicionais. Sua rotina se transforma, porém, quando ele conhece e se apaixona por alguém que pode representar seu fim.


Fininha (Jesuíta Barbosa, uma revelação a ser comemorada) é um jovem de dezoito anos ingênuo e sensível que se vê repentinamente envolvido em um mundo totalmente à parte de seu dia-a-dia. Servindo ao exército como soldado, ele não consegue evitar de se apaixonar por Clécio e seu modo anarquista de ser e viver, repleto de uma liberdade com a qual ele jamais supunha existir. Dividido entre o universo severo e rígido do quartel e a liberalidade quase excessiva do mundo que Clécio representa, Fininha acaba também por servir como ponte entre os dois mundos, principalmente quando passa a ser vítima da desconfiança de ambos os lados: os colegas começam a questionar sua lealdade e sexualidade e seus novos amigos temem que ele seja um agente infiltrado para destruir o grupo e prender a todos eles. No meio de todas essas dúvidas, ele ainda precisa lidar com a família e o amor verdadeiro que sente por Clécio - amante, mentor e amigo.

Que não se espere de "Tatuagem" a estética pasteurizada do cinema comercial brasileiro. Hilton Lacerda mostra-se fiel à sua forma radical de ver o mundo que o cerca, com uma fotografia quase suja de Ivo Lopes Araújo e uma câmera na mão que mergulha o espectador na trama sem pedir licença. Não há, nas apresentações do grupo "Chão de estrelas", nenhum glamour, apenas o amor pela arte e pela liberdade, reiterado por um humor quase chulo que cospe no rosto do perigo enquanto canta e dança diante de um entusiasmado público também sedento por ar puro. Lacerda não cai na tentação de enfeitar seus personagens ou sua história, afirmando em cada sequência sua origem nordestina e sua ideologia estética e cultural - o que pode incomodar a um público mais tradicional, assim como as cenas de sexo gay bastante ousadas mas jamais vulgares. Símbolo de um cinema mais autoral (e mesmo assim bem mais acessível do que as obras de Cláudio Assis), "Tatuagem" não é um filme para todos. É preciso estar disposto a penetrar no universo anarquista da produção para se desfrutar de tudo que ele tem de bom - ou até mesmo para rechaçá-lo com argumentos sólidos. A obra de Hilton Lacerda é mais que um filme, é uma experiência. Se vale a pena tê-la é uma questão unicamente de opinião.

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