domingo, 9 de agosto de 2015

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland, 2010, Walt Disney Pictures, 108min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Linda Woolverton, romances de Lewis Carroll. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Robert Stromberg/Karen O'Hara. Produção executiva: Chris Lebenzon, Peter Tobyansen. Produção: Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd, Richard D. Zanuck. Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Christopher Lee, Crispin Glover. Estreia: 05/3/10

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Primeiro, a pergunta que não quer calar: por que mais uma versão para o cinema do clássico livro de Lewis Carroll, imortalizado na memória coletiva pela animação dos estúdios Disney lançada em 1951? Depois, uma questão ainda mais pertinente: por que escolher para protagonista uma jovem da idade de Mia Wasikowska e não uma criança, como se poderia esperar de uma adaptação fiel? Ambas as perguntas tem a mesma resposta, que fica clara logo nos primeiros minutos da versão Tim Burton de "Alice no País das Maravilhas": ao transpor para as telas os dois livros de Carroll estrelados por Alice - suas aventuras no País das Maravilhas e Através do Espelho - o excêntrico cineasta por trás de obras essenciais do cinema americano dos anos 90, como "Ed Wood" e "A fantástica fábrica de chocolates", resolveu expandir o universo criado pelo escritor, inventando uma história nova que fizesse uma Alice adulta revisitar seu passado justamente em um momento crucial de seu amadurecimento. Sendo assim, apesar dos personagens clássicos da obra estarem presentes no filme - a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco, o Gato - o público que esperava uma versão fiel da famosa história se viu diante de um filme visualmente excitante (característica indissociável da obra do diretor) mas bem diferente do previsto. Pior ainda, uma obra desprovida de encanto: sob o comando de Tim Burton, "Alice no País das Maravilhas" é um filme lindo de se ver, mas chatíssimo de acompanhar.

Prejudicado por uma atriz central insossa e sem carisma, "Alice no País das Maravilhas" tem a seu favor todo o esmero que sempre acompanha uma produção com a assinatura de Tim Burton. Do figurino de Colleen Atwood (premiado com o Oscar) à direção de arte (também premiada pela Academia), passando pela fotografia caprichada de Darius Wolszki e pela caracterização visual de todos os personagens, tudo no filme é espetacular e brilhantemente executado. Uma pena, porém, que todo esse cuidado não se reflete no roteiro, confuso e enfadonho a ponto de deixar o público totalmente indiferente à sorte da protagonista bem antes do clímax - uma batalha centrada basicamente em efeitos visuais e desprovida de qualquer emoção. Em sua tentativa de dar um espaço mais generoso ao Chapeleiro Maluco (provavelmente para aumentar a participação de seu habitual colaborador e amigo Johnny Depp) Burton acabou por esvaziar a importância de Alice, transformando-a em um atônito peão em um jogo de xadrez violento e sem muita razão de ser entre duas rainhas irmãs e rivais, vividas por Helena Bonham Carter e Anne Hathaway - aliás, os dois únicos acertos do elenco.


Trabalhando pela sexta vez com o então marido, Bonham Carter mais uma vez rouba a cena, dessa vez na pele da enlouquecida Rainha Vermelha - misturada aqui com a Rainha de Copas, em uma fusão no mínimo ousada, mas eficaz. Fazendo uso de sua tendência ao exotismo, a atriz que trocou os babados dos filmes baseados na literatura inglesa clássica - como "Uma janela para o amor" e "Retorno a Howards End" - pela excentricidade do cinema moderno - como a doentia Marla de "Clube da luta" ou suas colaborações anteriores com Tim Burton - parece estar se divertindo aos montes em cena, em uma composição que mistura o excesso das histórias em quadrinhos com a pop art de Andy Wharol. Sempre que está em cena, ela engole tudo à sua volta, em um desempenho louvável, que encontra eco somente na doçura e serenidade emprestada por Anne Hathaway à sua Rainha Branca - um contraste interessante que poderia ter rendido cenas antológicas não fosse a preguiça do roteiro em aprofundar quaisquer das tramas que propõe durante o caminho de sua protagonista.

Quando a trama começa, a Alice que todos conhecem já está com 19 anos de idade e apavorada com a possibilidade de ser obrigada a casar-se com um homem a quem não ama e com quem não tem a menor ligação. Antes que seja obrigada a dar uma resposta ao pedido de casamento, porém, ela acaba por surpreender a todos os convidados da festa promovida para tal ocasião ao sair correndo atrás de um coelho que julga já conhecer de outro lugar. Em sua busca, ela acaba caindo em um buraco que a leva a uma misteriosa terra chamada Underland. Lá, fazendo contato com seres estranhos que conhece através de vários sonhos que a perseguem há anos, ela descobre que é peça fundamental na batalha entre as duas rainhas que disputam o poder. Além disso, descobre também que já esteve em tal lugar, quando ainda era uma criança.

Fascinante em sua concepção visual e decepcionante em sua construção dramática, "Alice no País das Maravilhas" acabou conquistando o público mesmo com seus sérios defeitos de roteiro e rendeu mais de 300 milhões de dólares pelo mundo. Uma prova (mais uma) de que nem sempre os melhores filmes são os mais bem-sucedidos comercialmente.

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