quarta-feira, 12 de agosto de 2015

ATÉ A ETERNIDADE

ATÉ A ETERNIDADE (Les petits mouchoirs, 2010, Les Productions du Trésor, EuropaCorp, 154min) Direção e roteiro: Guillaume Canet. Fotografia: Christophe Offenstein. Montagem: Hervé de Luze.Figurino: Carine Sarfati Direção de arte/cenários: Philippe Chiffre/Ariane Audouard. Produção: Alain Attal. Elenco: François Cluzet, Marion Cottilard, Jean Dujardin, Benoit Magimel, Gilles Lellouche, Laurent Lafitte, Anne Marivin, Louise Monot. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

Em 1983, o diretor Lawrence Kasdan lançou "O reencontro", que unia um time de respeito - Glenn Close, Kevin Kline, William Hurt, Jeff Goldblum, Tom Berenger, entre outros - para fazer um inventário dramático de uma geração que, pós-sonhos loucos dos anos 60, se via preso em uma redoma de comodismo e frustração. A partir de então, cineastas de todos os calibres exploraram o tema, com resultados diversos mas quase sempre bastante interessantes. Assumidamente inspirado pelo filme de Kasdan, o ator e cineasta Guillaume Canet - o rival de Leonardo DiCaprio em "A praia" - também deu sua contribuição ao gênero, com o potente "Até a eternidade", que lançou em 2010 e viu se transformar no maior sucesso do cinema francês do ano, com mais de cinco milhões de ingressos vendidos. Reflexo de um momento catártico da vida de Caunet - que incluía a separação da atriz Diane Kruger - o roteiro do filme pega pesado no drama e na emoção, mas consegue, graças à química perfeita do elenco, dos diálogos ágeis e da edição fluente, fazer com que mais de duas horas e meia de duração passem voando diante dos olhos e do coração do espectador. Da série de produções que devem sua existência ao filme de Kasdan, o trabalho de Caunet é, sem dúvida, um dos mais bem sucedidos.

Equilibrando sua narrativa com extrema eficácia - e evitando privilegiar uma história em detrimento de outra - Caunet demonstra um extraordinário senso de ritmo e conhecimento da alma humana, ao criar uma galeria de personagens bem construídos, interpretados por um elenco homogêneo que inclui grandes atores franceses e rostos conhecidos do grande público, como François Cluzet, Marion Cottilard e Jean Dujardin - antes do Oscar de melhor ator por "O artista". É o personagem de Dujardin, inclusive, quem dá o pontapé inicial da trama, quando sofre um violento acidente de moto que o leva para o hospital justamente às vésperas do tradicional período de férias de verão em que seu grupo de amigos se reúne na casa de praia do mau-humorado Max (Cluzet) e de sua mulher, Véro (Valérie Bonneton). O fato de ter um de seus melhores amigos internado em estado grave não impede, porém, que os planos de todos sigam adiante e em poucos dias todos se encontram na aprazível propriedade de Max, dono de um restaurante que passa os dias em estado de constante tensão e rigidez - principalmente depois que Vincent (Benoit Magimel), de cujo filho ele é padrinho - se declara apaixonado por ele apesar de ser casado com a compreensiva Isabelle (Pascale Arbillot). A situação bizarra é completada pelas confusões amorosas de Éric (Gilles Lelouche) - que tem uma bela namorada mas não consegue lhe ser fiel - e Antoine (Laurent Lafitte) - que não consegue esquecer a mulher que ama e insiste em reconquistá-la. Não bastasse isso, a bela Marie (Marion Cottilard) - que teve um relacionamento com o amigo acidentado - passa a sentir-se culpada pelo fim do romance.


Inserindo um e outro momento de humor em uma trama assumidamente dramática, Guillaume Caunet se utiliza de uma inesperada tragédia para desnudar um festival de amores reprimidos, rancores escondidos e até pesadas acusações e agressões - verbais e físicas. Forjando um roteiro onde as pequenas mentiras do título original acabam se tornando grandes problemas, o cineasta oferece ao espectador um vasto panorama de emoções humanas, que vão da culpa ao desejo, do carinho fraternal ao egoísmo, do amor ao remorso. Ao mesmo tempo em que dá espaço para sequências solares e felizes - jogos de futebol, passeios de barco - o filme entrega ao público cenas de uma melancolia pungente, em especial quando explora o talento superlativo de Marion Cottilard, casada com Caunet na vida real. É especialmente tocante o momento em que um amante ocasional de sua Marie canta para seus amigos enquanto ela disfarça a dor de uma descoberta recente enquanto limpa os restos do jantar. Sutil e delicado como somente os cineastas franceses sabem ser.

Antes do devastador final - onde as verdades aparecem de forma brutal e inesperada - "Até a eternidade" ainda oferece ao público momentos de genuína emoção, jamais forçando a mão no sentimentalismo. O maior mérito do filme - ainda maior do que a escalação certeira do elenco e da bem dosada mistura entre drama e comédia - é justamente o talento de Guillaume Canet em contar sua história sem buscar as lágrimas fáceis: se elas surgem no desfecho é porque sua trama e seus personagens são reais, honestos e radicalmente próximos do espectador. E isso é algo que nem todo roteirista muito mais experiente consegue. Palmas para o jovem cineasta!

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