terça-feira, 4 de agosto de 2015

BRUNO

BRUNO (Bruno, 2009, Universal Pictures, 81min) Direção: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Mazer, Jeff Schaffer, estória de Sacha Baron Cohen, Peter Baynham, Anthony Hines, Dan Mazer, personagem criado por Sacha Baron Cohen. Fotografia: Anthony Hardwick, Wolfgang Held. Montagem: Jonathan Scott Corn, Scott M. Davids, Eric Kissack, James Thomas. Música: Erran Baron Cohen. Figurino: Jason Alper. Direção de arte/cenários: Dan Butts, Denise Hudson, David Saenz de Maturana/Ute Bergk, Megan Malley, Britt Woods. Produção executiva: Anthony Hines. Produção: Sacha Baron Cohen, Monica Levinson, Dan Mazer, Jay Roach. Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale. Estreia: 25/6/09

Bruno é um modelo vienense de alegados 19 anos de idade que apresenta um dos programas de televisão mais assistidos nos países de língua alemã - com exceção da Alemanha. Gay assumido e dedicadíssimo ao mundo da moda, ele cai em desgraça em seu país de origem e, de queixo erguido, resolve mudar-se para os EUA com a firme intenção de transformar-se no segundo maior ídolo austríaco da história, atrás apenas de Hitler. Contando com a ajuda de um fiel assistente que é apaixonado por ele, Bruno chega em Los Angeles disposto a invadir o mundo do cinema, mas chega à conclusão de que sua aberta sexualidade pode ser um empecilho para o sucesso. Sendo assim, depois de tentar chamar a atenção com causas políticas, um programa de entrevistas e a adoção de um bebê sul-africano, ele resolve deixar de ser gay, partindo em busca de uma cura para sua "doença" - o que inclui conversas com pastores cristãos, acampamentos para caçar com um grupo de heterossexuais e até uma passada rápida no exército americano.

Com essa sinopse simples e aparentemente banal, o ator Sacha Baron Cohen deu continuidade à sua não-oficial cruzada de expor os preconceitos e hipocrisias da população norte-americana, iniciada nas telas com o louvado "Borat" (06). Assim como o repórter do Cazaquistão que chegou à Nova York para aprender as "boas maneiras" dos nativos, Bruno - o personagem - nasceu no programa de TV de Cohen, "Da Ali G Show", e sua chegada aos cinemas não poderia ter sido mais bem-sucedida: em seu fim-de-semana de estreia, "Bruno" - o filme - arrecadou mais de 30 milhões de dólares, tornando-se o filme com protagonista gay de maior bilheteria na estréia na história, batendo o remake de "A gaiola das loucas" estrelado por Robin Williams e Nathan Lane. Equilibrando improvisos com um roteiro repleto de piadas relacionadas ao mundo da moda e das celebridades e salpicando a trama com participações especiais de gente do calibre de Bono Vox, Elton John e Harrison Ford - as cenas com Janet Jackson foram limadas da versão final por causa da inesperada morte de Michael pouco antes da estreia - Cohen novamente deixa indistinguível a linha que separa o humor inteligente daquele no limite do bom gosto. Ao mesmo tempo em que dispara farpas - como chamar Mel Gibson de "fuhrer" devido a suas declarações antissemitas - o roteirista/ator/diretor/produtor pode chocar aos mais sensíveis com sequências que mostram as atividades sexuais de seu protagonista com o então namorado e com o explícito nu frontal na abertura do piloto de seu programa americano. Essa forma de fazer rir a todo custo é, ao mesmo tempo, a maior qualidade e o defeito mais "perigoso" do filme.


Sem papas na língua e totalmente desprovido de qualquer tipo de noção de politicamente correto, Bruno é o perfeito alter ego de Cohen para desfilar - literalmente - um rol de tiradas capazes de arrancar gargalhadas do público gay, ao fazer referências diretas a ícones de sua cultura, como a série "Sex and the city", grifes de roupas e ídolos como Paula Abdul, Angelina Jolie e Madonna. Corre sérios riscos físicos - como na sequência final, passada em uma final de UFC - e desafia sem medo dogmas estabelecidos por sociedades menos abertas a piadas sobre suas crenças - caso de suas tentativas de ser sequestrado no Oriente Médio ou acabar com a rixa entre palestinos e israelenses com uma canção evocando a paz. Até mesmo sua tentativa de seduzir um político conservador (para filmar a relação entre eles e tornar-se famoso) é uma espécie de provocação tanto ao puritanismo ianque quanto ao desespero pela fama que tanto passou a dominar a cultura ocidental.

No final das contas, "Bruno" é um passatempo extremamente curto e igualmente engraçado. Em menos de hora e meia, Sacha Baron Cohen tira sarro de tudo e de todos, expondo preconceitos, ridicularizando estrelismos e fazendo um humor visual dos mais inspirados - a roupa de velcro que acaba sendo a responsável pela queda de Bruno em desgraça em seu país é um achado irresistível. Claro que nem todo mundo vai achar graça, muitos se sentirão ofendidos e outros tantos simplesmente considerarão seu tipo de humor francamente grosseiro. Mas aqueles que embarcarem na enlouquecida viagem do ator com o propósito de diversão - assim como fizeram Elton John, Bono Voz, Chris Martin, Snoop Dogg - certamente darão muitas e (em alguns casos) constrangedoras risadas.

Nenhum comentário: