sábado, 26 de setembro de 2015

CAVALO DE GUERRA

CAVALO DE GUERRA (War horse, 2011, DreamWorks SKG/Reliance Entertainment, 146min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Lee Hall, Richard Curtis, romance de Michael Morpurgo, peça teatral de Nick Stafford. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Lee Sandales. Produção executiva: Revel Guest, Frank Marshall. Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, Peter Mullan, Niels Arestrup, David Thewlis, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, David Kross, Celine Buckens, Eddie Marsan. Estreia: 04/12/11

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som

Se existe uma qualidade que não pode ser negada ao cineasta Steven Spielberg – dentre dezenas de outras óbvias para qualquer um que tenha acompanhado sua vasta e vitoriosa carreira dentro da indústria hollywoodiana – é sua capacidade de utilizar a linguagem clássica do cinema de massa (consagrada desde tempos imemoriais e frequentemente descartada pelas novas gerações como obsoleta e cafona) para, vez ou outra, pegar todo mundo de surpresa com um filme, que nadando contra a corrente dos efeitos visuais milionários e protagonistas com poderes sobre-humanos, fala direto ao coração utilizando-se apenas de uma boa história e seu talento irrepreensível de narrador. É o que ele faz com “Cavalo de guerra”, um épico à moda antiga, tanto em valores morais e éticos – retidão, honestidade, amor puro e ingênuo entre homem e animal - quanto no visual arrebatador – repleto de crepúsculos deslumbrantes e de cores vibrantes como o mais autêntico faroeste em Technicolor. Indicado a seis Oscar (incluindo Melhor Filme) no ano em que a Academia lançou um carinhoso olhar para o passado da sétima arte (com obras como “O artista”, que homenageava os filmes mudos, e “A invenção de Hugo Cabret”, que tinha o pioneiro Georges Mèlies como personagem), a adaptação do romance de Michael Morpurgo – posteriormente transformada em peça de teatro pelas mãos de Nick Stafford – serviu como material ideal para que Spielberg brincasse de John Ford. Poucas vezes em sua carreira ele foi tão feliz em transportar para as telas um sentimento de nostalgia.
Uma nostalgia lacrimosa, por certo, quase sentimentaloide em alguns momentos (uma característica inarredável do estilo spielberguiano de fazer cinema), mas ainda assim brilhantemente executada e capaz de emocionar, sem muito esforço, a plateias que há muito tempo substituíram a compaixão pela apatia. É preciso embarcar no mundo proposto pelo cineasta sem a bagagem pesada do individualismo e do cinismo que vem caracterizando a humanidade desde as últimas décadas do século XX. Para melhor compreender as entranhas da narrativa do diretor – linear, simples, a um passo do maniqueísmo que o aproxima com tanta facilidade do coração do espectador – é imprescindível que, junto com a disponibilidade de tempo (como todo épico o filme é bastante longo, com duas horas e meia de duração), haja a disposição de abandonar a realidade dura e fria: em “Cavalo de guerra” o mundo é visto através dos olhos de um contador de histórias cujo otimismo é ainda maior que sua conta bancária e sua estante de prêmios e nem mesmo a crueldade inerente ao tema à primeira vista sangrento é capaz de fazer frente à poesia impressa em cada fragmento de celuloide.
 “Cavalo de guerra” começa em Devon, uma pequena cidade rural da Inglaterra, onde vive a família Narracot, que mantém, a muito custo, uma pequena propriedade agrária sempre em vias de passar às mãos de seu impiedoso senhorio (David Thewliss). É nesse cenário – bucólico, de vastas pradarias fotografadas com um colorido quase irreal pelo brilhante Janusz Kaminski – que nasce o protagonista do filme, o potro puro-sangue Joey, que, a despeito de suas patentes dificuldades de ser utilizado como animal de fazenda, torna-se a obsessão do filho único do fazendeiro, o jovem Albert (Jeremy Irvine), que faz dele seu melhor amigo. Sem a pressa habitual do cinema comercial americano, Spielberg leva quarenta minutos para estabelecer a relação de lealdade e paixão entre Albie e Joey, que sofre um abalo inesperado com a entrada da Inglaterra na I Guerra Mundial. Impossibilitado pela pouca idade de juntar-se às tropas do país, a Albert não resta alternativa senão deixar que seu companheiro seja incorporado ao Exército – com a promessa do compreensivo Comandante (Tom Hiddleston) de que será tratado com todo o respeito possível.



Acaba, então, o primeiro ato do filme, e junto com ele, desaparece da narrativa os tons róseos e leves de seu começo – em que Spielberg encontra espaço até mesmo para uma breve sequência de humor desnecessária mas fiel a seu estilo “família”. A guerra surge em cena, mas, coerente, o cineasta não faz dela um espetáculo de vísceras, suor e lágrimas, como em seu fabuloso “O resgate do soldado Ryan”. Mais sugerindo do que mostrando, a câmera de Spielberg conduz o espectador pelo conflito sem exigir dele o mergulho incondicional e quase desagradável de seu filme de guerra mais famoso. A primeira batalha de Joey não tem um resultado dos mais felizes, mas o público fica ciente disso sem que seja preciso sair respingado de sangue. E é partir daí que entra em cena outro personagem crucial na trajetória do herói equino: o jovem soldado alemão Gunter Schroeder (David Kross, o jovem amante de Kate Winslet em “O leitor”), que, para proteger o irmão caçula conforme prometido ao pai, deserta da guerra apenas para encontrar um final trágico e deixar Joey no caminho da frágil Emilie Bonnart (Celine Buckens), uma órfã que vê no belo animal uma forma de felicidade que ela desconhece desde sempre.


A entrada de Joey na vida de Emilie acontece em uma sequência de puro lirismo e inventividade: é através dos olhos do cavalo que primeiro a plateia tem contato com a menina, que vive em uma pequena fazenda com o avô (Niels Arestrup), que vive do comércio de geleias. Portadora de uma doença que a impede de viver uma infância comum, Emilie se apega a Joey com a paixão de que somente as crianças são capazes, mas mais uma vez a face negra da guerra não permite o final feliz. O cavalo é reivindicado pelo exército alemão e novamente o público é conduzido ao campo de batalha – onde Joey, dotado de um heroísmo que falta a muitos humanos à sua volta, se mostrará indispensável. E, ao mesmo tempo em que a plateia se encanta com as belas sequências em que Joey consegue fugir da morte certa e torna-se objeto de disputa entre um soldado inglês e um alemão – que deixam de lado a inimizade bélica para soltá-lo do arame farpado onde prendeu-se em sua fuga – seu verdadeiro dono está mais perto dele do que ambos poderiam esperar: já mais velho, Albie está no front, e tem ainda viva a esperança de encontrar seu mais querido amigo.
Tudo é grandiloquente e poderoso em “Cavalo de guerra”: a fotografia de Kaminski se intercala entre um colorido de ferir os olhos e que homenageia os crepúsculos de filmes como “...E o vento levou” e um tom sóbrio e cinzento que retrata as batalhas com o teor apropriado de dor e pessimismo. A trilha sonora de John Williams igualmente brinca entre o grandioso e o minimalista (com uma preferência óbvia para o gigantesco). Ambos foram indicados para o Oscar. Steven Spielberg sabe cercar-se de gente que entende sua visão de cinema como escapismo – da mesma forma que também o acompanham quando ele fala com mais seriedade e angústia. Em “Cavalo de guerra” ele atinge o ápice de seu estilo sentimental/familiar/heroico. Os detratores podem encontrar nele inúmeras razões para críticas a respeito de seu estilo adocicado – que nem mesmo em “A lista de Schindler”, com toda a sua crueza, ficou de fora. Da mesma forma, os entusiastas não terão dificuldades em ver em sua obra tudo aquilo que fez de Hollywood a fábrica de sonhos que tanto ofereceu ao cinema mundial. É um tanto piegas? Sim, sem dúvida. É talvez ingênuo demais? Certamente. Mas é, também, um filme tecnicamente impecável, que carrega a nobreza de sentimentos em cada cena. De vez em quando todo mundo precisa de uma boa dose de poesia e sensibilidade.

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