quarta-feira, 9 de setembro de 2015

UM DIA

UM DIA (One day, 2011, Focus Features, 107min) Direção: Lone Scherfig. Roteiro: David Nicholls, romance de David Nicchols. Fotografia: Benoit Dellhome. Montagem: Barney Pilling. Música: Rachel Portman. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Nina Jacobson. Elenco: Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Romola Garai, Rafe Spall. Estreia: 08/8/11

Parafraseando Nelson Rodrigues, "envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio", mas, ao assistir-se à adaptação para o cinema de um livro querido é preciso estar perfeitamente ciente de que é virtualmente impossível ficar totalmente satisfeito. Isso acontece com uma raridade impressionante. Aconteceu com "As horas", magistral transição do romance de Michael Cunninhgam por Stephen Daldry em 2002. Aconteceu de novo em 2007 com "Desejo e reparação", que Joe Wright dirigiu com base no espetacular drama literário de Ian McEwan. Mas infelizmente não aconteceu com "Um dia", que a dinamarquesa Lone Scherfig assina depois do êxito de seu "Educação", que ano passado chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Tudo bem, o livro de David Nicholls não é uma obra-prima como os citados trabalhos de Cunningham e McEwan, mas é uma leitura deliciosa, ágil, comovente,engraçada e inteligente como poucas conseguem ser. E sua versão em celuloide pode até não ser um filme que vá ganhar estatuetas a granel, mas tem uma honestidade e uma simpatia tão grandes que é difícil não relevar seus pecadilhos.

Ao acompanhar vinte anos na vida de um casal de amigos que se conhece na formatura da faculdade - e que nunca deixam de se falar, escondendo até deles mesmos a paixão que sentem um pelo outro - o roteiro de David Nicholls falha em fazer um inventário de sonhos despedaçados, relacionamentos frustrados e outras tantas decepções pelas quais todos passamos. Enquanto no livro tudo é emocionante e frequentemente hilariante devido à prosa esperta do autor, no filme as coisas acontecem com uma velocidade tão grande que muitas vezes os protagonistas não conseguem atingir o grau de realismo e densidade necessários. Logicamente é preciso muito malabarismo para condensar duas décadas em pouco mais de cem minutos de projeção, mas a pressa com que o roteiro passa por momentos cruciais das personagens - em especial quando eles finalmente começam a amadurecer - acaba prejudicando sua complexidade, deixando-os quase como duas personagens clichê de comédias românticas, o que - e quem leu o livro sabe disso - não pode estar mais longe da verdade.


Dexter Mayhew (vivido com graça e carisma por Jim Sturgess) e Emma Morley (interpretada pela linda e talentosa Anne Hathaway) são apaixonantes. Ele é sedutor, imaturo, no limite do egocentrismo. Ela é inteligente, ambiciosa e idealista. Eles passam a noite juntos no dia 15 de julho de 1988 e prometem ser amigos. Ele torna-se apresentador de um programa ruim de TV, envolve-se com drogas, mulheres e um certo tipo nocivo de fama até se casar com uma mulher que não ama (Romola Garai, de "Desejo e reparação"). Ela vira garçonete, inicia um relacionamento com um aspirante a humorista (Rafe Spall) mas jamais desiste de ser uma escritora. Eles nunca deixam de se falar. Mas são incapazes de perceber que se amam (ou pelo menos escondem esse sentimento tão fundo que desenterrá-lo pode trazer mais dor do que felicidade). Até que um dia...

Os românticos irão se deliciar com "Um dia". É um filme lindamente fotografado, com uma bela trilha sonora de Rachel Portman, dirigido com sensibilidade e leveza e repleto de um clima de delicadeza que se torna patente quando o roteiro permite que Sturgess brilhe com seu perdido Dexter (em especial em suas cenas com o ótimo Ken Stott, que interpreta seu pai ou com a sempre eficiente Patricia Clarkson, que interpreta sua mãe) ou com sua química com Hathaway (ainda que ela esteja aquém das possibilidades mostradas em filmes como "O casamento de Rachel" ou até mesmo em "Amor e outras drogas" e nem sempre consiga sustentar o sotaque inglês). É uma história de amor que emociona por tratar de pessoas de verdade e por fugir (dentro de suas possibilidades) de um final previsível. Quem leu o livro vai dizer (com razão) que poderia ser melhor. Mas ainda assim é um belo programa para os fãs do gênero e tem tudo para tornar-se cult com o passar dos anos.

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