sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

É O FIM

É O FIM (This is the end, 2013, Columbia Pictures, 107min) Direção: Evan Goldberg, Seth Rogen. Roteiro: Evan Goldberg, Seth Rogen, curta-metragem "Jay and Seth vs. The Apocalypse", de Seth Rogen, Jason Stone, Evan Goldberg. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Zene Baker. Música: Henry Jackman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Chris Spellman/Helen Britten. Produção executiva: Nicole Brown, Barbara A. Hall, Kyle Hunter, Nathan Kahane, Ariel Shaffir, Jason Stone. Produção: Evan Goldberg, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Seth Rogen, Jonah Hill, Jay Baruchel, Danny McBride, Craig Robinson, Michael Cera, Emma Watson, Mindy Kaling, David Krumholtz, Christopher Mintz-Plasse, Rihanna. Estreia: 03/6/13

Alguns filmes - comédias em especial - precisam que a plateia compre sua ideia, por mais absurda que seja, e se comprometa a deixar de lado suscetibilidades e ambições intelectuais. Um exemplo vivo dessa afirmação é o anárquico "É o fim", um besteirol de primeira grandeza co-dirigido por Evan Goldberg e pelo ator Seth Rogen. Para se ter uma ideia do nível de esculacho da produção - que custou pouco mais de 30 milhões aos cofres da Columbia e acabou surpreendendo todo mundo com uma arrecadação superior a 100 milhões - basta dizer que os dois diretores também estão por trás de "Segurando as pontas", filme de 2008 que virou cult graças justamente a seu tipo peculiar de humor, que mistura sem cerimônia piadas sobre consumo de drogas, certa dose de escatologia e brincadeiras bem-humoradas a respeito da personalidade dos próprios atores. Porém, enquanto "Segurando as pontas" pendia bem mais para o universo de um público simpático ao uso da maconha, com sua história de ação nonsense, "É o fim" debocha sem dó nem piedade de um quase-gênero hollywoodiano: o filme-catástrofe. Inspirado em um curta-metragem dos próprios Rogen e Goldberg - juntos com Jason Stone - o filme é um festival de besteiras que beiram o ridículo. Mas não é que funciona?

Novamente é preciso deixar claro que é preciso esquecer qualquer resquício de sensibilidade para gostar de tanta palhaçada (e nem sempre elas funcionam a contento), mas uma vez admitindo que quer apenas se divertir, o público não terá do que reclamar - a não ser, obviamente, que considere engraçado apenas as sutilezas de Woody Allen. Sutileza é uma palavra que parece não existir no dicionário de Rogen e Goldberg, dois adultos com cérebro de adolescente nerd que fazem humor com a delicadeza de uma marretada - o que, a julgar pelo sucesso, agrada muito mais do que se pode imaginar. "É o fim" pode até ter como chamariz a participação especial de nomes consagrados popularmente, como a cantora pop Rihanna e a eterna Hermione da série "Harry Potter" Emma Watson, mas é seu humor escrachado e sem papas na língua a sua maior qualidade e o maior responsável pelo êxito financeiro que deixou muita gente de queixo caído dentro de uma indústria muitas vezes imprevisível. E provou também que, ao contrário do que possa parecer, nem sempre é preciso um astro de primeira grandeza ou um personagem idolatrado no mundo dos filmes de ação para que um filme ultrapasse qualquer expectativa.


A trama de "É o fim" - se é que se pode chamar de trama - é bobagem pura e tem como protagonistas atores conhecidos do público interpretando versões exageradas/debochadas/irônicas deles mesmos. O filme começa quando Seth Rogen vai ao aeroporto de Los Angeles recepcionar o amigo Jay Baruchel, que não tem a melhor das relações com a cidade. Depois de uma orgia de drogas e videogame, eles resolvem ir à uma festa na nova mansão de James Franco, repleta de celebridades comemorando a inauguração da propriedade. Tudo seria apenas mais uma noitada comum em Los Angeles não fosse a tragédia que acontece logo em seguida, quando a cidade praticamente inteira é destruída por algo que ninguém consegue explicar a princípio - epidemia de zumbis? ataque alienígena? o Apocalipse citado na Bíblia? - e, depois de testemunhar a morte de seus colegas, Rogen, Franco, Baruchel, Jonah Hill e Craig Robinson (da série "The office") se veem obrigados a permanecer isolados do mundo por tempo indeterminado. Nem mesmo em seu amigo Danny McBride, que chega depois dos acontecimentos, eles podem confiar totalmente, até que descubram a verdade sobre o desastre.

Usando e abusando do improviso - segundo os diretores a maioria dos diálogos foram criados pelos próprios atores no momento das filmagens - e explorando com sarcasmo quase doentio a imagem que os astros de Hollywood passam para os fãs, "É o fim" é uma brincadeira entre amigos que deu muito certo. Sem hesitar em fazer graça a respeito dos boatos sobre a sexualidade de James Franco (talvez o mais à vontade em cena), a simpatia de Jonah Hill (dono de algumas das melhores sequências, inclusive com um exorcismo) e a tendência de Seth Rogen em fazer sempre o mesmo papel, o filme ainda debocha da indústria de cinema e da fogueira das vaidades que é o mundo do entretenimento sem poupar nada nem ninguém - e às vezes até exagerar, com o aval dos "homenageados", como o ator Michael Cera interpretando uma versão junkie de si mesmo. Pode não ser um humor para todos, mas é inegável que é impossível não dar ao menos umas boas gargalhadas com tanta asneira surgindo a cada minuto. E além do mais, como não simpatizar com uma produção que termina com uma apresentação inédita dos Backstreet Boys? É só relaxar, desligar o cérebro e curtir as citações e as piadas de baixo calão. Ser adolescente inconsequente durante duas horas não vai fazer mal a ninguém.

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