quinta-feira

LOCKE

LOCKE (Locke, 2013, IM Global/Shoebox Films, 85min) Direção e roteiro: Steven Knight. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Justine Wright. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Nigel Egerton. Produção executiva: Stuart Ford, David Jourdan, Steven Squillante, Joe Wright. Produção: Guy Heeley, Paul Webster. Elenco: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson, Andrew Scott, Ben Daniels, Tom Holland. Estreia: 02/9/13 (Festival de Veneza)

Imagine um filme inteiramente passado dentro de um carro, com um único personagem em cena, tentando resolver todos os problemas que se acumularam em sua vida através do telefone justamente em uma noite onde todos eles resolveram exigir uma solução. Pode parecer chato, perigosamente ambicioso ou, pior ainda, uma tremenda armadilha para um ator sem maiores recursos, certo? Mas não é o que acontece com "Locke", surpreendente drama dirigido pelo inglês Steven Knight - cujo maior crédito até então era uma indicação ao Oscar de roteiro original por "Coisas belas e sujas", de 2003. Diretor também de "Redenção" - que deu a Gerard Butler um de seus papéis mais desafiadores - Knight é o comandante por trás de uma das obras mais provocativas e impressionantes de 2013, que deu a seu protagonista, Tom Hardy, o prêmio de melhor ator do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles. É Hardy - até então mais conhecido pelos brucutus de plantão que interpretou em "Guerreiro", "A origem" e "O Cavaleiro das Trevas ressurge" - quem dá consistência e sensibilidade a um personagem dos mais complexos, capaz de pegar de surpresa o espectador que esperar dele suas tradicionais explosões de fúria. Seu registro aqui é sutil e delicado - uma prova de seu imenso talento, ainda pouco reconhecido.

Filmado no período incomum de apenas seis dias, "Locke" acompanha, em tempo real, a angústia de um homem comum, Ivan Locke, engenheiro de obras casado e pai de dois filhos, quando precisa resolver, em uma única noite, uma série de problemas que, acumulados, resolveram explodir ao mesmo tempo. Sendo assim, ele abandona sua cidade em direção à Londres, onde planeja assistir ao nascimento de um filho, fruto de uma noite ocasional com uma colega de trabalho mais velha, Bethan (Olivia Colman). No caminho para a maternidade, ele precisa contar sobre o adultério à esposa, Katrina (Ruth Wilson), que obviamente não reage nada bem à novidade - enquanto seus filhos ignoram a situação insistindo para que o pai volte logo pra casa para que possam juntos assistir a um jogo de futebol. Além disso - e das complicações que surgem no trabalho de parto de Bethan - Locke ainda lida com o fato de um de seus maiores trabalhos estar marcado para a madrugada seguinte e ele ter a certeza de que não poderá estar supervisionando pessoalmente a chegada do material e a construção do prédio - o que fatalmente o fará perder o emprego apesar da ajuda do assistente Donal (Andrew Scott), ligeiramente viciado em álcool. Não bastasse, Locke conversa imaginariamente com seu pai - com quem teve uma relação difícil e cujo modelo de conduta equivocada é o maior responsável pelas decisões tomadas pelo rapaz.


Sem mostrar o rosto de nenhum outro personagem além do protagonista, "Locke" ousa em construí-los apenas através dos diálogos travados pelo telefone. Tudo que aconteceu antes ou irá acontecer depois da noite mostrada no filme de Knight só poderá ser imaginado pelo espectador, já que (apesar de algumas decisões serem tomadas durante o trajeto) o recorte proposto pelo roteiro deixa claro que as duas horas mostradas em cena são apenas o trampolim para uma nova vida para seu personagem central, que conquista o público justamente por ser falível e estar disposto a corrigir seus erros. A feliz ideia de mostrar que a origem de sua decisão em desafiar a tranquilidade de sua vida doméstica e profissional e fazer o que considera certo - estar ao lado da amante de uma noite só em seu parto - mesmo que isso signifique uma ruptura em sua rotina vem da repulsa que sente pelos atos de seu pai é o centro nervoso da trama, e é resolvida com inteligência e sensibilidade. Tom Hardy desincumbe-se do desafio com maestria, contando para isso com a direção eficiente e uma edição concisa e ágil, que impede que a história perca o rumo e o interesse da plateia. Com uma fotografia elegante e quente que praticamente joga o público no banco do carona enquanto Locke vai enfrentando problema atrás de problema na sua busca por ser um homem justo e ético, o filme se desenrola como um envolvente drama familiar, valorizado pela coragem da produção em abdicar de artifícios e subterfúgios outros que não o bom roteiro e a atuação quase milagrosa de seu ator.

Consagrado em 2015 por seu trabalho em "Mad Max, Estrada da Fúria" - que rendeu milhões de dólares pelo mundo e saiu premiado inclusive por associações menos afeitas a filmes de ação, como o National Board of Review - Tom Hardy mostra, em "Locke", toda a extensão de suas possibilidades como ator, encarando um desafio do qual poucos atores conseguiriam tirar todo o proveito. Com uma atuação discreta e fascinante, ele faz do filme de Steven Knight uma pérola a ser descoberta pelos fãs de cinema - e que pode ser o começo de uma nova fase de sua promissora carreira.

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