sexta-feira, 11 de setembro de 2015

UM EVENTO FELIZ

UM EVENTO FELIZ (Un hereux événement, 2011, Mandarin Films/Gaumont, 107min) Direção: Rémi Bezançon. Roteiro: Rémi Bezançon, Vanessa Portal, romance de Eliette Abecassis. Fotografia: Antoine Monod. Montagem: Sophie Reine. Música: Sinclair. Figurino: Marie-Laure Lasson. Direção de arte/cenários: Maamar Ech-Ceikh/Florin Dima, Catherine Werner Schmit. Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Isabelle Grellat. Elenco: Louise Bourgoin, Pio Marmai, Josiane Balasko, Thierry Frémont, Gabrielle Lazure, Lannick Gautry. Estreia: 27/8/11

Via de regra, as comédias românticas contam a história de amor de um casal que se conhece, se apaixona, demora a assumir tal sentimento e finalmente encontra um final feliz, com um esperado casamento (ou o mais perto disso possível). A comédia francesa "Um evento feliz" não abre mão de tais expedientes, mas, diferente de seus congêneres, os utiliza nos cinco minutos iniciais de projeção. Como o roteiro, baseado em um romance autobiográfico, tem seu foco nas dificuldades de um jovem casal em lidar com as responsabilidades que vem junto com o nascimento do primeiro filho, a história de amor entre a estudante de filosofia Barbara (Louise Bourgoin) e o atendente de videolocadora Nico (Pio Marmai) encontra outros meios de atingir os ávidos consumidores do gênero. A boa notícia é que consegue: leve, engraçado e ágil, o filme de Rémi Bezançon cativa a plateia sem fazer esforço, graças à honestidade e carisma da dupla central e da verdade que escorre de cada uma de suas cenas, sejam elas cômicas ou dramáticas.

Já nas primeiras cenas é possível perceber a influência do cinema comercial americano sobre "Um evento feliz": trabalhando em uma videolocadora, o jovem Nico, que sonha ser cineasta - "Quentin Tarantino também começou assim", é sua desculpa - flerta com a bela cliente Barbara através dos títulos dos filmes que recomenda a ela (e ela sempre recusa elegantemente com outros, que dialogam com ele, até finalmente aceitar um primeiro encontro). Esse primeiro encontro dá frutos, eles iniciam um apaixonado romance, vão morar juntos e resolvem, depois de um tempo, que já é hora de dar um passo maior. Ela engravida e é aí que a história realmente começa: a gravidez atrapalha sua tese de doutorado, traz à tona seus problemas familiares com a mãe pouco carinhosa (a cineasta Josiane Balasko) e o pai que a abandonou na infância e desequilibra seus hormônios a ponto de ter que apelar para um vibrador. Quando o bebê nasce, os problemas se multiplicam: sentindo-se isolada do mundo, Barbara passa a dedicar-se febrilmente à pequena Lea e se afasta de Nico - e a presença da sogra no apartamento apenas complica ainda mais as coisas.


Assim como o perturbador "Precisamos falar sobre o Kevin" lançava um assombroso olhar de viés à maternidade e suas ditas benesses, "Um evento feliz" também ousa questionar as felicidades do período, mas de forma descontraída e bem-humorada. Se Eva, a personagem interpretada por Tilda Swinton no filme de Lyann Ramsay nutria uma desconfortável sensação de amargura e rancor pelo filho que tentava amar (e do qual buscava um mínimo de afeto), a protagonista aqui é desenhada em registro menos hostil, mais próximo da realidade da maioria das mães de primeira viagem que tentam conciliar vida doméstica, profissional, familiar e sexual sem maiores prejuízos de nenhuma parte. Como o livro em que foi baseado é escrito por uma mulher, nada mais natural que Barbara acabe sendo o ponto de vista privilegiado do roteiro, especialmente na segunda parte, quando o humor da trama passa a dar espaço para o drama e o ritmo sofra um pequeno desgaste. Falta, portanto, um desenvolvimento maior do personagem masculino, que passa a um melancólico segundo plano quando o norte da história passa a ser a crise matrimonial da dupla: o olhar de Barbara está claro e definido, mas as questões de Nico ficam nitidamente diminuídas.

Apesar desse pequeno senão - fácil de relevar graças ao contagiante bom-humor do roteiro e à química do par central - "Um evento feliz" é uma comédia dramática acima da média, que fala de assuntos sérios sem escorregar no panfletário ou no sentimentalismo barato. Com vários momentos bastante engraçados (cortesia tanto do roteiro sarcástico quanto do excelente timing do ótimo Pio Marmai) e um espaço bem preenchido por cenas de uma ternura irresistível, o filme de Bezançon é encantador por várias razões e não deixa de ser um retrato acurado (ainda que por vezes superficial) das relações contemporâneas. Uma pequena pérola do cinema francês que merece ser assistida até pelos mais ferrenhos detratores de filmes off-Hollywood.

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