quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PERDER A RAZÃO

PERDER A RAZÃO (À perdre la raison, 2012, Versus Production/Samsa Film, 111min) Direção: Joachim Lafosse. Roteiro: Matthieu Reynaert, Thomas Bidegain, Joachim Fosse. Fotografia: Jean-François Hensgens. Montagem: Sophie Vercruysse. Figurino: Magdalena Labuz. Direção de arte/cenários: Anna Falguères/Hind Ghazali. Produção: Jacques-Henri Bronckart, Olivier Bronckart. Elenco: Émilie Dequenne, Niels Arestrup, Tahar Rahim, Stéphane Bissot, Redouane Behache. Estreia: 22/5/12 (Festival de Cannes)

O teatro grego, com suas tragédias de alcance universal, ainda servem de base para emocionar e chocar plateias do século XXI, sempre dispostas de verem retratadas nas telas as ampliações de seus dramas e angústias. Com essa ideia na cabeça - fomentada por um caso real ocorrido na Bélgica no ano de 2007 - o jovem (36 anos à época das filmagens) Joachim Fosse construiu, com "Perder a razão" um dos mais potentes dramas de 2012, que foi indicado por seu país a concorrer a uma vaga entre os finalistas para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Não conseguiu atingir o objetivo de disputar a estatueta dourada, mas de forma alguma isso é um demérito ou diminui o impacto e o poder de seu quinto longa-metragem - entre seus trabalhos encontra-se o elogiado "Propriedade privada", estrelado por Isabelle Huppert em 2006. Realizado com uma paixão que salta da tela, "Perder a razão" é daqueles filmes de permanecer na memória do espectador por um bom tempo após o final da sessão. Culpa do roteiro conciso, da direção sóbria e do elenco espetacular que reúne, depois do vencedor "O profeta", de Jacques Audiard, os excelentes Tahar Rahim e Niels Arestrup.

A crítica sócio-política não é o tema central do filme, mas tem importância fundamental na trama, que contrapõe com inteligência o drama pessoal de seus protagonistas à incômoda situação dos imigrantes muçulmanos na Bélgica. É essa tensão latente que empurra seus personagens ao abismo do qual poucos tem força suficiente para sair: o jovem Mounir (Tahar Rahim, em um desempenho discreto mas muito eficiente) foi adotado pelo respeitado médico André Pingent (Niels Arestrup mais uma vez explorando com intensidade sua persona imponente e maquiavélica), que lhe deu oportunidade de trabalho e uma vida relativamente confortável na Bélgica da mesma forma que fez isso com sua irmã mais velha, com quem casou-se apenas no papel para lhe garantir um green card. A gratidão de Mounir em relação ao altruísta Pingent estende-se também ao carinho que ele demonstra pelo resto de sua família, que ainda tenta entrar no país de forma legítima. A relação entre eles, afetuosa e de extremo respeito, sofre um abalo, porém, quando Mounir se apaixona e se casa com a bela Murielle (Émilie Dequenne, genial).


A princípio, nada muda quanto à rotina do jovem, que convence a esposa a morar junto com ele e o experiente doutor em sua espaçosa casa. Porém, conforme a família vai aumentando de forma acelerada, o desejo de Murielle em ter um lar apenas para o marido e as filhas vai se tornando motivo frequente para discussões e conflitos. Sentindo que Pingent exerce um domínio mais que normal sob o marido, ela passa a questionar sua lealdade e inicia um longo processo em relação à depressão e à angústia. Vista de fora, sua família é um exemplo de felicidade e paz - uma falácia percebida apenas de leve pela sogra distante - mas em casa, quando sozinha, a bela e jovem mãe não consegue encontrar uma saída para sua angústia, a quem revela apenas superficialmente à sua médica (que, tristemente, também é ligada ao pai adotivo de seu marido). Sua incapacidade de encontrar uma solução para seu dilema acaba levando-a, então, a uma decisão radical.

Mesmo que a primeira cena dê uma pista do cruel desfecho bolado pelo roteiro - do qual o diretor é também um dos autores - o ideal é que não se tente adivinhá-lo, para que a sensação de desamparo e choque seja mais eficiente. Conduzindo sua trama com sutileza e sensibilidade únicas até o final devastador, Joachim Fosse se mostra um cineasta de olhar atento às dores do ser humano, evitando sempre que possível carregar nas tintas de seus personagens, por mais que eles permitam tal atitude. A dubiedade de André Pingent (manipulada por maestria por Niels Arestrup), a passividade de Mounir (enfatizada pela serenidade constante de Tahar Rahim em cena) e o desespero de Murielle (sublinhado por uma sequência arrepiante de uma crise de choro no carro) vão sendo mostrados aos poucos, como ingredientes que são percebidos somente quando se experimenta o prato pronto. "Perder a razão" é definitivamente triste. Mas é também um filme dos mais interessantes a surgir no cinema europeu de sua época e que revela um diretor muito promissor. Que venham os próximos, monsieur Fosse.

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