segunda-feira, 28 de setembro de 2015

JOVENS ADULTOS

JOVENS ADULTOS (Young adult, 2011, Paramount Pictures, 98min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: David Robinson. Direção de arte/cenários: Michael Ahern/Carrie Stewart. Produção executiva: Helen Estabrook, Nathan Kahane, John Malkovich, Steven Rales. Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Charlize Theron, Patrick Wilson, Patton Oswalt, Elisabeth Reaser, Mary Beth Hurt, Collette Wolff. Estreia: 09/12/11

Mavis Gary é uma escritora de sucesso. Quer dizer, em termos: ela é a ghost-writer uma série de livros adolescentes (mercado que nos EUA recebe o nome pomposo de “literatura para jovens adultos”) que está com os dias contados. Passa os dias curando ressacas fenomenais à base de litros homéricos de Diet Coke e programas ruins de televisão. É arrogante, egoísta e imatura. Vive em Minneapolis mas não consegue esquecer que saiu de uma pequena cidade do interior, onde ainda moram os pais – com quem mal se comunica. Um dia, curtindo uma depressão rotineira e pressionada pelos editores que cobram o último livro da série, Mavis recebe um email de um antigo namorado, feliz e realizado com a chegada de seu primeiro bebê. É o que basta para acordá-la do marasmo: munida da certeza de que o rapaz é o grande amor de sua vida e que está insatisfeito com a vida medíocre que leva, Mavis pega a estrada na companhia de seu fiel cachorrinho Dolce com o objetivo de declarar-se a ele e juntos recomeçarem sua história de amor interrompida anos antes.
Mavis Gary não é exatamente uma pessoa das mais agradáveis. Mas, apesar de ser perigosamente parecida com muita gente, é apenas uma personagem criada pela mente de Diablo Cody, a ex-stripper que ganhou um Oscar pelo roteiro de “Juno”, em 2008. Dona de características bem pouco afáveis e um caráter não exatamente dos melhores, Mavis só não é francamente repulsiva porque é interpretada com veracidade e inteligência por Charlize Theron, uma atriz tão dotada que consegue o impossível: dar-lhe alma e uma série de nuances que, em mãos outras, jamais seriam tão exploradas. Injustamente esquecida pela Academia por seu desempenho irretocável, Theron carrega nas costas o filme de Jason Reitman, uma comédia amarga, melancólica mas bastante ácida que faz um retrato pouco elogioso do american way of life sem que, para isso, precise apelar para o riso fácil ou a caricatura. Assim como nos trabalhos anteriores de Reitman – em especial “Obrigado por fumar” (06) e “Amor sem escalas” (09) – o humor se faz pela ironia e pelo desenho dos personagens, tão reais que poderiam estar sentados ao lado do espectador.


Quando Mavis chega à sua cidade natal, Mercury, dotada de toda a prepotência de alguém que se considera superior a todo o resto da humanidade, o público ainda não sabe do que ela é capaz para atingir seus objetivos – e talvez nem mesmo ela saiba. É somente quando ela encontra um antigo colega de escola, Matt Freulach (o ótimo Patton Oswaldt) que sua personalidade real começa a aflorar diante da plateia. Vítima de um espancamento na adolescência – que deixou de ser um crime de ódio quando descobriu-se que na verdade ele não era gay como se pensava – Matt vive com a irmã, carrega sequelas pesadas da surra e é o típico nerd que coleciona bonequinhos e faz bebida artesanal na garagem. Por uma certa ironia do destino, é justamente ele quem irá se tornar o confidente e o grilo falante de Mavis quando ela começar sua cruzada romântico/kamikaze pelo amor do pacato Buddy Slade (Patrick Wilson, simpático e apático como sempre). Casado, feliz e sem ter a menor ideia dos planos nefastos de sua ex-namorada, Buddy a recebe de braços abertos – e dá início a um processo que abrirá antigas feridas há muito cicatrizadas.



Apesar de fazer de Mavis uma adorável vilã – com diálogos que de tão ácidos tornam-se muito engraçados – o roteiro de “Jovens adultos” não a trata com condescendência. Mesmo que ela tenha seus motivos para destilar tanta amargura (motivos que são explicados na melhor cena do filme, quando ela toma um porre na festa de batizado do bebê de Buddy), Cody e Reitman fogem da tentação de engendrar um final bonitinho e redentor para sua protagonista, que tampouco aprende, em seu caminho, aquelas lições de vida que tanto agradam aos produtores hollywoodianos. Como a vida das pessoas de Mercury, a existência de Mavis não deixa de ser medíocre como todo mundo pensa, e nem ela é tão famosa quanto gostaria de ser. Sua arrogância – que desfila diante da recepção do hotel em que se hospeda, nos bares pasteurizados onde encontra Buddy e até nas lojas de departamento onde procura roupas “para reconquistar meu namorado” (em uma sequência impagável) – é fruto de um profundo senso de inferioridade, que se revela frequentemente em seu desespero em parecer importante. No fundo, Mavis é a personagem mais digna de pena do filme – mas nem por isso menos passível de críticas. E é aí, nessa complexidade, que reside o brilhantismo de Charlize Theron.
Linda como sempre, Theron deita e rola como Mavis Gary. Sem medo de despertar a antipatia do público, ela entrega uma interpretação desprovida de maneirismos, equilibrando o tom quase surreal de seus objetivos com um naturalismo espantoso que deixa verossímil até mesmo um inesperado encontro sexual que, de certa forma, ilumina o verdadeiro tema do filme de Reitman: a solidão. “Jovens adultos” – um título apropriado e dotado de um duplo sentido bastante feliz – fala sobre o medo de ficar só, sobre a desorientação de uma geração e sobre  falso dourado da fama e da glória sem cair em pregações morais ou sentimentalismo barato. É mordaz e realista dentro de suas limitações de gênero cinematográfico. E mais uma prova do talento de Reitman em fazer o espectador rir de si mesmo e de suas mazelas interiores. Um belo (e subestimado) filme.

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