segunda-feira, 20 de março de 2017

ARMAS NA MESA

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16

Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.

A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.


Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.

De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.

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