quarta-feira, 1 de outubro de 2014

OS INOCENTES

OS INOCENTES (The innocents, 1961, 20th Century Fox, 100min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: William Archibald, Truman Capote, John Mortimer, romance "A volta do parafuso", de Henry James. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: James Clark. Música: Georges Auric. Figurino: Motley. Direção de arte: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Albert Fennell. Produção: Jack Clayton. Elenco: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Pamela Franklin, Martin Stephens. Estreia: 24/11/61

Quarenta anos antes do chileno Alejandro Amenabar conquistar crítica e público com seu assustador "Os outros" - um dos mais fascinantes e inteligentes representantes do gênero terror no século XXI - um outro filme que divide com ele a atmosfera lúgubre e a sugestão em detrimento do explícito, estreava na Inglaterra. Baseado no livro "A volta do parafuso", de Henry James (ou mais precisamente na peça de teatro de 1950, adaptada por William Archibald da obra de James), "Os inocentes" diferia radicalmente dos filmes de terror do estúdio Hammer (também inglês), que na mesma época fazia sucesso usando e abusando de monstros clássicos da literatura e do cinema. Elegante, sutil e muito mais tétrico do que qualquer Frankenstein ou lobisomem, o filme de Jack Clayton ficou marcado da memória de muita gente: Deborah Kerr o considera seu melhor trabalho, a cantora Kate Bush compôs uma música inspirada no filme, o exigente François Truffaut declarou-o o melhor filme feito na Inglaterra pós-Hitchcock e Guillermo Del Toro (diretor dos ótimos "A espinha do diabo" e "O labirinto do fauno") o tem na lista de seus seis filmes de terror prediletos. A questão é: por que tanto auê?

É simples responder: partindo de uma premissa simples e aparentemente banal e lugar-comum, "Os inocentes" acaba se desviando, em seu percurso, para um apavorante e perturbador conto gótico que ousa em utilizar as crianças do enredo não apenas como escada para os sustos, mas sim como componentes essenciais de uma tragédia romântica. Tudo aquilo que hoje é considerado clichê nos filmes do gênero funciona à perfeição aqui, conduzindo o espectador a um torvelinho de chocantes conclusões, que fogem radicalmente do que poderia ser considerado previsível. A trama é tão radical que o próprio diretor não permitiu que as crianças do elenco lessem o roteiro inteiro - por motivos que, quando se assiste ao resultado final, ficam bastante claros. Jack Clayton - cuja direção levou Simone Signoret ao Oscar por "Almas em leilão" e ainda dirigiria outro filme de terror elogiado, "Todas as noites às nove", e a adaptação de "O grande Gatbsy" estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - faz de sua obra um sóbrio estudo sobre amor e obsessão. Se o medo surge no caminho é porque ele sabe exatamente que notas tocar para que isso aconteça.


E as notas começam a ser tocadas logo no começo, quando a Srta. Giddens (Deborah Kerr, ótima) chega à mansão do interior da Inglaterra vitoriana, onde passará a trabalhar como governanta: em seus primeiros passos na imensa propriedade, ela já ouve vozes femininas chamando a pequena Flora (Pamela Franklin), uma das sobrinhas de seu empregador - e uma das duas crianças de quem ela deve cuidar. Não demora muito para que Giddens conquiste a simpatia da menina e da outra empregada da casa, que, mesmo não querendo, acaba contando a ela a trágica história de amor que matou dois funcionários da mansão, um ano antes. A volta para casa de Miles (Martin Stephens), irmão de Flora que foi expulso por motivos obscuros da escola a que frequentava deflagra de vez acontecimentos até então tidos pela governanta como pura imaginação: ela passa a ver fantasmas, ouvir vozes e perceber mudanças repentinas no comportamento dos meninos. Depois de decidir chamar um padre, porém, ela decide resolver pessoalmente a situação.

A resolução da trama pouco tem de convencional, surpreendendo justamente por desviar dos atalhos do clichê. A forma como os fantasmas se manifestam, seus motivos e a maneira como Clayton ilustra seu conto assombroso são uma festa para os olhos e ouvidos. A fotografia de Freddie Francis - que mescla dias luminosos com penumbras arrepiantes - e a trilha sonora de Georges Auric, que inclui uma tétrica canção antes mesmo do logo da Fox (produtora do filme) são pontos altos da produção, que também conta com uma dupla exemplar de atores mirins e um clima sufocante de tensão e medo. Sem mostrar mais do que ligeiras aparições fantasmagóricas nas horas certas e um final que vai contra toda e qualquer regra atual, "Os inocentes" é terror de primeira, daqueles de tirar o sono.

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