domingo, 16 de agosto de 2015

DEIXE-ME ENTRAR

DEIXE-ME ENTRAR (Let me in, 2010, Overture Films/Exclusive Media Group, 116min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, romance e roteiro original de John Ajvide Lindqvist. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Stan Salfas. Música: Michael Giacchino. Figurino: Melissa Bruning. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Wendy Barnes. Produção executiva: Philip Elway, Fredrik Malmberg, John Ptak, Nigel Sinclair. Produção: Tobin Armbrust, Alex Brunner, Guy East, Donna Gigliotti, Carl Molinder, John Nordling, Simon Oakes. Elenco: Kodi Smith McPhee, Chloe Grace Moretz, Richard Jenkins, Elias Koteas. Estreia: 13/9/10 (Festival de Toronto)

Seguindo sua eterna mania de traduzir para seu mal-acostumado público filmes estrangeiros de sucesso, Hollywood achou por bem realizar uma versão americana do terror sueco "Deixe ela entrar", dirigido por Tomas Alfredson. O remake, comandado por Matt Reeves (que estava por trás das câmeras de "Cloverfield"), sofreu uma pequena alteração no título - passou a chamar-se "Deixe-me entrar" (?!?!) - e, apesar de uma modificação crucial em relação a origem de sua protagonista, é bastante fiel ao filme original. Se beneficiando também da onda da época de seu lançamento - o vampirismo, sepultado e humilhado na série "Crepúsculo" - é um trabalho que agrada aos fãs do gênero e pode até conquistar àqueles que procuram um bom filme mesmo não se interessando pelo assunto. Tudo graças ao clima impresso pelo visual caprichado e por seus dois atores principais, Kodi Smith-McPhee e Chloe Moretz, que emprestam à obra uma qualidade única.

Depois de ter emocionado a plateia com seu sensível trabalho em "A estrada", o pequeno Smith-McPhee volta a entregar um trabalho de alta qualidade como Owen, um menino tímido e introvertido que precisa lidar com a separação dos pais e com os ataques de bullying que sofre dos valentões da escola que frequenta, na pequena cidade de Los Alamos, Novo México, no ano de 1983. Isolado em seu mundo solitário, ele conhece e faz amizade com Abby (Chloe Grace Moretz), uma menina misteriosa que tem uma relação mal-explicada com um homem mais velho (Richard Jenkins, eficiente como sempre) e que mora na casa ao lado da sua. Quando vários violentos assassinatos começam a ocorrer nos arredores, Owen descobre que Abby está envolvida, mas decide manter com ela - com quem compartilha um forte senso de solidão e inadequação - um relacionamento de confiança e amizade. Porém, o cerco de um dedicado policial (Elias Koteas) e a aumento das torturas impostas por seus colegas acabam por precipitar um festival de violência que traz à tona a verdade sobre a origem da tímida menina.


A grande sacada de "Deixe-me entrar" é não ser um produto de terror no sentido puramente tradicional. Ao priorizar a relação entre Owen e Abby em detrimento de cenas sanguinolentas - ainda que apresente algumas sequências bastante violentas e convincentes - o filme mostra seu diferencial, ao preocupar-se com seus personagens mais do que com sua vontade de assustar a qualquer preço. A excelente química entre Smith-McPhee e a garotinha Chloe Moretz é preciosa e de certa forma dispensa até mesmo outros atores: a mãe de Owen, por exemplo, nunca tem seu rosto mostrado e o "pai" de Abby aparece sempre envolto em sombras e escuridão. Até mesmo as cenas em que o suspense assume importância central o diretor opta pela sutileza e pela discrição, filmando de longe ou protegido pela fotografia, que lembra muito sua origem nórdica - é especialmente brilhante a escolha de iluminar os primeiros encontros entre os protagonistas com uma luz amarela e claustrofóbica, mesmo estando eles na rua. A preferência de Reeves pelo não-explícito salva o filme do lugar-comum, mas paradoxalmente o afasta dos fãs de coisas como "Crepúsculo", onde a inteligência inexiste e as regras impostas por dezenas de filmes sobre vampiros simplesmente são ignoradas. Sem falar que, mesmo bem mais jovem, Smith-McPhee e Chloe Moretz são atores muito, mas muito melhores que Robert Pattinson e Kirsten Stewart.

Fascinante, inteligente e dotado de uma elegância surpreendente, "Deixe-me entrar" é um dos filmes de terror mais interessantes da nova geração, equilibrando o grotesco e o sanguinolento com doses de delicadeza e sensibilidade. É difícil não torcer pela difícil amizade entre Owen e Abby, mérito de um conjunto de fatores acertados que transforma uma refilmagem - normalmente algo violentamente rechaçado pelos cinéfilos - em um produto muito acima da média, que não fica nada a dever a seu original (a não ser, é claro, pelas pequenas alterações feitas no roteiro que transformam radicalmente a verdadeira origem de Abby). Quem não se importar com purismos, no entanto, terá em mãos um filmaço de terror.

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