terça-feira, 15 de junho de 2010

O ILUMINADO


O ILUMINADO (The shining, 1980, Warner Bros, 143min) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson, romance de Stephen King. Fotografia: John Alcott. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Wendy Carlos, Rachel Elkind. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Les Tomkins. Casting: James Liggat. Produção executiva: Jan Harlan. Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Philip Stone. Estreia: 23/5/80

Stanley Kubrick era definitivamente um sujeito estranho! Interessado em adaptar para o cinema o romance "O iluminado", de Stephen King, ele aproximou-se do escritor de forma bastante bizarra; telefonou para ele certa manhã, cedíssimo, e, depois de identificar-se, começou a conversar sobre histórias de fantasmas e vida após a morte. Tempos depois, ainda envolvido com a feitura do filme, ele mantinha a rotina de ligar para King, vez ou outra, para fazer-lhe perguntas do tipo: "Você acredita em Deus?"

Apesar do contato direto que tinha com o autor de clássicos da literatura de terror como "Carrie,a estranha" e "Cujo", o cineasta inglês não hesitou em afastá-lo de sua versão da apavorante história do escritor Jack Torrance e seus fantasmas. Considerando que o roteiro era fiel demais ao livro - que o desgostava por ser extremamente preso ao gênero terror - ele contratou a mestra em estudos góticos Diane Johnson para reescrevê-lo. King não gostou nada da ideia e quase duas décadas depois foi o autor do roteiro de uma minissérie feita para a TV, onde pode expressar sua própria visão da obra. Entre suas principais reclamações estava a mudança radical na personalidade de Wendy Torrance, a esposa do protagonista; enquanto no livro ela era descrita como uma mulher bela e com a aparência de nunca ter passado dificuldades na vida (e aí se encaixaria Jessica Lange, proposta por Jack Nicholson), na versão cinematográfica o papel ficou com Shelley Duvall, que encarnou uma apavorada e frágil dona-de-casa tendo que lidar com a loucura do marido sem a menor preparação para isso. Os elogios de Nicholson a sua atuação, no entanto, não a impediram de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz do ano. Como se vê, a unanimidade passou longe desse trabalho do autor de "2001, uma odisséia no espaço".

"O iluminado" começa quando o aspirante a escritor Jack Torrance (Jack Nicholson em um dos papéis mais importantes de sua carreira) aceita o emprego de zelador de inverno do Overlook Hotel, hotel de luxo que fica totalmente vazio fora da temporada de férias. Com a intenção de concentrar-se em seu livro, ele se muda com a esposa, Wendy (Shelley Duvall) e o filho pequeno Danny (Danny Lloyd) para a imensa propriedade, isolada da civilização exceto por contatos através de rádio. Enquanto os dias passam, Wendy e o pequeno Danny sentem que Jack começa a afastar-se deles. A princípio julgando que tudo é apenas culpa de um bloqueio criativo, ela não percebe que até mesmo o menino anda passando por maus momentos: dotado de um dom que o faz ser chamado de "iluminado", ele tem visões aterradoras de duas meninas gêmeas que foram assassinadas pelo próprio pai a golpes de machado. Aos poucos, Torrance também começa a demonstrar um comportamento assustador, que o leva a querer matar a mulher e o filho.

Apesar das tentativas de Kubrick em evitar que sua obra ficasse rotulada como "filme de terror" é impossível negar que o resultado final não deixa dúvidas quanto ao seu gênero. Dono de cenas de arrepiar até mesmo os mais escolados fãs do estilo, "O iluminado" tem a seu favor o talento e o senso estético apurado de seu diretor. Em mãos menos criativas, a história de Jack Torrance cairia facilmente na vala comum dos sustos fáceis e matança generalizada (apesar de todo o clima angustiante que vai crescendo no decorrer do filme, apenas uma morte aparece frente aos olhos do espectador...) Comandada pelo perfeccionista Kubrick, no entanto, tudo muda de figura, a começar pela escalação do elenco.

Jack Nicholson, na pele do protagonista encontrou um dos papéis pelos quais ficaria marcado para sempre. Frequentemente exagerado em sua composição - o que é adequado à visão do cineasta -, o ator (na época já oscarizado por "Um estranho no ninho") ficou com o papel depois que o diretor descartou Jon Voight (escolhido por King, mas rejeitado por ser "normal" demais), Robert DeNiro (considerado "psicótico de menos" apesar de sua performance em "Taxi driver") e Robin Williams ("psicótico demais" por sua atuação na série de TV "Mork & Mindy"). Esgotado pela obsessão do diretor em atingir a perfeição - alguns takes foram repetidos nada menos que 148 vezes - o ator nem lia o roteiro do filme a não ser pouco antes das filmagens, já que mudanças eram feitas constantemente. Previsto para durar 17 semanas, o cronograma inicial logo foi deixado de lado: as filmagens duraram quase um ano, o que atrasou o início da produção de filmes como "Reds" e "Caçadores da arca perdida", que teriam cenas filmadas no mesmo estúdio. E isso sem falar em algumas dores de cabeça menores.

Danny Lloyd, que vive o iluminado do título, por exemplo, não tinha idade suficiente nem mesmo para assistir ao que estava fazendo (imaginando-se fazendo um drama, Lloyd só conferiu o filme pronto aos 17 anos de idade, mais de uma década depois). Harry Dean Stanton, que viveria o garçom que conversa com o protagonista, foi substituído porque não conseguiu terminar de fazer "Alien" a tempo. E a mania de perfeição de Kubrick chegou ao extremo de confeccionar, página por página, o "livro" escrito por Torrance em uma das cenas climáticas.

Recebido com duras críticas à época de seu lançamento, "O iluminado" hoje é uma referência quando se fala em filmes de terror (apesar das negativas de seu diretor em classificá-lo dessa maneira). É difícil manter-se totalmente apático ao clima imposto pela direção rígida, pela edição detalhada, pela música assombrosa e principalmente pelo que é muito mais sugerido do que mostrado. Stanley Kubrick pode até não ser o gênio que apregoam aos quatro ventos, mas seu domínio da técnica de contar uma história é de admirar consideravelmente.

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