quarta-feira, 9 de junho de 2010

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme
Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.


Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Acredita que ainda não vi este filme. Acho que vou locá-lo neste fim de semana!
Abs.