sexta-feira, 11 de junho de 2010

KRAMER X KRAMER


KRAMER X KRAMER (Kramer vs Kramer, 1979, Columbia Pictures, 105min) Direção: Robert Benton. Roteiro: Robert Benton, romance de Avery Corman. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Gerald B. Greenberg. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Alan Hicks. Casting: Shirley Rich. Produção: Stanley R. Jaffe. Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Justin Henry, Jane Alexander, Jobeth Williams, Howard Duff, George Coe. Estreia: 19/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Ator Coadjuvante (Justin Henry), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander, Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro


Não é difícil de entender os motivos que levaram “Kramer X Kramer” a ser o grande vencedor do Oscar 79, disputando o prêmio com filmes marcantes e inovadores, como “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. Bonito mas esquemático e quadradão ao extremo, o melodrama de Robert Benton apela para o que o moralista público americano mais procura em um entretenimento familiar: valores elevados, personagens com os quais possa se identificar e, mais ainda, um final de levar às lágrimas. E daí se “Apocalypse now” é considerado uma obra-prima sufocante e criativa se “Kramer X Kramer” emociona e faz uma análise do momento social do mundo ocidental?

Análise social, sim. Ainda que timidamente, o filme, inspirado no romance homônimo de Avery Corman investiga e mostra como os valores familiares estavam mudando na América, onde o imediatismo e a busca pela satisfação pessoal estavam em vias de tornar-se moeda corrente. O filme ousa criticar esse desejo desenfreado pelo sucesso na figura de Joanna Kramer (uma espetacular Meryl Streep, merecidamente premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), uma dona de casa dedicada que, em um impulso irrefreável, resolve abandonar o marido e o filho pequeno para partir em busca de realização profissional. Sua saída de cena deixa o seu atônito ex-cônjuge Ted (Dustin Hoffman, perfeito em sua caracterização de homem comum, bem longe do Ratzo de “Perdidos na noite”) em maus lençóis. Acostumado a encontrar seu pequeno filho Billy (Justin Henry) apenas na hora de acordar e dormir, ele de repente se vê com a obrigação de transformar-se em pai e mãe em tempo quase integral, justamente quando está atingindo um ponto crucial em sua carreira em publicidade. Lidar com o sentimento de abandono, seu e do pequeno garoto de oito anos, trabalhar com dedicação, cuidar dos deveres de casa e afins parecem não ser o que o pobre Ted esperava. Mas ele precisa ir adiante e conquistar a confiança do filho, dos amigos e dos chefes, além de se envolver romanticamente com uma colega de trabalho. E não é que justamente quando ele encontra um equilíbrio nessa difícil equação ele é surpreendido com a volta de Joanna? Feliz e satisfeita com sua nova vida, a vilã da vez quer a guarda do menino de volta.


A estrutura de “Kramer X Kramer” chega a ser simplória. Depois de sofrer com as tentativas de aproximar-se do seu pequeno rebento, o antes egoísta e auto-centrado Ted, que considerava papel de pai apenas suprir a família, transformou-se em um homem maduro, preocupado com a educação da criança e entrando em pânico com seus acidentes infantis. Sua ex-mulher, apesar de o roteiro tentar explicar suas razões, surge quase que como a destruidora da felicidade de pai e filho, duas vezes, na separação e no regresso. E o final, quase clichê, faz o público chorar e se perguntar se o mais importante é a família ou o trabalho. Mais Academia de Hollywood impossível.

Quando assumiu o papel de Ted Kramer, depois que James Caan pulou fora do projeto, Dustin Hoffman também estava passando por um doloroso e sofrido divórcio (e não o são todos?) e ajudou tanto o roteirista e diretor Robert Benton no processo de filmagens que chegou-se a cogitar sua inclusão nos créditos como co-roteirista. Muitas de suas cenas com Justin Henry (em uma atuação enternecedora) foram improvisadas, o que explica a química perfeita entre os dois. E Meryl Streep... bem, Meryl Streep é um caso a parte.

Assumindo um papel que originalmente não seria dela (a pantera Kate Jackson interpretaria Joanna Kramer, mas não pode livrar-se dos compromissos da tevê), Streep demonstra a segurança e o carisma de uma veterana. Escalada para fazer o pequeno papel da colega de trabalho com quem Ted tem uma aventura (e que foi interpretada por Jobeth Williams), ela dividiu seu tempo entre o filme de Benton e "Manhattan", de Woody Allen, onde interpretava sua ex-mulher lésbica. Inteligente e sensível, escreveu boa parte do discurso de sua personagem no tribunal, conquistou as plateias e levou o Oscar. O resto é história.

Para fugir da esfera trivial de dramas familiares, “Kramer X Kramer” conta com algo que faz toda a diferença: sua equipe. A fotografia do experiente Nestor Almendros mostra uma Nova York fotogênica e melancólica, exatamente como os sentimentos de Ted. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, se equilibra entre o clichê e um surpreendente bom humor, com diálogos felizes e inteligentes, nunca rasos ou desnecessários. E o elenco cumpre sua parte com louvor. Dustin Hoffman e Meryl Streep levaram merecidos Oscar pra casa e o garoto Justin Henry demonstra uma segurança ímpar, mesmo contracenando com gente do calibre de Hoffman e Streep. Pode ser sentimental e piegas, mas “Kramer X Kramer” é um perfeito filme para assistir com a família e derramar algumas tímidas lágrimas. É pouco provável que o mesmo pudesse ser dito de “Apocalypse now”.

2 comentários:

Leodeni Dinha disse...

Parabéns pelo blogger,adorei.
Voce sabe um site onde possa assitir Kremer X kremer?



Anônimo disse...

Oi, tudo bem? Muito legal seu blog, parabéns. Acabei de assistir Kramer X Kramer, concordo com sua opinião, é um bom filme, com alguns clichês, mas que filme não tem um ou outro? Também tenho um blog sobre cinema. Se quiser dar uma passadinha lá qualquer dia desses é muito bem vindo.
www.raquelmariano.wordpress.com

Abçs

Raquel Mariano