quinta-feira, 16 de julho de 2015

GRAN TORINO

GRAN TORINO (Gran Torino, 2008, Warner Bros, 116min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Nick Schenck, estória de Dave Johansson, Nick Schenck. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox, Gary D. Roach. Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: James J. Murakami/Gary Fettis. Produção executiva: Bruce Berman, Jenette Kahn, Tim Moore, Adam Richman. Produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz. Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch. Estreia: 09/12/08

Quando "Gran Torino" estreou, no final de 2008, muito se comentou com a declaração de Clint Eastwood de que ele seria seu último filme como ator. Aos 78 anos de idade à época do lançamento do filme, o veterano ator/diretor não cumpriu a promessa - estrelou o fraco "Curvas da vida" em 2012 - mas acabou por conquistar a maior bilheteria de sua carreira até então: com quase 150 milhões de dólares em caixa somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), a história de um viúvo ranzinza e preconceituoso que tem sua vida transformada pela amizade com uma comunidade de asiáticos deixou para trás clássicos contemporâneos como "Os imperdoáveis" (92), "As pontes de Madison" (95) e "Menina de ouro" (04). O porquê de tanto sucesso é uma incógnita: com um roteiro que é um amontoado de clichês, uma direção quase preguiçosa e atores coadjuvantes quase constrangedores, "Gran Torino" não faz jus à trajetória do Eastwood cineasta - mas em compensação, mostra com absoluta clareza todas as limitações do Eastwood ator, incapaz de sair de sua zona de conforto como intérprete.

Com a mesma cara de durão de sempre - e que fez sua fama e sua glória - Eastwood vive Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia que extravasa todas as frustrações de sua vida - a perda recente da esposa, a relação fria com os filhos e os traumas do conflito - em forma de preconceito contra sua vizinhança, formada em sua maioria por imigrantes asiáticos cuja cultura ele desconhece e despreza. Como uma espécie de Scrooge (personagem de Charles Dickens conhecido por sua misantropia exarcebada), ele não hesita em comprar briga com todos à sua volta, sempre com o objetivo de proteger sua propriedade e seu objeto de maior valor, um automóvel Gran Torino 1972 que ele preza mais do que a própria família. Agressivo e mau-humorado, Kowalski não respeita nem mesmo o pároco local, o jovem Padre Janovitch (Christopher Carley), que tenta incansavelmente apaziguar sua alma. Seu preconceito finalmente encontra amparo quando ele surpreende o adolescente Thao (Bee Vang) tentando roubar seu bem mais valioso por pressão da gangue liderada por seu primo. Disposto a consertar o caráter do jovem, Kowalski acaba sendo obrigado a conviver com a família dele e descobre dentro de si um calor humano há muito esquecido.


Conhecido pela rapidez e economia com que trabalha, Eastwood não fez diferente em "Gran Torino", filmado em apenas 33 dias com um orçamento de pouco mais de 30 milhões de dólares. O problema é que, ao contrário dos demais filmes de seu currículo, dessa vez essa pressa fica evidente em cada cena. Não há, em "Gran Torino", a sofisticação visual de "Bird" (88) ou a profundidade dramática de "Sobre meninos e lobos" (03). As soluções do roteiro são banais e previsíveis, os enquadramentos são monótonos e os personagens tem a profundidade de um pires, além do pecado mortal de não despertarem nada mais do que apatia em relação à plateia. O protagonista, por exemplo, não é um adorável ranzinza em busca de redenção, e sim um homem antipático e desagradável, inapto em captar a simpatia do público, e o introvertido Thao tampouco consegue tal proeza, graças à atuação pífia do novato Bee Vang, digno do mais terrível dos filmes B. Tais pecados - a escolha de um personagem principal repulsivo e chato e a escalação de um jovem ator medíocre para um papel crucial - são decisivos para transformar uma sessão de "Gran Torino" em uma tortura (a não ser que se seja fã incondicional do diretor, que, apesar de alguns tropeços constrangedores, mantém uma média bastante decente de qualidade em sua filmografia).

Os fãs mais radicais de Eastwood provavelmente não darão importância aos erros de "Gran Torino", relevando-os em nome de sua carreira e do fato de manter uma invejável constância na trajetória como cineasta e ator. Mas é preciso reconhecer que nas mãos de alguém menos consagrado as reações certamente seriam menos entusiasmadas. Um festival de clichês sonolento e previsível, é um passo em falso no caminho de Eastwood, ainda que não tenha sido reconhecido como tal.

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