quarta-feira

LADRÕES DE BICICLETAS

LADRÕES DE BICICLETAS (Ladri di biciclette, 1948, Produzione De Sica, 89min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Oreste Biancoli, Suso D'Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri, Cesare Zavattini, romance de Luigi Bartolini, estória de Cesare Zavattini. Fotografia: Carlo Montuori. Montagem: Eraldo Da Roma. Música: Cicognini. Direção de arte: Antonio Traverso. Produção: Giuseppe Amato, Vittorio De Sica. Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Elena Altieri, Gino Saltamerenda. Estreia: 24/11/48

Indicado ao Oscar de Roteiro 
Vencedor de um Oscar especial
Vencedor do Golden Globe: Melhor Filme Estrangeiro 

Quando realizou "Vítimas da tormenta", em 1946, o cineasta Vittorio De Sica cativou os espectadores do mundo inteiro com seus atores mirins, que, mesmo sem experiência anterior, mostraram-se extremamente capazes de emocionar e soar como profissionais. Para seu filme seguinte, então, ele foi ainda mais ousado: todo o elenco de "Ladrões de bicicletas" era formado por pessoas comuns, escolhidos pelo diretor pelos mais variados critérios. E mais uma vez ele conseguiu: na pele do pequeno Bruno, Enzo Staiola, descoberto enquanto assistia às primeiras filmagens do projeto, atinge o coração da plateia sem fazer esforço. Ao lado do igualmente impressionante Lamberto Maggiorani, o menino é responsável por um dos filmes mais dolorosos tanto do neorrealismo italiano quanto do cinema mundial. Referência absoluta para cineastas das mais variadas partes do mundo, mereceu um Oscar especial (antes da criação da categoria destinada a produções não faladas em inglês) e foi premiado com um Golden Globe, o BAFTA (o Oscar britânico), o prêmio máximo do National Board of Review e pela Associação de Críticos de Nova York - além de ter concorrido ao prêmio da Academia por seu roteiro. Forte, pungente e tristemente real, é, também, uma dos mais bem acabadas produções italianas no período pós-guerra e talvez a obra-prima de seu criador.


Sofrendo para conseguir financiamento para seu projeto seguinte a "Vítimas de uma tormenta", Vittorio De Sica esbarrava sempre na questão das polêmicas levantadas por seu filme anterior - a história de dois amigos engraxates que se deparavam com questões como lealdade durante seu período em uma instituição penal. Ao mesmo tempo em que produtores hollywoodianos lhe acenavam com a possibilidade de entrar com o dinheiro - mas faziam exigências absurdas e totalmente contrárias aos desejos do diretor -, De Sica descobria, da pior maneira possível, que sucesso de crítica não correspondia, dentro da indústria cinematográfica, a êxito comercial. David O. Selznick, por exemplo - o produtor de "... E o vento levou" (39) - demonstrou interesse em "Ladrões de bicicletas", mas queria que o ator central fosse Cary Grant. Antes de decidir que faria o filme em seu país natal e da forma com que sonhava, De Sica até considerou escalar Henry Fonda (que já tinha interpretado o icônico Tom Joad em "As vinhas da ira", que dialogava em temática com o neorrealismo), mas preferiu, em última análise, escalar apenas atores não profissionais em seu elenco. Foi uma decisão acertadíssima: com Grant ou Fonda no papel principal o filme talvez alcançasse maior visibilidade no mercado norte-americano, mas dificilmente alcançaria o tom naturalista proposto - e tampouco a melancolia palpável que a escalação de Lamberto Maggiorani oferece ao filme e que faz dele uma das produções mais aclamadas da história do cinema italiano.





Maggiorani - que depois do filme voltou à sua realidade de desempregado em Roma - é a força maior por trás de "Ladrões de bicicleta": sua performance, ao mesmo tempo lírica e realista, oferece ao espectador uma vasta gama de emoções - vergonha, orgulho, tristeza, desamparo - e conquista logo nas primeiras imagens. Sua química com o pequeno Enzo Staiola é fascinante, especialmente quando se sabe que nenhum dos dois tinha experiência como atores e tampouco seguiram com a carreira após as filmagens. Assim como em "Vítimas da tormenta", De Sica busca ao máximo retratar a vida como ela é, sem muitos enfeites ou truques baixos para buscar a compaixão da plateia. Seu tom realista é sublinhado apenas pela bela trilha sonora e pela estória em si, que envolve o público e faz dele seu observador privilegiado. Em "Ladrões de bicicletas" não há vilões (ao menos como o cinema costuma apresentá-los): o protagonista luta contra a própria realidade, contra a sociedade que o alija, contra o desespero de seus semelhantes, contra a própria Itália do pós-guerra, tentando reunir seus pedaços e cicatrizar suas feridas. Não é um filme fácil - mas é um brilhante recorte de um país buscando se erguer dignamente depois da tormenta.

Lamberto Maggiorani dá vida (e sentimento) a Antonio Ricci, um pai de família desempregado há dois anos em uma Roma pouco fotogênica e ainda sofrendo com as consequências da guerra. Pai do pequeno Bruno (Enzo Staiola), ele tem a possibilidade de voltar a ter a dignidade de um trabalhador quando é contratado para colar posters de cinema pela cidade. A única exigência do empregador é que ele tenha uma bicicleta. Depois de retomar a sua (que estava empenhada), Antonio começa sua nova vida, mas é frustrado logo no começo, quando vê seu veículo (e fonte de renda) ser roubado na sua frente. Desesperado, ele tenta, com a ajuda de seu filho, encontrar o ladrão. A missão torna-se, aos poucos, mais complicada do que parece: Antonio não tem apenas que encontrar sua bicicleta em meio a milhares delas, mas também provar que é seu dono. No caminho, ele e Bruno mergulham nas ruínas de Roma, procurando o que é o símbolo de sua luta e orgulho - e Vittorio De Sica não poupa seu protagonista de sofrer na carne as consequências de um conflito desumano e violento. Emocionante sem ser piegas, "Ladrões de bicicletas" ainda consegue arrancar lágrimas com seu final delicado e melancólico - e todos os elogios e prêmios que arrebatou pelo mundo apenas comprovam sua qualidade e urgência. Tão necessário hoje como o era há sessenta anos, é uma obra-prima irretocável e atemporal.

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