quinta-feira, 10 de setembro de 2015

HISTÓRIAS CRUZADAS

HISTÓRIAS CRUZADAS (The help, 2011, Dreamworks SKG/Reliance Entertainment, 146min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Tate Taylor, romance de Kathryn Stockett. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Hughes Winborne. Música: Thomas Newman. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Mohamed Mubarak Al Mazrouei, Nate Berkus, Jennifer Blum, L. Dean Jones Jr., John Norris, Mark Radcliffe, Jeff Skoll, Tate Taylor. Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green. Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Allison Janney, Mary Steenburgen, Cicely Tyson. Estreia: 09/8/11

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Viola Davis), Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain, Octavia Spencer)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) 

É preciso ser honesto: somente a quase histeria em relação ao politicamente correto pode justificar todo o oba-oba em torno do drama "Histórias Cruzadas", adaptado do romance de Kathryn Stockett (publicado no Brasil pela editora Bertrand com o título "A resposta"). Apesar de seu elenco impecável, de alguns momentos realmente emocionantes (sempre proporcionados pela arrasadora Viola Davis) e do assunto sempre relevante (independente de época e geografia), o filme de Tate Taylor não consegue escapar da impressão de ser mais um filme-fórmula, esbarrando em clichês e, pior ainda, apelando para uma desnecessária escatologia que disfarça como humor, para cativar seu público. Sua calorosa receptividade, tanto em termos comerciais - mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - quanto críticos - cinco indicações ao Golden Globe e outras quatro para o Oscar, incluindo melhor filme - parece dizer muito mais sobre o sentimento de culpa da América sobre a forma com que os negros sempre foram tratados em sua história (e na do cinema em si) do que sobre suas qualidades cinematográficas. Mas então o filme é ruim? Não, claro que não. Mas também não é essa maravilha que tanto se alardeou por aí à época de seu lançamento.




A trama em si é, no mínimo, impactante: em plena efervescência na luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 60, a recém-formada Skeeter (Emma Stone) retorna à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, com o objetivo de adquirir experiência como jornalista antes de aventurar-se pela imprensa nova-iorquina. Insatisfeita com a coluna de dicas domésticas no jornal local, ela percebe, esperta e revolucionária, que há, na atmosfera da cidade, a história que poderá alavancar sua carreira e ajudar na vida de dezenas de mulheres negras que, vítimas de uma segregação violenta e cruel, são obrigadas a manter-se caladas diante de injustiças diárias e de diversos tamanhos (desde a impossibilidade de usar o banheiro das casas onde trabalham e usar os mesmos talheres até o fato de criarem as mesmas crianças brancas que crescerão e lhes tratarão com o mesmo desrespeito). Com  a ajuda da sofrida Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz) e de outras domésticas que vão se juntando à sua narrativa mesmo correndo o risco de cadeia - nas leis do Estado do Mississipi qualquer tentativa de ir contra a segregação era crime passível de prisão - a jovem faz um painel triste e doloroso da situação, perpetuada por jovens como a insensível e detestável Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard).


Na verdade, é fácil para o público médio gostar de "Histórias Cruzadas". Suas personagens são carismáticas (ainda que em nenhum momento consigam esconder um maniqueísmo barato e quase preguiçoso em seu desenho) e seu tom leve é um alívio, em especial quando a história poderia tranquilamente descambar para o melodrama pesado. Porém, ao tentar não ser tão exagerado no dramalhão, Taylor incorre em um pecado bastante grave, dando um espaço maior do que deveria a um humor quase infantil. Em alguns momentos, histórias como a vingança de Minny Jackson (vivida pela ótima Octavia Spencer, vencedora do Golden Globe e do Oscar de coadjuvante) desviam a atenção da plateia para tramas bem mais interessantes, como a relativa à morte do filho de Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis) e a luta de Skeeter (Emma Stone) por sua liberdade de expressão e pensamento. Some-se a isso o fato de o filme ser mais longo do que precisava (146 minutos são um exagero, o que é culpa de sua tentativa de estender abranger várias tramas ao mesmo tempo), contar histórias paralelas desinteressantes (como o namoro de Skeeter com um jovem que não aceita sua liberdade de pensamento e a rivalidade entre duas socialites) e fica difícil se apaixonar por ele como tanta gente fez - especialmente com a ideia um tanto incômoda de eleger uma branca como a salvadora da pátria em um filme com tantas personagens negras fortes e interessantes.

Logicamente "Histórias cruzadas" tem muitas qualidades, sendo o elenco a principal delas. Emma Stone é uma delícia de se ver, assim como Viola Davis e Octavia Spencer, e Bryce Dallas Howard, surpreendente como a jovem vilã Hilly Holbrook, mesmo que o roteiro lhe obrigue a ser uma personagem unidimensional. No entanto, a festejada Jessica Chastain, normalmente certeira, sai um pouco do tom com sua perua Celia Foote, talvez culpa da direção sem sutilezas de Taylor que aposta em um registro acima para proporcionar o tal "humor" que tanto mina as forças do filme como um todo - mesmo assim Chastain foi indicada ao Oscar de coadjuvante, provavelmente mais uma homenagem à sua versatilidade do que a seu trabalho específico aqui. E, justiça seja feita, a produção é delicada e eficaz, em especial a trilha sonora de Thomas Newman, que pontua cada cena com discrição, e a fotografia ensolarada de Stephen Goldblatt, que contrasta com a violência psicológica sofrida por suas protagonistas.

Resumindo, "Histórias cruzadas" é um bom filme, ideal para emocionar àqueles que gostam do gênero. Mas está a anos-luz da intensidade e da crueza de "A cor púrpura", por exemplo. Emociona, mas não marca.

Nenhum comentário: