domingo, 22 de novembro de 2015

FRUITVALE STATION: A ÚLTIMA PARADA

FRUITVALE STATION - A ÚLTIMA PARADA (Fruitvale Station, 2013, Forest Whitaker's Significant Productions, 89min) Direção e roteiro: Ryan Coogler. Fotografia: Rachel Morrison. Montagem: Claudia S. Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Girabsson. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Kris Boxell. Produção executiva: Michael Y. Chow. Produção: Nina Yang Bongiovi, Forest Whitaker. Elenco: Michael B. Jordan, Octavia Spencer, Melonie Diaz, Kevin Durand. Estreia: 19/01/13 (Festival de Sundance)

Em um país como o Brasil, onde a violência arbitrária da polícia frequenta com assiduidade os noticiários, a trama de "Fruitvale Station, a última parada" pode até parecer banal - vale lembrar inclusive do jovem brasileiro Jean Charles, que foi morto no metrô de Londres em julho de 2005  , confundido com um criminoso, e virou tema do filme de mesmo nome, estrelado por Selton Mello. Porém, a força do primeiro longa-metragem do cineasta Ryan Coogler vai além da denúncia que lhe inspirou. Conciso, forte e emocionalmente discreto, o filme - produzido pelo ator Forest Whitaker, fã dos trabalhos universitários do diretor, e comprado pela Weinstein Company (dos irmãos fundadores da Miramax) dois dias depois de sua estreia no Festival de Sundance 2013 - foge admiravelmente das armadilhas do panfletarismo ideológico para, sem deixar de sublinhar sua revolta, concentrar-se nas pessoas envolvidas na tragédia. Falíveis e despidos de quaisquer tipos de paternalismo barato, os personagens de "Fruitvale Station" são seu maior trunfo, em especial o protagonista vivido pelo ótimo Michael B. Jordan.

Primeira e única escolha de Coogler para interpretar Oscar Grant - vítima de um dos mais grotescos casos de violência policial contemporânea na história de São Francisco - Jordan (quase homônimo ao famoso jogador americano de basquete) injeta carisma e intensidade ao filme desde suas cenas iniciais, e vai demonstrando, no desenrolar da trama, talento suficiente para dar conta de todas as nuances de seu personagem. De criminoso arrependido a pai amoroso, de namorado infiel a companheiro apaixonado, de filho revoltado a irmão carinhoso, todas as facetas de Oscar são mostradas sem condescendência pela câmera nervosa de Coogler, que o acompanha desde as primeiras horas do dia 31 de dezembro de 2008 até a tragédia inesperada ocorrida nos primeiros momentos de 2009 - que tornou-se conhecida internacionalmente graças às filmagens de aparelhos celulares de testemunhas incrédulas e chocadas. Dividindo seu filme em duas pulsações distintas - a tranquilidade do princípio aos poucos sendo substituída pela tensão nervosa do terço final - Coogler constroi um filme que, apesar de curto, é dono de uma potência dramática inegável.


Para quem não conhece a história - o que até é preferível, para que as coisas sejam mais chocantes - pode-se dizer, sem medo de entregar todo o roteiro, que trata-se da história do jovem Oscar Grant, um jovem de 22 anos que, depois de um período na cadeia por tráfico de drogas, tenta recomeçar sua vida, ao lado da namorada, Sophina (Melonie Diaz) e da filha pequena, Tatiana (Ariana Neal). Desempregado devido a constantes atrasos, ele está disposto a fazer de 2009 o primeiro ano do resto de sua vida, e para isso conta com o apoio da família, especialmente da mãe, Wanda (Octavia Spencer, Oscar de atriz coadjuvante por "Histórias cruzadas"). Quando ele decide acatar o desejo de Sophina de assistir à queima de fogos de artifício da virada do ano, porém, nem imagina que seus planos podem sofrer uma brutal reviravolta.

Pontuando o roteiro com cenas que tiram de Oscar a aura de vítima pura e ao mesmo tempo o mostram como um ser humano repleto de qualidades, Ryan Coogler evita o maniqueísmo com admirável maestria, escorado por um elenco inspiradíssimo e por uma edição dotada de um ritmo ágil mas nunca apressado. Sua inteligente escolha em aumentar a sensação de suspense e medo perto do desenlace aproxima a plateia dos personagens com rara sinceridade, e é impossível não sentir-se tocado com o desfecho, por mais que ele seja conhecido desde o princípio. Esse talento demonstrado por Coogler em comover sem apelar para a lágrima fácil teve reconhecimento: dentre os inúmeros prêmios colecionados por "Fruitvale Station" há que se destacar quatro reconhecimentos pelo austero National Board of Review - atriz coadjuvante (Octavia Spencer), revelação masculina (Michael B. Jordan), melhor filme de estreia e eleição como um dos dez melhores filmes do ano - e a estatueta de melhor primeiro filme no Independent Spirit Awards (o Oscar do cinema independente). 

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