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A FITA BRANCA

A FITA BRANCA (The white ribbon, 2009, X-Filme Creative Pool/Wega Film/Les Films du Losange, 144min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Monika Willi. Figurino: Moidele Bickel. Direção de arte/cenários: Christoph Kanter/Heike Wolf. Produção executiva: Michael Katz. Produção: Stefan Arnt, Veit Heiduschka, Margaret Ménégoz, Andrea Occhipinti. Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur. Estreia: 21/5/09 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 

Um filme austríaco, em preto-e-branco, com quase duas horas e meia de duração e que conta uma história recheada de simbolismos que não apresenta um final tradicional, "A fita branca" foi o grande vencedor do Festival de Cannes de 2009 e, se não tivesse sido surpreendido pelo azarão argentino "O segredo dos seus olhos", teria saído da festa do Oscar 2010 com uma estatueta que confirmaria suas extraordinárias qualidades. Comprovando a importância da categoria na cerimônia da Academia - que chama a atenção dos cinéfilos para obras que destoam das produções comerciais e normalmente previsíveis realizadas em Hollywood - o filme de Michael Haneke, conhecido por filmes como "Violência gratuita" (as duas versões) e "A professora de piano", é um dos mais corajosos e inteligentes filmes europeus a chegar às telas em sua temporada. Com uma estrutura de suspense dramático e desenvolvimento lento, a obra é, também, uma metáfora sobre o nascimento do nazismo - ainda que o próprio Haneke tenha afirmado, posteriormente, que essa leitura é apenas incidental - e as origens do mal a partir da infância. Perturbador, inquietante e quase desagradável. Mas também sensacional!

A trama criada por Haneke começa nas primeiras décadas do século XX, antes ainda da I Guerra Mundial, em um pequeno vilarejo do norte da Alemanha. A comunidade, formada basicamente por agricultores que são liderados por um rígido barão e por um pastor protestante pai de seis crianças, passa a ser atormentada por incidentes cada vez mais violentos e surpreendentes. Da queda do cavalo sofrida pelo médico local - causada por um fio estrategicamente escondido no caminho - ao sequestro e tortura do filho pequeno e mentalmente doente de sua assistente, o povo começa a viver uma atmosfera de paranoia e desconfiança que cresce conforme outros fatos se acumulam no histórico do povoado. Enquanto ninguém assume a autoria dos pequenos crimes, a população segue sua vida privada - e sem que sejam conhecidos publicamente, fatos como relacionamentos abusivos e exploração sexual familiar surgem diante dos olhos da plateia. Narrada por um jovem professor que tenciona casar-se com uma jovem forasteira, a história da pequena cidade e seus fantasmas segue até o nascimento da guerra, que joga uma nova luz na personalidade doentia de quase todos os habitantes.


Fotografado com requinte por Christian Berger - que também concorreu ao Oscar - e editado com um ritmo que acentua seu tom claustrofóbico e sinistro, "A fita branca" é recheado de momentos brilhantes, tanto em termos narrativos quanto visuais. Cenas de brutalidade psicológica, como a sequência em que o médico humilha com palavras agressivas sua assistente/amante são alternadas com outras de extrema violência física, que mesmo disfarçadas pela beleza dos enquadramentos não conseguem deixar de ser desconfortáveis. Com uma visão nada simpática da alma humana, Michael Haneke constroi um filme de tensão crescente, que não poupa os personagens nem a plateia em sua tentativa de fazer de seu cenário um microcosmo do país, às vésperas de entrar em um conflito de grandes proporções bélicas que irá enterrar para sempre a inocência de suas crianças - seres, aliás, com aparência tão sinistra quanto nos mais terríveis filmes de terror dos anos 40 e 50. Escolhidos a dedo pelo cineasta, todos os atores mirins são absolutamente convincentes, o que dá ao filme uma atmosfera ainda mais sufocante e bizarra - especialmente quando, perto do final, a verdade começa a vir à tona, revelando desdobramentos avassaladores.

Evitando fazer de seu filme uma obra simples e facilmente decodificável, Michael Haneke acabou por realizar um trabalho dos mais marcantes de sua carreira, repleto de metáforas e simbolismos que se tornam mais fascinantes a cada revisão. Dono de diálogos nunca aquém de geniais e interpretações antológicas, "A fita branca" não é, definitivamente, um filme para qualquer plateia. Quem se dispor a embarcar na viagem proposta pelo diretor, porém, pode ter certeza de que não terminará a sessão da mesma forma que começou. É, mais do que um filme, uma experiência das mais interessantes.

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