domingo, 31 de janeiro de 2016

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (Hoje eu quero voltar sozinho, 2014, Lacuna Filmes/Polana Filmes, 96min) Direção e roteiro: Daniel Ribeiro. Fotografia: Pierre de Korchove. Montagem: Cristian Chinen. Figurino: Carla Boregas, Flavia Lhacer. Direção de arte: Olivia Helena Sanches. Produção: Diana Almeida, Daniel Ribeiro. Elenco: Ghilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Selma Egrei. Estreia: 10/02/14 (Festival de Berlim)

Em 2010, o curta-metragem "Eu não quero voltar sozinho" virou febre na Internet. A história da descoberta da homossexualidade de um adolescente cego e seu tímido romance com um colega de classe teve mais de três milhões de visualizações no Youtube, recebeu calorosos aplausos da crítica em festivais internacionais e, como era de se esperar em tempos tão medievais, causou polêmica ao ser proibido em algumas cidades do país - confundido como parte do malfadado "kit-gay" que tanta celeuma provocou pelos quatro cantos do Brasil. Entusiasmado com a recepção mais do que positiva a seu trabalho, o roteirista e cineasta Daniel Ribeiro teve então a feliz ideia de expandir a trama em sua estreia como diretor de longas. Com uma pequena alteração no título - a versão mais ambiciosa se chama "Hoje eu quero voltar sozinho", o que explicita também o arco dramático e de maturidade do protagonista - e o mesmo ótimo elenco juvenil do curta, Ribeiro criou uma pequena obra-prima do novo cinema nacional, um filme leve, sensível e alto-astral que discute preconceitos sem jamais enfatizá-los como ponto principal de interesse de seu olhar.

Era de se esperar que, ao eleger como protagonista um adolescente cego que se descobre homossexual ao apaixonar-se por um colega, o roteiro de Daniel Ribeiro fosse derramar-se em repetitivas e cansativas cenas de bullying ou dramáticos momentos de autodescoberta e preconceito familiar. Espertamente, porém, o roteirista opta por seguir o caminho oposto, dedicando sua atenção menos ao universo familiar e escolar que rodeia Leonardo (o ótimo Ghilherme Lobo) e mais à sua busca por independência - cego de nascença, ele anseia por viver normalmente como qualquer um de sua idade e, se possível, até mesmo embarcar em um intercâmbio internacional. As provocações dos valentões da escola até existem (mais por sua condição física do que por sua sexualidade, o que é mais um diferencial da trama), mas o foco de "Hoje eu quero voltar sozinho" é o período de descobertas do rapaz, com todas as dores e alegrias inerentes ao processo de amadurecimento. Leo não se importa tanto com as brincadeiras sem-graça dos colegas quanto se importa com a falta de confiança dos pais na sua capacidade de levar uma vida normal. O fato de descobrir-se apaixonado não pela amiga de infância Giovana (Tess Amorim) e sim pelo novo aluno da escola, Gabriel (Fábio Audi) é apenas um drama incidental, tratado com uma naturalidade tão encantadora que é impossível não se deixar conquistar.


A sensibilidade de Daniel Ribeiro em contar sua história também é facilmente perceptível através da maneira com que sua câmera passeia sem pressa pelas ruas arborizadas onde se passa a trama, em uma São Paulo distante dos cartões-postais. Universalizando ao máximo sua narrativa, ele move seus personagens ao som tanto de canções nacionais - cortesia de Marcelo Camelo - quanto de música clássica e hinos modernos de Marvin Gaye, Belle & Sebastian e David Bowie, além de nunca exagerar na sexualização de seus personagens: ao optar por um viés mais romântico que sensual, Ribeiro pode até soar ingênuo e quase fantasioso (afinal, os meninos estão em uma fase hormonal das mais potentes), mas ao mesmo tempo atinge com sensibilidade a uma plateia que, de outra forma, poderia passar ao largo do filme por considerá-lo uma apologia à homossexualidade - sim, os conservadores de plantão nunca dormem em serviço. O sexo em si quase não é tratado no filme - surge apenas em uma delicada sequência no vestiário de um acampamento - mas ao mesmo tempo está presente o tempo todo, mesmo sem ser citado nominalmente (afinal, amor e sexo fazem parte da mesma equação). Daniel Ribeiro acerta em cheio em dar prioridade ao romance do que ao desejo - é um diferencial que transforma sua obra em algo mais do que apenas mais um filme sobre a descoberta da sexualidade: é sobre a descoberta de si mesmo, algo muito maior e mais importante.

E se o roteiro e a direção de Daniel Ribeiro são responsáveis pela delicadeza e sensibilidade do filme, é a ele também que se deve a sorte de contar com dois atores tão adequados quanto Ghilherme Lobo e Fábio Audi nos papéis centrais. A anos-luz de distância de atores que tentam conquistar a plateia apenas com corpos esculturais e sorrisos vazios, os dois jovens encaram com extrema naturalidade o desafio de contar uma história de amor gay sem apelar para trejeitos caricatos ou sexualidade explícita. Ambos estão excelentes em cena, mas seria injusto não reconhecer o tamanho da dificuldade enfrentada por Ghilherme Lobo - convencer na pele de alguém que nunca enxergou - e a forma madura e segura com que ele desincumbe-se da missão, dando credibilidade e alma a um personagem capaz de encantar qualquer um da plateia. É seu carisma e sua ternura diante da vida um dos maiores triunfos de "Hoje eu quero voltar sozinho". E em um filme repleto deles, isso não é pouca coisa.

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