sexta-feira, 14 de agosto de 2015

TODA FORMA DE AMOR

TODA FORMA DE AMOR (Begginers, 2010, Olympus Pictures/Northwood Productions, 105min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Kasper Tuxen. Montagem: Olivier Bugge Coutte. Música: Roger Neill, David Palmer, Brian Reitzell. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Coryander Friend. Produção executiva: Joan Scheckel. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Estreia: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Goran Visnjic. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer) 

A estreia do cineasta Mike Mills não ultrapassou os limites dos festivais de cinema. O longa "Impulsividade" angariou elogios da crítica, mas não pode ser considerado um êxito de público. Seu segundo trabalho atrás das câmeras, porém, teve - e mereceu - uma sorte bem melhor. Premiado como melhor filme de 2011 pelo Gotham Awards - empatado com o controverso "Árvore da vida", do cultuado Terrence Malick - e vencedor do Golden Globe e Oscar de melhor ator coadjuvante para o veterano Christopher Plummer, "Toda forma de amor" é um belíssimo drama romântico, que extrapola os limites do gênero ao contar não apenas uma tradicional história de amor entre homem e mulher, mas também entre pai e filho e entre um homem e sua verdadeira personalidade.

Inspirado em acontecimentos reais de sua vida, Mills conta a história de Oliver Fields (Ewan McGregor), um jovem designer emocionalmente mutilado que não consegue envolver-se profundamente com nenhuma mulher graças ao trauma de ter convivido com a fria relação entre seus pais. A entrada em sua vida da atriz francesa Anna (Mélanie Laurent) opera uma mudança radical em seu modo de enxergar as coisas, especialmente porque sua chegada coincide com o período de luto que o rapaz vem enfrentando depois da recente morte do pai, Hal (Christopher Plummer), um septuagenário que, após a viuvez, resolveu assumir a homossexualidade, viveu um novo amor com um homem mais jovem, Andy (Goran Visjnic), e descobriu sofrer de um câncer incurável. Sentindo-se incapaz de amar de verdade, Oliver precisa lutar contra a própria insegurança para fugir da infelicidade que sempre acompanhou a vida de seus progenitores, que sufocaram suas reais vontades em prol das aparências.


Mills não se priva de utilizar elementos criativos para contar sua história. Além de fugir de uma ordem cronológica tradicional - misturando as lembranças de Oliver com sua trajetória amorosa -, o roteirista/cineasta também brinca com a linguagem publicitária, inserindo informações a respeito das personagens e de suas vidas (e da sociedade americana de modo geral) de forma original e ágil, sem perder o foco da narração. Usando e abusando de elipses e confiando na inteligência do público, ele escapa divinamente do piegas e do lacrimoso mesmo nos mais comoventes momentos e emociona pelos diálogos bem escritos e pela direção segura. Ewan McGregor entrega uma de suas atuações mais interessantes, deixando de lado as bobagens comerciais que lhe tiraram a credibilidade ("Star Wars" foi um passo em falso em sua carreira) em uma interpretação silenciosa, melancólica e terna. Sua química, tanto com Plummer quanto com Mélanie Laurent (a Shosanna de "Bastardos inglórios") é perfeita, revelando um ator sensível que ainda não foi devidamente valorizado. Plummer, por sua vez, encontrou o papel de sua vida: seu Hal é despido de autopiedade e o veterano ator desfila todas as nuances do personagem com segurança e paixão - não foi à toa que tornou-se o ator mais idoso a levar uma estatueta do Oscar, vencendo a disputa com Max Von Sydow, concorrente por "Tão forte, tão perto" e que recusou o papel oferecido por Mills.

Dono de uma sensibilidade única, de uma estrutura estética e narrativa originais e extremamente delicado, "Toda forma de amor" é um filme que, apesar de ter sido lançado diretamente em DVD no Brasil - mais uma prova da miopia das distribuidoras - é uma pérola a ser apreciada por todos aqueles que admiram uma história bem contada e desprovida de exageros sentimentais. Com um DNA de filme europeu, é também um filme que joga luz sobre um assunto ainda pouco explorado pelo cinema em geral: a homossexualidade na terceira idade. Merece ser descoberto e aplaudido!

Nenhum comentário: