domingo, 13 de setembro de 2015

DEUS DA CARNIFICINA

DEUS DA CARNIFICINA (Carnage, 2011, SBS Productions/Constantin Film Produktion, 80min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Yasmina Reza, peça teatral de Yasmina Reza. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Herve de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Frankie Diago. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Said Ben Said. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Roman Polanski dirigindo uma comédia? Baseada em texto teatral? Estrelado por Jodie Foster e Kate Winslet? Antes que o estranhamento que tais questões possam suscitar, é bom lembrar que nada disso é exatamente novo. Polanski assinou, no final dos anos 60, o escrachado “A dança dos vampiros”, um quase clássico camp que tinha no elenco, além dele mesmo, aquela que seria sua esposa e morreria assassinada a mando de Charles Manson em agosto de 1969 – e que prova sem contestação que ele sabe ser engraçado. Também assinou a direção de “A morte e a donzela”, peça escrita pelo chileno Ariel Dorfman – o que não faz dele um estreante em transpor teatro para as telas. E Jodie Foster e Kate Winslet não são novatas em fazer rir – Jodie fez um hilariante par com Mel Gibson em “Maverick” (94) e Winslet demonstrou bom timing cômico em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (04), que não era comédia mas tinha lá seus momentos de graça. Sendo assim, “O deus da carnificina”, adaptado com extrema fidelidade da peça da francesa Yasmina Reza não deve ser visto como um terreno novo a ser desbravado pelo cineasta polonês – mesmo porque a quase claustrofobia do filme remete a algumas das mais célebres obras de sua carreira, como “O inquilino”, “Repulsa ao sexo” e “O bebê de Rosemary” (68), não à toa parte da chamada “trilogia do apartamento” – na qual o texto de Reza poderia tranquilamente ser inserida, não fosse o tom bem menos sóbrio e mais leve. Uma comédia muito mais afeita a sorrisos do que gargalhadas, “O deus da carnificina” também é coerente com a forma quase pessimista de Polanski enxergar o mundo e o ser humano. Não é à toa que seus personagens vão demonstrando, com o passar das horas, lados pouco louváveis de suas personalidades anteriormente tão polidas pelo verniz da sociedade.
O estopim da trama é simples e eficiente: um menino de onze anos, depois de uma discussão, agride com violência um colega da mesma idade. Cientes de sua superioridade enquanto adultos e civilizados, os pais de ambos se reúnem em uma tarde para conversar e tomar as devidas providências. No apartamento classe média de Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) – os pais da vítima – os quatro aparentemente chegam rápido à conclusão de que as crianças devem se encontrar e que o agressor deve pedir desculpas ao agredido. Tudo perfeito, simples e ágil como convém. Porém, o que parecia já resolvido começa a dar sinais de problema quando outros assuntos, aparentemente não-relacionados à principal questão, vêm à tona. A princípio com ironias e gradualmente se tornando cada vez mais beligerante e agressiva, a conversa se transforma em um ringue, onde os dois casais partem para a briga – uns contra os outros e, conforme outros questionamentos surgem, com alianças inesperadas. Nesse meio-tempo, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet) descem do seu pedestal de superioridade e encaram a face mais atávica e competitiva da humanidade.
A ousadia de Polanski em restringir sua narrativa em apenas um pequeno apartamento nova-iorquino (com uma ou outra cena de transição no corredor diante de sua porta) é a maior qualidade da versão cinematográfica de “O deus da carnificina”. Enquanto outros cineastas tentariam disfarçar as origens de seu material com subterfúgios artificiais e ineficientes, ele assume sem medo o tom verborrágico da trama, mas consegue, graças a seu talento e a seus anos de estrada, transformar em trunfo o que poderia ser um problema: frequentemente usando distorções nas lentes da câmera (cortesia de seu habitual colaborador Pawel Edelman) como forma de enfatizar o quase pesadelo surreal que se torna o que deveria ser uma simples tarde entre adultos, Polanski sublinha o tema principal da história, desnudando sem dó nem piedade os reais sentimentos e pensamentos da classe média, protegida por sua capa de respeitabilidade até que as coisas fujam de seu controle. Ao escalar para seus protagonistas um time de atores com imagens absolutamente respeitáveis e sérias, o diretor também critica, através de uma brilhante metáfora interna, a grande diferença entre o “parecer” e o “ser”. Ninguém fica impune ao deus da carnificina citado por Alan em um momento do texto e que é representado pela força bruta ao invés da inteligência – nem mesmo as belas tulipas com que Penelope enfeita sua mesa de centro para receber suas visitas.


Como em qualquer bom texto teatral, os personagens de “O deus da carnificina” vão se revelando aos poucos, dando a seus intérpretes (todos atores excepcionais) a chance de mostrar diversas facetas de seus talentos. O Michael de John C. Reilly (único dentre os atores a ainda não ter ganho um Oscar) é, aparentemente, um homem de boa paz, um vendedor de utensílios domésticos que tenta resolver tudo na base da conversa e da sociabilidade extrema – mas que não hesita em abandonar o hamster da filha pequena no esgoto da cidade ou vangloriar-se de ter sido líder de uma gangue quando criança. Sua esposa, Penelope (Jodie Foster em uma atuação que vai crescendo diante do espectador até explodir na reta final) é uma escritora especializada em Arte e História da África a quem a civilidade é primordial nos relacionamentos interpessoais – ao menos até que seu modo de lidar com a família e o casamento sejam postos em xeque. Alan (Christoph Waltz finalmente deixando um pouco de lado os trejeitos que repete constantemente) é o típico homem que dedica seus dias na luta por mais e mais dinheiro – é advogado de uma empresa farmacêutica em vias de enfrentar uma ação penal – e vê o valor das pessoas baseado em suas contas bancárias e seu sucesso profissional. E Nancy (Kate Winslet, a melhor em cena) é uma corretora de investimentos chique, discreta e delicada que perde as estribeiras quando deixa que o álcool lhe tire todos os filtros de polidez e escrúpulos morais e éticos.
A dinâmica de “O deus da carnificina” é a desculpa perfeita para Roman Polanski exercitar seu cinema simples e direto. Em menos de uma hora e meia de projeção, ele destrói o muro de convenções sociais que possibilita a convivência entre os seres humanos, usando para isso não um grupo de homens pré-históricos ou soldados em plena batalha. A maior ironia (e o maior acerto) de Yasmina Reza em seu trabalho é deixar que pessoas bem-nascidas, bem-resolvidas e bem-educadas sejam o objeto de sua tese (pessimista? realista? exagerada?) de que sem o verniz de uma organização social e comunitária os homens que se gabam de utilizar-se da mais alta tecnologia, de conhecer a fundo obras de arte e de saber frequentar as mais altas rodas da sociedade não passam, no fundo, de homens das cavernas, predispostos a, em qualquer momento, apelar para a violência e a agressão como forma de fazer prevalecer seu ponto de vista. E Polanski, em um toque de gênio, acrescenta à peça de Reza um epílogo silencioso e quase imperceptível que mostra que, ao mesmo tempo em que a civilização como a conhecemos tem a fragilidade de uma flor, ainda existe esperança onde menos se espera – e da forma mais simples possível. Mais do que mostrar-se otimista, o vencedor do Oscar por “O pianista” mostra-se de uma ironia sofisticada e contundente. O inferno são os outros.

Um comentário:

Ozymandias Realista disse...

Eu estava assistindo esse filme em DVD, infelizmente o mesmo travava e não passava de determinada parte, seu texto muito bem escrito serviu de incentivo e referência para eu assisti-lo e escrever sobre no meu blog.

Força e honra.