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PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin, 2011, BBC Films/UK Film Council/Footprint Investment Fund, 112min) Direção: Lynne Ramsay. Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear, romance de Lionel Shriver. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joe Bini. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Catherine George. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Christopher Figg, Paula Jalfon, Lisa Lambert, Christine Langan, Norman Merry, Andrew Orr, Lynne Ramsay, Michael Robinson, Steven Soderbergh, Tilda Swinton, Robert Whitehouse. Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno. Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)


Qualquer pessoa dotada de um mínimo de senso comum sabe que as linguagens da literatura e do cinema são diferentes e urgem de elementos distintos para que funcionem da melhor maneira em seus respectivos veículos. Em alguns casos o trabalho de adaptação é facilitado pelo estilo do escritor – John Grisham, por exemplo, não foi adaptado às pencas por Hollywood à toa – mas algumas vezes a coisa é bem mais complicada – que o digam os roteiristas de obras mais densas, como “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. “Precisamos falar sobre o Kevin”, a transposição para as telas do best-seller de Lionel Shriver, é um meio-termo: apesar de tratar-se de um livro menos digestivo (leia-se menos comercial em termos de mercado de cinema), a história de uma mãe torturada pelo horrendo crime cometido pelo filho adolescente que tenta entender as razões de tal ato prestava-se facilmente a uma adaptação linear e quase literal. Mesmo sendo narrada através de cartas escritas pela protagonista ao marido – em um fluxo de consciência mantido por uma forte espinha dorsal – a trama poderia tranquilamente ser transformada em um roteiro com início, meio e fim bem definidos, como manda o figurino das produções hollywoodianas. Mas, longe das influências dos grandes estúdios – e portanto das pressões em moldar o filme em algo mais palatável ao público médio – a versão cinematográfica do livro de Shriver chegou às telas surpreendendo todo mundo. Ao invés de seguir a cartilha comum do cinema comercialmente atraente, a diretora e roteirista Lyanne Ramsey resolveu ousar e entregar uma obra de personalidade própria. Pro bem e pro mal.
Quem leu o livro provavelmente irá levar um susto ao compará-lo com sua versão cinematográfica – e a primeira reação certamente será de estranheza. Longe dos vícios do cinemão mainstream americano, Ramsey abre mão de qualquer traço de obviedade, obrigando o espectador a exercitar um músculo cada vez com menos uso: o cérebro. Não, “Precisamos falar sobre o Kevin” não é daqueles filmes que quebram a cabeça do público, mas tampouco faz parte do grupo de produções que entrega tudo de bandeja. Logo em seu início, que mostra a protagonista Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) em dias felizes, participando de uma festa popular nas ruas da Itália e banhada de molho de tomate, o filme aponta para uma direção inusitada, que irá mesclar, sem aviso prévio, presente e passado, como forma de iluminar as circunstâncias que a levaram de um casamento harmonioso e uma carreira vitoriosa a uma rotina claustrofóbica cercada de culpa e autopunição. O vermelho gritante do tomate irá voltar com frequência à tela, como forma de lembrar constantemente o espectador de que a história que está sendo contada foi escrita com sangue inocente, e não interessa à cineasta apenas narrar a trajetória de Eva e seu filho/nêmesis Kevin: a ela parece importar muito mais as consequências da tragédia do que a tragédia em si. E talvez seja essa diferença fundamental em relação ao livro que tenha abalado tanto os fãs do romance.




No livro de Shriver, Eva é uma bem-sucedida escritora de guias de viagem que leva uma vida confortável e feliz ao lado do marido, Frank (John C. Reilly, um tanto subaproveitado), até que se descobre grávida. Não exatamente dotada de sentimentos maternais – e considerando-se velha demais para uma primeira gestação – ela a princípio rejeita sua condição, apenas para transformar tal sentimento em remorso. Esse remorso, por sua vez, transmuta-se em uma sensação de estranhamento cada vez maior conforme vai-se estabelecendo sua relação com o filho, Kevin. Afável e carinhoso diante do pai, o menino parece, desde criança, desafiar e atormentar a rotina da mãe, incapaz de manter com ele o vínculo esperado. Alguns anos mais tarde, a chegada de uma nova filha, Celia, torna as coisas ainda mais difíceis: finalmente Eva consegue transmitir o amor de uma mãe e quando o primogênito atinge a adolescência (e passa a ser interpretado pelo perturbador Ezra Miller) o que era apenas um desconforto torna-se motivo de uma série de duelos psicológicos que resultam em uma tragédia inesperada.
No filme de Ramsey, a história de Eva e Kevin é narrada com distanciamento, em um roteiro repleto de elipses e uma edição que privilegia a atmosfera de pesadelo da vida da protagonista anos após os violentos acontecimentos que arruinaram sua rotina pacífica. Morando em uma casa modesta e com um emprego muito abaixo de suas qualificações, ela passa os dias fugindo do contato humano, traumatizada pelas agressões de que ainda é vítima e tentando esquecer ou entender suas próprias emoções. Tilda Swinton brilha com um desempenho excepcional, equilibrando com sutileza de mestre todas as diversas nuances de sua personagem e despertando a compaixão do espectador sem apelar para sentimentalismo de qualquer espécie. Pelo contrário, sua resiliência poderia facilmente ser confundida com frieza não fosse o talento da atriz em transmitir tantos sentimentos conflitantes mesmo em silêncio. É somente nos embates de Eva com o filho que Swinton sai de sua aparente apatia e permite à audiência vislumbrar os mecanismos que fizeram de sua vida um inferno particular.

Aliás, se existe algo que faz muita falta na versão para as telas do livro são os encontros de Eva e Kevin na cadeia: eles acontecem no filme, mas em menor número e sem o mesmo impacto emocional. O mesmo pode ser dito também do clímax: buscando fugir do previsível, Ramsey priva o público do que poderia ser um dos mais chocantes finais de sua época para optar pela sugestão. Ok, algumas cenas mostram mais do que claramente o que acontece na escola de Kevin na tarde em que ele chega munido de arco e flechas, mas o destino de Frank e Celia – assim como o de vários colegas do jovem – não recebe do roteiro a importância devida, enfraquecendo uma trama forte e contundente sobre alienação parental, psicopatia e irresponsabilidade da segurança pública. Está certo que o foco da diretora era outro – e dentro dessa premissa ela se dá muito bem – mas é impossível não imaginar o quanto uma história assim ficaria nas mãos de um cineasta menos afeito a cacoetes do cinema independente. Lyanne Ramsey optou por um drama familiar e psicológico. É uma opção corajosa que, vista sob esse prisma, é vitoriosa. Mesmo que decepcione os fãs mais convencionais do romance.

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