sexta-feira, 20 de novembro de 2015

LOVELACE

LOVELACE (Lovelace, 2013, Millenium Films/Eclectic Pictures/Untitled Entertainment, 93min) Direção: Rob Epstein, Jeffrey Friedman. Roteiro: Andy Bellin. Fotografia: Eric Edwards. Montagem: Robert Dalva, Matthew Landon. Música: Stephen Trask. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Merritt Johnson, Avi Lerner, Peter Sarsgaard, Amanda Seyfried, Trevor Short, John Thompson. Produção: Heidi Jo Markel, Laura Rister, Jason Weinberg, Jim Young. Elenco: Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, Robert Patrick, Juno Temple, Chris Noth, Bobby Cannavale, Hanz Azaria, Adam Brody, Chloe Sevigny, James Franco, Debi Mazar, Wes Bentley, Eric Roberts. Estreia: 22/01/13 (Festival de Sundance)

Não é preciso ser um fã do gênero para conhecer "Garganta profunda", um dos mais famosos e celebrados filmes pornográficos da história. Lançado em 1972, tornou-se um fenômeno de proporções inéditas e inspirou até mesmo o apelido do misterioso informante no infame Caso Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon. Estrelada pela então desconhecida Linda Lovelace, a história da jovem que descobre ter o clitóris localizado na garganta e passa a conhecer o prazer sexual conforme vai se especializando em sexo oral é, até hoje, o filme adulto mais rentável já realizado (com uma renda estimada em 600 milhões de dólares) mas os bastidores de sua realização, bastante polêmicos, só estavam relegados aos leitores da biografia da atriz - lançada em 1980 - e aos comentários suscitados por seu posicionamento contra a indústria da pornografia que veio em seguida. A real história de Linda, com todos os seus lances dramáticos (anteriores e posteriores à fama), pedia uma versão cinematográfica à altura. Surgiu, então a cinebiografia dirigida pelos cineastas Rob Epstein e Jeffrey Friedman (que juntos, lançaram o sensacional documentário "O outro lado de Hollywood", sobre o tratamento dado pelo cinema à homossexualidade). O problema é que, apesar do tema explosivo, "Lovelace" parece ter medo da ousadia. E isso faz uma enorme diferença no resultado final.

Com uma narrativa quadradinha que enfraquece até mesmo sua segunda metade, quando o ponto de vista da protagonista assume o foco e as revelações sobre seu casamento e sua carreira dão outro viés aos acontecimentos, o filme de Epstein e Friedman perde a chance de revelar, através da história de um longa específico, a podridão dos bastidores da indústria da pornografia, algo que Paul Thomas Anderson atingiu com grande êxito em seu "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997. Porém, ao contar uma história calcada basicamente em sexo puro, o roteiro parece ter medo de mergulhar no assunto, passando correndo por qualquer sequência que porventura possa ofender os pruridos cada vez maiores da plateia norte-americana. Mesmo que o foco não seja o sexo em si, não deixa de ser irônico que uma produção que tenta desmascarar a hipocrisia seja tão puritana. E seria injusto debitar isso ao elenco de nomes famosos, já que todos parecem extremamente à vontade em seus papéis, e os dois atores centrais, Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard (que também assinam como produtores executivos), já tem no currículo filmes de alto teor erótico e não tem medo de se entregar de corpo e alma a seus personagens. O fato é que, mesmo com algumas louváveis qualidades, "Lovelace" perde pontos por jamais sair de sua zona de conforto.


O filme começa, como se poderia esperar, em 1970, quando a jovem Linda Boreman (Amanda Seyfried em papel herdado de Lindsay Lohan, então já em seu inferno astral pessoal e profissional) conhece o homem que se tornaria sua bênção e seu castigo. Chuck Treynor (Peter Sarsgaard, sempre dedicado e extremamente competente) é quem a tira da casa de seus severos pais (interpretados por Robert Patrick e uma irreconhecível Sharon Stone) e, aparentemente apaixonado e carinhoso, devolve a ela a autoestima perdida devidos a traumas do passado. Acontece que logo ele demonstra um lado pouco agradável e, metido com prostituição e na mira de credores perigosos, acaba por convencê-la a fazer o papel principal de um filme pornográfico que pode salvar suas finanças. O sucesso estrondoso do filme, "Garganta profunda", a torna internacionalmente conhecida, mas não a ajuda a ser feliz. Pouco tempo depois ela decide tornar públicas as humilhações pelas quais passou nas mãos de Treynor - e volta aos holofotes como uma vítima de violência doméstica que não ganhou um centavo com o trabalho que deixou os produtores milionários.

Recheando seu filme de rostos conhecidos do público - além dos já citados desfilam pela tela James Franco, Juno Temple, Chris Noth, Hank Azaria, Eric Roberts, Adam Brody e Bobby Cannavale - os cineastas são felizes em contar sua história de forma fluente e sem sobressaltos. Porém, mesmo quando há a ruptura narrativa que altera a percepção do público em relação à trajetória da protagonista, ela não acontece com o impacto que poderia. A opção dos diretores em manter o ritmo na mesma cadência acaba por ser um golpe fatal para seu filme, que tem a mesma pulsação do início ao fim. Não seria um problema se essa pulsação fosse excitante ou potente - como acontece com a obra de Anderson, que deixa o espectador sem fôlego durante suas duas horas e meia - mas a edição carece de energia e tesão, o que nesse caso específico, é um pecado quase imperdoável. Mesmo com o empenho de Seyfried e Sarsgaard, "Lovelace" fica aquém do que poderia ser. É um "Supercine" de luxo. Uma pena.

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