sábado, 30 de janeiro de 2016

IRMÃOS DESASTRE

IRMÃOS DESASTRE (The skeleton twins, 2014, Duplass Brothers Productions/Venture Forth, 93min) Direção: Craig Johnson. Roteiro: Craig Johnson, Mark Heyman. Fotografia: Reed Morano. Montagem: Jennifer Lee. Música: Nathan Larson. Figurino: Kaela Wohl. Direção de arte/cenários: Ola Maslik/Lauren DeTitta, Zechariah Metzler. Produção executiva: Jay Duplass, Mark Duplass, Jared Ian Goldman. Produção: Stephanie Langhoff, Jennifer Lee, Jacob Pechenik. Elenco: Kristen Wiig, Bill Hader, Luke Wilson, Ty Burrell, Joanna Gleason, Boyd Holbrook. Estreia: 18/01/14 (Festival de Sundance)

O nome da atriz Kristen Wiig e o patético título nacional podem fazer pressupor que "Irmãos Desastre" seja mais uma comédia típica do cinemão comercial norte-americano - gênero que já legou atrocidades como "Missão madrinha de casamento" e "Se beber não case". Porém, é bom olhar com mais atenção: o filme de Craig Johnson tem, sim, momentos bem-humorados, mas é, na verdade, um drama familiar bem mais interessante e potente do que se poderia imaginar. E melhor ainda: mostra em Wiig uma versatilidade e um um registro bem mais sério de interpretação do que já mostrou anteriormente em sua elogiada carreira. Ao lado do ator Bill Hader - também mais conhecido pelo público por trabalhos em comédia - ela oferece ao espectador um trabalho capaz de acabar com qualquer preconceito em relação a seu talento como atriz - sem que para isso precise longos discursos, lágrimas a granel ou histerias.

O filme de Johnson - um cineasta ainda sem grandes filmes no currículo - é de uma delicadeza ímpar, ao conseguir tratar seus espinhosos temas (homossexualidade, pedofilia, suicídio, adultério) de forma leve e desprovida de julgamentos morais. Ao eleger como protagonistas um casal de irmãos gêmeos traumatizados com o suicídio do pai e a negligência da mãe egocêntrica, Johnson acertou em cheio: seus personagens são humanos, verossímeis e dotados de uma densidade dramática que vai se revelando aos poucos, até o final realista e coerente. Tudo começa quando a dentista Maggie Dean (Kristen Wiig) recebe um telefonema, avisando da tentativa de seu irmão gêmeo, Milo (Bill Hader), de se matar cortando os pulsos. Ela acaba convencendo o rapaz, um aspirante a ator que não via há dez anos, de ir passar uns tempos com ela e o marido, Lance (Luke Wilson), em Nova York, mas esconde dele o fato de estar justamente em vias de tomar um vidro inteiro de pílulas para dormir no momento do telefonema do hospital. Logo que chega à casa da irmã, Milo passa a fazer parte da rotina do casal: Lance não vê a hora de ser pai e fazer uma viagem de lua-de-mel ao Havaí, enquanto Maggie não tem entusiasmo por nenhuma das ideias (e está se envolvendo sexualmente com seu professor de mergulho). O retorno de Milo à sua cidade natal também não é propriamente tranquila: homossexual assumido, ele volta a procurar seu antigo professor de literatura, Rich (Ty Burrell, da série "Modern family"), com quem teve um rumoroso caso no passado e tal reencontro o joga em rota de colisão com a irmã, que não entende suas tendências autodestrutivas.


Dá pra perceber, apenas pela sinopse, que "Irmãos Desastre" está longe de ser uma comédia descerebrada. Mas o roteiro de Craig Johnson e Mark Heyman vai ainda mais longe na reversão das expectativas. Mesmo que utilize o dom de Wiig e Hader em fazer rir em algumas cenas, seu foco é mostrar como traumas de infância são determinantes para a construção da personalidade. Fãs do pai suicida e com uma relação difícil com a mãe (Joanna Gleason), Milo e Maggie acabam por repetir, sem querer, as tendências paternas de como fugir aos problemas, mas tem a sorte de poder contar um com o outro, ainda que seu relacionamento por vezes provoque faíscas perigosas. É sensacional, por exemplo, a sequência em que os irmãos dublam "Nothing gonna stop us now" (da banda Starship) e tocante o momento em que eles discutem furiosamente em consequência de revelações pouco agradáveis com as quais são obrigados a lidar. A maneira com que o roteiro intercala humor e drama - e se recusa a tomar partido de qualquer um dos protagonistas, mostrando ambos como seres humanos falíveis e até mesmo pouco confiáveis em determinadas circunstâncias - é um dos pontos altos do filme, que aproxima seus personagens da plateia dando a eles características universais. Sim, Milo é gay e Maggie tem dificuldade em ser fiel, mas sua essência vai muito além do que pode ser visto. E talvez resida aí a inteligência do roteiro.

Pouco visto especialmente no Brasil, "Irmãos Desastre" merece ser descoberto. Apesar do título horrendo e da aparência de filme desprovido de qualquer conteúdo digno de nota, é um trabalho sério e sensível, escrito e dirigido com delicadeza e senso de humor, mas sem exagerar a dose de nenhum ingrediente. E além de revelar o talento dramático de Kristen Wiig, Bill Hader e Ty Burrell, fala de assuntos sérios sem pesar a mão nem deixar o espectador engasgado com a pipoca. Uma pérola!

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