quinta-feira, 23 de março de 2017

A BRUXA

A BRUXA (The witch: A New-England Folktale, 2015, Parts and Labor/RT Features/Rooks Nest Entertainment, 92min) Direção e roteiro: Robert Eggers. Fotografia: Jarin Blaschke. Montagem: Louise Ford. Música: Mark Korven. Figurino: Linda Muir. Direção de arte/cenários: Craig Lathrop/Mary Kirkland. Produção executiva: Thomas Benski, Jonathan Bronfman, Chris Columbus, Eleanor Columbus, Julia Godzinskaya, Alexandra Johnes, Sophie Mas, Lucas Ochoa, Michael Sackler, Alex Sagalchik, Lourenço Sant'Anna. Produção: Daniel Bekerman, Lars Knudsen, Jodi Redmond, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy. Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie.  Estreia: 23/01/15 (Festival de Sundance)

Com exceção daqueles fãs de cinema que não se contentam apenas em assistir a um filme, mas também conhecem os nomes daquelas pessoas que estão por trás das câmeras, pouca gente pode ter percebido, nos créditos do aterrador "A bruxa", a presença de dois brasileiros. Lourenço Sant'Anna - que tem no currículo títulos como o aclamado independente "Frances Ha" (2012) e o polêmico "Love" (2015) - e Rodrigo Teixeira - que começou no cinema nacional, com filmes como "O cheiro do ralo" (2006) e "Heleno" (2011) antes de associar-se ao parceiro Sant'Anna em produções internacionais - são creditados, respectivamente, como produtor executivo e produtor do filme de estreia do cineasta Robert Eggers. Prova de seu prestígio junto ao cinema alternativo, os dois brasileiros também estiveram juntos em "Indignação" (2016), adaptação do romance de Philip Roth e "Melhores amigos" (2016), estrelado por Greg Kinnear, obras que agradaram aos críticos e receberam indicações e prêmios mundo afora - além de terem solidificado mais uma vez a criatividade e o talento dos realizadores independentes. Por mais que os filmes citados tenham suas qualidades, porém, é "A bruxa" que mostra, sem espaço para questionamentos, a força e o sucesso da dupla. Um filme de terror adulto e inteligente, o primeiro longa de Eggers perturba justamente por sugerir muito mais do que mostrar - uma receita infalível quando aplicada de forma correta.

Inspirado em uma série de contos, relatos e registros jurídicos feitos no século XVII, "A bruxa" tem, dentre seus inúmeros trunfos, a seriedade com que é conduzido pelo roteiro acurado e elegante de Eggers, que jamais ultrapassa os limites do bom-gosto e da sensibilidade. Por mais que sua trama seja angustiante e se utilize fartamente de elementos clássicos do gênero, Eggers constroi sua narrativa apoiado basicamente na atmosfera de paranoia e religiosidade obsessiva da época, evitando o horror explícito em nome da sutileza e do desconforto que provoca na plateia. Com uma fotografia esplêndida de Jarin Blaschke - que contribui para a sensação de claustrofobia de maior parte da ação - e atores despidos de qualquer vaidade ou artifícios, o filme vai envolvendo o espectador aos poucos, confirmando a estranheza das primeiras cenas conforme a trama vai se desenrolando (e se mostrando gradualmente agoniante). Elogiado publicamente até mesmo pelo mestre do horror, o escritor Stephen King, "A bruxa" não é, definitivamente, um filme convencional e nem tampouco busca públicos que procuram entretenimento ligeiro: é uma pequena obra-prima, capaz de ficar na memória por um bom tempo após seu término - o que é sempre sinal definitivo de que apertou os botões certos.


A história se passa na Nova Inglaterra do ano 1630: a família do fazendeiro William (Ralph Ineson) é banida de sua cidade, devido a questões a respeito de sua forma de enxergar a religião. Isolado com a esposa Katherine (Kate Dickie) e os quatro filhos em uma pequena propriedade perto de uma tétrica floresta, William tenta seguir sua vida dentro dos parâmetros que considera corretos aos olhos de Deus, mas o desaparecimento de seu caçula, um bebê de poucos meses, vira tudo de pernas para o ar. De repente, sua filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy) é acusada por sua própria mãe de praticar atos de bruxaria e condenar a todos com seus rituais. Acuada pela própria família, Thomasin tenta convencê-los de que é inocente, mas outros acontecimentos (cada vez mais violentos e bizarros) a empurram diretamente para o confronto com seu casal de irmãos gêmeos - que podem ou não ter inventado um pacto com Black Philip, o bode preto da família. Quando Caleb (Harvey Scrimshaw), seu outro irmão, desaparece e retorna às portas da morte, Thomasin percebe nitidamente que precisa provar sua inocência, sob pena de ser abandonada pelos pais. Mas o que é, afinal, a verdade?

Manipulando com extrema segurança todos os clichês do terror mas nunca os exagerando, Robert Eggers entrega ao público uma produção fascinante, que exercita os músculos do cérebro com a mesma precisão com que busca o susto e a tensão constante. Em seu primeiro papel principal, Anta Taylor-Joy transmite a exata sensação de desamparo e medo que a plateia, embora sua interpretação também deixe margem, durante todo o tempo, para a dubiedade em relação a seu real papel nos acontecimentos que a circundam. Sob seu ponto de vista, a plateia é convidada a penetrar em um universo sombrio e sufocante, valorizado pelo visual cuidadoso e pela reconstituição de época detalhista. Não à toa, Eggers saiu da cerimônia de entrega dos Independent Spirit Awards com dois prêmios na bagagem, ambos na subcategoria de estreia: melhor filme e roteiro. Difícil discordar dos votantes quando o filme chega ao fim: poucas vezes uma obra de terror conseguiu, nos últimos anos,  um resultado tão certeiro quanto "A bruxa". É apavorante, é realista e é um filmaço! Nada de assassinos mascarados ou sangue esguichando: é apenas uma aula de narrativa visual e dramática. Imperdível!

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