sábado, 5 de setembro de 2015

VIRADA NO JOGO

VIRADA NO JOGO (Game change, 2012, HBO Films, 118min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Danny Strong, livro de Mark Halperin, John Heilemann. Fotografia: Jim Denault. Montagem: Lucia Zucchetti. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Tiffany A. Zappulla. Produção executiva: Gary Goetzman, Tom Hanks, Jay Roach. Produção: Amy Sayres. Elenco: Julianne Moore, Ed Harris, Woody Harrelson, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Sarah Paulson, Ron Livingston. Estreia: 28/02/12

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Minissérie, Atriz Filme/Minissérie (Julianne Moore), Ator Coadjuvante Filme/Minissérie (Ed Harris)

Em 2008, a campanha pela presidência dos EUA – vencida por Barak Obama – apresentou ao mundo inteiro uma personalidade quase folclórica que, até então, era conhecida basicamente pelos eleitores do Alasca, seu estado de origem: a governadora Sarah Palin, conservadora, religiosa fervorosa, mãe de cinco filhos (um deles com Síndrome de Down e a mais velha grávida na adolescência), firme em suas opiniões e eleita graças principalmente a questões ecológicas. Escolhida pelos assessores do republicano John McCain para ser sua candidata à vice-presidente – como forma de conquistar eleitores ainda não convencidos por sua política – Palin era tida como a arma secreta contra a popularidade de Obama, mas acabou se tornando motivo de escárnio e choque com seu desconhecimento quase total de política externa e outros assuntos tão importantes quanto, que quase anulavam seu carisma. Uma personagem inacreditável – que virou até mesmo alvo impiedoso do programa de humor “Saturday Night Live”, onde era interpretada pela comediante Tina Fey – Palin é a protagonista de “Virada no jogo”, brilhante produção da HBO que escrutina com detalhes sua trajetória em uma das mais acirradas disputas pela Casa Branca na história dos EUA.
 Comandado por Jay Roach – que já havia flertado com os bastidores da política no subestimado “Os candidatos”, com Will Ferrell – e com Tom Hanks entre seus produtores executivos, “Virada no jogo” é baseado no livro de Mark Halperin e John Heilemann e conta com um roteiro sagaz e de ritmo certeiro, que equilibra com precisão cirúrgica tanto os meandros das campanhas eleitorais americanas (e por que não brasileiras?) quanto sua importância na vida de pessoas que dependem delas para atingir o sucesso profissional. O centro da trama é Steve Schmidt, interpretado com sutileza rara por Woody Harrelson: estrategista político conceituado, ele é chamado pelo Senador John McCain (Ed Harris em atuação premiada) para encontrar e treinar a pessoa certa para fazer companhia a ele na chapa que irá disputar a presidência americana. Sentindo-se desafiado, ele e seus assessores chegam ao nome de Palin e resolvem apostar em seu carisma junto à parcela feminina dos eleitores. O problema é que a governadora não é tão cordata quanto poderia parecer e transforma-se em um problema dos grandes quando, ao perceber seu poder de persuasão junto ao público, resolve assumir as rédeas de sua transformação de mulher simples em política profissional.



Amparada por uma direção discreta e um roteiro inteligente – escrito por Mark Strong – Julianne Moore dá um show à parte na pele de Sarah Palin. Merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz dramática em filmes para a TV, ela simplesmente se transforma na polêmica governadora, tanto fisicamente quanto em suas essências – pessoal e pública. Intercalando momentos de puro constrangimento (quando é capaz de dizer atrocidades em rede nacional, por pura ignorância) com outros que suscitam até mesmo uma certa pena, Moore rouba o filme para si de forma escandalosa. Mesmo com uma personagem não exatamente simpática em mãos, ela conquista o público da mesma forma com que Palin cativava seus eleitores – pelo carisma e pela pureza. Sem julgar a personagem, Moore faz dela uma mulher comum jogada no olho do furacão sem estar preparada para tal (apesar de achar-se capaz de assumir a bronca), e sua fragilidade emocional acaba por seduzir a plateia: mesmo quando ri das bobagens proclamadas por Sarah Palin, o público não deixa de sentir uma espécie de piedade. Por escapar da tentação de fazer da protagonista motivo de piada, tanto Roach na direção quanto Moore na construção da personagem marcam um gol de placa: “Virada no jogo” é brilhante tanto como drama político quanto comédia de bastidores – mas jamais aposta no humor barato ou grosseiro (uma surpresa, já que estamos falando do mesmo diretor dos três filmes estrelados pelo espião Austin Powers, que são tudo menos sutis).
Com um elenco coadjuvante que não faz feio diante dos shows de Julianne Moore, Ed Harris e Woody Harrelson, “Virada no jogo” é o típico filme que expande seu círculo de interesse para atingir um público mais amplo especialmente graças à união de seus talentos. Não é preciso ser americano ou entender as matizes de sua política para se deixar envolver pela trama (que nem precisou ser inventada): basta gostar de se deixar envolver por uma história bem contada, com atores brilhantes e um roteiro que respeita a inteligência do espectador. Foi feito para a televisão, mas é muito melhor do que muito produto cinematográfico que chega às salas de exibição.

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