domingo, 20 de junho de 2010

TOURO INDOMÁVEL


TOURO INDOMÁVEL (Raging bull, 1980, United Artists, 129min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, Mardik Martin, baseado no livro de Jake LaMotta, com Joseph Carter e Peter Savage. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Boxer, Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Phil Abramson, Fred Weiler. Casting: Cis Corman. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Robert DeNiro, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Frank Vincent. Estreia: 19/12/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Joe Pesci), Atriz Coadjuvante (Cathy Moriarty), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Robert DeNiro), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Robert DeNiro)


O cineasta Martin Scorsese declarou em várias entrevistas que não entende absolutamente nada sobre boxe. A julgar por “Touro indomável”, sua cinebiografia do lutador peso-médio Jake La Motta, isso não faz a menor diferença. Se tivesse sido dirigido por um expert no esporte, o filme dificilmente seria tão bom. E se tivesse outro diretor no comando provavelmente não teria Robert De Niro como protagonista. E é aí que está a grande diferença entre um filme sobre esporte e uma obra-prima sobre a auto-destruição que Scorsese entregou ao público.

Jake La Motta é um personagem real. Criado no Bronx, assim como Scorsese e o astro De Niro, ele viveu seu auge nos ringues no final dos anos 40 e início dos 50, até começar um processo de auto-destruição que o levou a ser preso por sedução de uma menor de idade e acabar seus dias de glória como comediante em bares de segunda classe. A sua história interessou Robert De Niro, que levou seis anos para convencer Scorsese a filmar sua trajetória. A espera valeu a pena. Poucas vezes foi vista na tela uma obra tão visceral, cruel e energética como “Touro indomável”.


Na pele de La Motta, De Niro desaparece. O que se vê em cena não é um ator no auge de seu domínio técnico e emocional, que engordou mais de vinte quilos para ilustrar a decadência física de seu personagem. O que se vê é um homem emocionalmente frágil e inseguro, capaz de espancar o próprio irmão (Joe Pesci, impressionante) e a mulher (a estreante Cathy Moriarty, indicada ao Oscar) por duvidar de sua fidelidade e entregar uma luta para depois chorar inconsolável ao perceber seu erro. Ao sumir sob a pele de La Motta o ator preferido do cineasta Scorsese dá uma aula de interpretação, premiada merecidamente com o Oscar.

Quem também ganhou o Oscar foi a edição, perfeita, de Thelma Schoonmaker. Ágil quando necessária, quase contemplativa em outros momentos, a montagem de Schoonmaker ajuda o cineasta a contar sua história, utilizando para isso a fotografia em preto-e-branco nunca aquém de espetacular do veterano Michael Chapman, que perdeu injustamente a estatueta. Nas mãos de Schoonmaker e Chapman, o sangue jorra dos corpos dos lutadores de forma poética, mas ainda de uma violência cruel. Somada à fotografia e à edição, a direção de Scorsese beira o sublime. Nenhuma cena é desnecessária, nenhum ângulo é por acaso, nenhum diálogo é jogado sem uma função específica, mesmo quando improvisado por seus atores. Ao comparar um homem em crise com sua auto-estima a um animal enjaulado, em uma das cenas finais de seu filme, Scorsese mostra que não é preciso saber sobre boxe para se contar uma história universal de perda, insegurança e violência, principalmente quando esta é parte intregrante de uma complexa personalidade. Uma obra-prima inigualável e um dos, senão o melhor, filmes do diretor.

2 comentários:

Mateus Souza disse...

Grande Scorcese! Touro Indomável é para muitos o marco final da Nova Hollywood. Um grande filme. Dizem que De Niro falou que só aceitaria trabalhar em tal filme caso Scorcese parasse de consumir cocaína alucinadamente - é a Nova Hollywood era assim, hehe.

Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Excelente fotografia.
O Joe Pesci também arrasa!

Acho que é o melhor filme do Scorsese com De Niro, o segundo melhor é Cabo do Medo.

Abs,
Rodrigo