sexta-feira, 18 de junho de 2010

MEMÓRIAS


MEMÓRIAS (Stardust memories, 1980, United Artists, 89min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Steven Jordan. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Tony Roberts. Estreia: 26/9/80

Há quem ache que a filmografia de Woody Allen é hermética. Até mesmo suas comédias mais populares e simples esbarram nessa crítica infundada de seus detratores, que não veem em sua obra concessões ao comercial (o que, diga-se de passagem, faz com que seu trabalho sempre esteja patamares acima do convencional). Mas quem acha que coisas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" são de difícil assimilação (talvez por sua inteligência e seu sarcasmo) deve ficar com o cérebro inchado ao assistir "Memórias", que, assim como "Interiores" não deixa espaço para simplificações banais. Talvez seja, sim, um tanto hermético. Mas, mais do que isso, é engraçadíssimo.

Decepcionado com artigos escritos sobre ele na imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme "sério", o drama "Interiores", Allen escreveu um roteiro ácido e crítico sobre a relação entre cineastas e jornalistas, bem como seu problemático relacionamento com o público. Ainda que o diretor negue veemente as origens autobriográficas de seu filme, é impossível não perceber nele algumas de suas mais marcantes características. E são justamente essas pequenas piadas internas que fazem de "Memórias" um dos filmes mais interessantes de Allen - não coincidentemente um de seus preferidos.

Em "Memórias", Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com surpresa a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Convidado para participar de uma espécie de retrospectiva de sua carreira em um festival de cinema, ele aproveita a oportunidade para refletir sobre seu legado artístico e sobre sua vida pessoal, seja nas lembranças de sua infância ou dos fracassados relacionamentos amorosos, principalmente com uma atriz psicologicamente desequilibrada, Dorrie (Charlotte Hampling). Perseguido por fãs, ele mal tem tempo para dedicar a sua nova namorada, a francesa Isobel (Marie-Christine Barrault), que acaba de deixar o marido por ele.


"Memórias" impressiona desde sua primeira sequência, claramente inspirada em "Fellini 8 1/2": em um opressivo preto-e-branco, um homem (vivido também por Allen) tenta desesperadamente sair de um trem em movimento, sendo impedido por um grupo de pessoas com feições bizarras e excêntricas (no trem ao lado, acenando para ele está uma jovem Sharon Stone estreando no cinema). A partir dessa cena - que é bem possível que tenha sido a responsável pela disseminação de que a obra do cineasta é "difícil" - Allen joga com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo irônica e melancólica. É impossível não rir com alguns dos diálogos mais inspirados de sua carreira, assim como é bem pouco producente tentar evitar as comparações com a realidade vivida por ele e outros artistas que tentam sair do lugar-comum. É sintomático, inclusive, que o filme se encerre com comentários das personagens a respeito do "filme dentro do filme". Allen brinca com coisa séria, e os fãs agradecem.

Claramente felliniano (assim como "Interiores" era obviamente bergmaniano), "Memórias" tem uma fotografia inspirada de Gordon Willis (já habituado ao trabalho de Allen), que sufoca, brinca e encanta na medida certa. A química entre Allen e Charlotte Hampling funciona às mil maravilhas, proporcionando aos dois algumas das cenas mais bonitas do filme (e, segundo reza a lenda, a personagem de Hampling foi inspirada na primeira mulher do diretor, Louise Lasser). Ao equilibrar um humor dos mais inteligentes a uma crítica feroz ao "sistema", "Memórias" atinge um nível de qualidade ímpar na obra de Allen, ainda que seja um de seus filmes menos famosos.

Apesar de não ser tão premiado quanto "Noivo neurótico..." ou tão querido pelo público quanto "Manhattan", "Memórias" merece figurar entre os melhores filmes de Woody Allen, principalmente devido a suas entrelinhas nem tão disfarçadas assim. Coisa de gênio!

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