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NESTE MUNDO E NO OUTRO

NESTE MUNDO E NO OUTRO (A matter of life and death, 1946, The Archers, 104min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Allan Gray. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Alfred Junge. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: David Niven, Kim Hunter, Robert Coote, Roger Livesey, Raymond Massey, Abraham Sofaer. Estreia: 14/3/46

Com o final da II Guerra Mundial, parecia que os ânimos haviam se acalmado, ao menos em termos bélicos. Porém, os soldados britânicos ainda não haviam digerido o fato de que os EUA entraram no conflito muito depois que a Inglaterra - e não davam sinais de que se importavam com esse detalhe, criando para si mesmos uma imagem heroica que o cinema hollywoodiano insistia em sublinhar. Como uma forma de amenizar esse pequeno desconforto - ainda que extraoficialmente -, os diretores/produtores/roteiristas Michael Powell e Emeric Pressburger resolveram, então, servir como apaziguadores. Um filme que seria uma maneira de melhorar as relações entre os dois países, o drama romântico "Neste mundo e no outro" acabou, no entanto, extrapolando seus objetivos diplomáticos e conquistou crítica e público com uma parábola emocionante sobre o amor e a tolerância. Um dos filmes preferidos do ator Michael Sheen e da escritora J. K. Rowling é, também, um excepcional trabalho de imaginação e criatividade, com um roteiro brilhante e um visual empolgante - em uma época em que os efeitos visuais não contavam com computadores ou orçamentos milionários, tudo que se vê na tela é resultado direto do trabalho manual de uma equipe cujo talento é nunca menos que assombroso.

Filmado em preto-e-branco e Technicolor, o filme de Powell e Pressburger se utiliza de uma trama com toques sobrenaturais para construir um mundo à parte, onde nações hostis são capazes de deixar de lado suas diferenças em nome do amor e da fraternidade. Pode parecer ingênuo e piegas, mas o roteiro, repleto de bons momentos de humor e uma delicadeza ímpar ao tratar de assuntos incomuns, oferece ao espectador uma inteligência verbal e plástica que o torna absolutamente irresistível. Além de tudo, o filme acerta em cheio ao escalar como protagonista o ótimo David Niven, que transmite com elegância todas as nuances de seu personagem, um homem preso entre duas dimensões de realidade - e lutando por um amor descoberto em seus últimos momentos de vida. Ao lado de Kim Hunter (que levaria um Oscar de coadjuvante por "Uma rua chamada Pecado", de 1951), Niven mostra seu lado romântico sem nunca escorregar no sentimentalismo óbvio - e ainda arruma espaço para uma bem-vinda dose de ironia.


O filme começa como qualquer outra das produções sobre a guerra que invadiram as telas de cinema nos anos 1940: o Capitão Peter David Carter (David Niven), inglês, está retornado a seu país, depois de uma missão de bombardeio quando descobre que, para sua desgraça, que seu avião foi atingido e ele está vivendo seus últimos momentos de vida. Nesse meio-tempo, ele faz contato, via rádio, com a jovem June (Kim Hunter), que trabalha junto ao exército norte-americano: os dois conversam brevemente e notam uma grande sintonia entre eles, mas é tudo muito tarde, e, depois de pedir a June que avise sua mãe a respeito de sua morte, David se joga do avião em chamas mesmo sabendo que seu paraquedas está inutilizado. Para sua surpresa, porém, ele não morre, e acorda, atônito e com uma simples dor de cabeça, em uma praia britânica. Nesse mesmo lugar, ele conhece June e os dois se apaixonam instantaneamente. Seu idílio romântico, no entanto, dura pouco: sua sobrevivência foi um erro, uma falha do anjo responsável por direcioná-lo ao Paraíso. Indignado com a situação, Peter exige que seu caso seja julgado pelas mais altas cortes divinas, para que ele possa desfrutar da paixão que começou a sentir por June quando já deveria estar morto. O julgamento, então, é marcado e teses a favor e contra sua reivindicação são expostos diante de testemunhas e do júri.

O grande lance dramático de "Neste mundo e no outro" vem, no entanto, na forma com que o roteiro trata o julgamento de Peter. Ao mesmo tempo em que as testemunhas são ouvidas no plano astral, no plano da realidade o protagonista está passando por uma cirurgia no cérebro: assustada com o que considera alucinações do namorado, June o leva até um médico, que descobre, através de exames, um tumor que pode ser o responsável por seu comportamento excêntrico. O filme lança, então, a dúvida que faz dele tão especial: o julgamento pelo qual Peter está passando realmente está acontecendo ou tudo não passa de imaginação de um homem doente? E o veredicto será dado por um Ser Superior ou por um cirurgião, capaz ou não de lhe devolver a vida normal? Esta questão acaba por ser o maior trunfo do filme - mais até do que seu visual criativo - e até mesmo os letreiros iniciais dão uma dica a seu respeito: "Esta é a história de dois mundos: um que conhecemos e outro que existe apenas na mente de um jovem piloto cujas vida e imaginação foram violentamente moldadas pela guerra. Qualquer semelhança com qualquer outro mundo, conhecido ou desconhecido, é meramente coincidência."

 Visto com o olhar quase cínico de hoje, "Neste mundo e no outro" - cujo título original, "A matter of life and death" foi substituído por "Stairway to heaven" no idiossincrático mercado norte-americano, que talvez rejeitasse a palavra "morte" e ignorasse o filme - pode parecer ingênuo. Mas é inegável que o casamento entre a ideia geral e sua realização é um dos pontos altos do cinema inglês do pós-guerra, com uma mensagem de paz e tolerância que permanece de vital relevância. Com toques de um humor tipicamente britânico em seus diálogos e o desbragado romantismo hollywoodiano em alguns de seus mais tocantes momentos, a obra de Powell e Pressburger - que em poucos anos voltariam a encantar as plateias com seu musical "Os sapatinhos vermelhos" (48) - é deliciosamente kitsch, mas de uma sinceridade encantadora. Imperdível!

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