sexta-feira, 3 de julho de 2015

A PROVA

A PROVA (Proof, 2005, Miramax, 100min) Direção: John Madden. Roteiro: David Auburn, Rebecca Miller, peça teatral homônima de David Auburn. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Mick Audsley. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Julie Goldstein, James D. Stern, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Robert Kessel, Alison Owen. Elenco: Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins, Jake Gyllenhaal, Hope Davis. Estreia: 05/9/05 (Festival de Veneza)

Em 1998, o diretor John Madden e a atriz Gwyneth Paltrow estiveram à frente de um grande sucesso de bilheteria e Oscar (sete estatuetas, incluindo melhor filme) com a deliciosa comédia romântica "Shakespeare apaixonado", que especulava a respeito de uma história de amor proibido entre o dramaturgo de "Romeu e Julieta" e uma dama da sociedade inglesa comprometida com outro homem e que sonhava tornar-se estrela dos palcos. Sete anos mais tarde, eles voltaram a se encontrar para tentar reconquistar os membros da Academia, dessa vez em um tom mais sério, com a adaptação para as telas de uma peça teatral sobre assuntos não muito atraentes: matemática e loucura. Não deu certo, pelo menos em termos de reconhecimento e prestígio: mesmo com o apoio luxuoso de Anthony Hopkins no elenco, "A prova" - baseado no texto original de David Auburn que estreou nos palcos em 2000 - não chegou a entusiasmar nem o público nem a crítica. Não deixa de ser uma pena, já que é um filme interessante e correto, calcado em atuações intensas e uma trama mais inteligente que a média.

Ciência é o ponto de partida de "A prova": depois da morte do prestigiado e louvado Robert (Anthony Hopkins) - autor de vários teoremas matemáticos louvados por mestres e alunos - sua filha caçula, Catherine (Gwyneth Paltrow), que cuidou dele em seus últimos anos, entra em uma severa crise nervosa, temendo sofrer dos mesmos problemas mentais do pai. Aos vinte e sete anos e também estudiosa de matemática, ela demonstra grande talento e inteligência, mas deixa que sua aflição tenha mais influência sobre sua personalidade do que seu gênio. Seus problemas ficam ainda maiores quando sua irmã mais velha, Claire (Hope Davis), chega para o funeral e inicia o processo de levá-la com ela para um recomeço em Nova York - mesmo que isso não estivesse exatamente em seus planos, principalmente porque Catherine está iniciando um romance com Harold (Jake Gyllenhaal), aluno de seu pai que acredita que há a prova de um teorema complicadíssimo entre os escritos do desequilibrado matemático.


Intercalando passado e presente como forma de dar ao público a mesma sensação de desamparo e confusão com que Catherine se depara em sua angústia, o roteiro dos dramaturgos David Auburn (autor da peça original) e Rebecca Miller (filha de Arthur e esposa de Daniel Day-Lewis) consegue a proeza de tratar de assuntos pouco comerciais e até um tanto delicados com suavidade e leveza, nunca deixando que a trama descambe para o clichê e a intelectualidade excessiva. Apesar de ter a matemática como ponto de partida da história, o que se destaca é principalmente a relação de sua protagonista com os demais personagens e com seu medo de perder a sanidade. Essa estrutura dramática dá espaço mais do que o suficiente para seus atores brilharem, especialmente graças aos diálogos densos e à complexidade das relações interpessoais gerada pela trama. Gwyneth Paltrow se destaca, em uma interpretação delicada e contida que mostra dentro de uma atriz muito questionada por ter ganho um Oscar inesperado vive uma intérprete dedicada e capaz de transmitir os mais variados sentimentos. Com um olhar expressivo e que dá margem a inúmeras interpretações, ela consegue sobressair-se até mesmo ao veterano Anthony Hopkins.

Servindo apenas como base de uma trama centralizada nos conflitos entre Catherine e sua irmã - chique, bem resolvida e alienada em relação ao universo científico de sua família - Hopkins é a presença magnética de sempre, derramando seu fleuma elegante pela tela mesmo quando seu personagem está à beira da loucura. Seus embates com Paltrow - em particular a bela cena em que a filha percebe o estado mental do pai - são fascinantes, em parte graças ao texto forte, em parte à direção econômica de John Madden, mais uma vez comprovando seu talento em não deixar-se levar pela vaidade de chamar mais a atenção que a história ou os atores. Tratando o roteiro como o principal elemento de seu trabalho, ele faz de "A prova" um filme inteligente e direto, feito para quem gosta de assistir a bons atores defendendo um bom texto. Não é para todos, mas nem sempre bom cinema o é.

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