segunda-feira, 13 de março de 2017

PARCEIROS DA NOITE

PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980, United Artists, 102min) Direção: William Friedkin. Roteiro: William Friedkin, romance de Gerald Walker. Fotografia: James Contner. Montagem: Bud Smith. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Robert deMora. Direção de arte/cenários: Bruce Weintraub/Robert Drumheller. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen, Richard Cox, Don Scardino, Jay Acovone, Joe Spinell, James Remar. Estreia: 08/02/80

Parece coisa de ficção, mas consta que é a mais pura verdade: em 1972, quando estava filmando "O exorcista" - que se tornaria um dos filmes de terror mais bem-sucedidos da história do cinema - o cineasta William Friedkin utilizou-se de um radiologista de verdade para uma cena em que a jovem protagonista, vivida por Linda Blair, passava por uma bateria de exames para diagnosticar seu problema (que, como todo mundo que assistiu ao filme sabe, era o demônio em pessoa). O assistente do tal radiologista, um rapaz chamado Paul Bateson, acabou preso, alguns anos depois, acusado de ter assassinado o amante, o crítico de cinema Addison Verrill. Em 1979, durante a fase de pesquisa para seu filme "Parceiros da noite" - baseado em um romance de Gerald Walker, por sua vez baseado no caso real de um serial killer que, no período 1962-1979, depois de fazer suas vítimas, frequentadores do submundo gay nova-iorquino, desovava partes de seus corpos em sacolas plásticas no Rio Hudson - o diretor resolveu conversar com Bateson, na tentativa de entender um pouco mais sobre a mentalidade de um criminoso como ele. O que Friedkin não poderia sequer imaginar é que Bateson - mais tarde condenado à prisão perpétua - sempre deu a entender, em seu período na prisão, de que ele era também o real assassino que deu origem ao livro de Walker. Por uma incrível coincidência, o vencedor do Oscar de melhor direção por "Operação França" (71) trabalhou, ainda que por um breve período de tempo, com o homem que seria a base para o mais polêmico e complicado trabalho de sua carreira.

Logo que o projeto de "Parceiros da noite" surgiu no horizonte chamou para si a fúria de todos os setores da sociedade norte-americana. Dos republicanos mais ferrenhos aos militantes mais ferozes do movimento LGBT, todo mundo parecia disposto a apedrejar o filme antes mesmo de sua estreia. A comunidade gay organizava piquetes para atrapalhar as filmagens, clamando contra o que considerava um retrato preconceituoso e tendencioso. Os grandes estúdios de Hollywood, por sua vez, recusavam financiar uma produção que obviamente causaria mais controvérsia do que bilheteria - filmes de temática gay invariavelmente fracassavam comercialmente em um país à beira de uma onda de conservadorismo que encontraria no vírus da AIDS (noticiado pela primeira vez um ano após sua estreia) um pretexto mais do que perfeito para sua ideologia. Entre idas e vindas, a ideia de traduzir para as telas o romance de Walker passou pelas mãos de diversos diretores - Brian De Palma (que apesar de interessado não conseguiu os direitos de produção e foi fazer "Vestida para matar"), o alternativo Paul Morrissey (que queria Jeff Bridges no papel principal) e até (pasmem!!) Steven Spielberg, já consagrado por "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau", mas antes de "Caçadores da Arca Perdida" e "E.T.: o extra-terrestre", que só pulou fora por causa da alta de apoio dos estúdios - e, mesmo com Friedkin no comando, demorou a encontrar um protagonista de peso. O cineasta queria o então novato Richard Gere e chegou a convidar Robert De Niro e Roy Scheider para o elenco, mas foi Al Pacino, então em alta graças a sucessivas indicações ao Oscar, quem ficou com um dos papéis mais polêmicos de sua trajetória artística - e que precipitou uma pausa estratégica pouco tempo depois.


Fracasso de bilheteria e de crítica - chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro - e atacado sem piedade por todos os lados, "Parceiros do crime" é um filme que merece uma revisão. Se recusando a tornar mais palatável o universo sombrio e por vezes chocante de uma parte do submundo gay - no caso, os clubes sadomasoquistas - o roteiro de Friedkin mergulha o espectador em sequências sufocantes, quase claustrofóbicas, filmadas com uma aspereza quase documental (não à toa, seu diretor de fotografia, James Contner, pensou em apelar para o preto-e-branco). Pouco afeito a melindres desnecessários, Friedkin não poupa a plateia de cenas que retratam, com o máximo de realismo permitido a uma produção que se pretendia comercial, a rotina de frequentadores de bares homossexuais da Nova York do final da década de 70. Funcionando quase como um voyeur, o público penetra em salas escuras, onde o perigo pode estar em qualquer canto - algo assim como Richard Brooks fez com os bares de solteiros em "À procura de Mr. Goodbar" (77), em que Diane Keaton desafiava o perigo em encontros casuais com estranhos. Para isso, ele se utiliza do ponto de vista de seu protagonista, o policial Steve Burns, que se vê diante de um mundo novo (e ao mesmo tempo fascinante e grotesco) quando é escalado para caçar um serial killer que vem fazendo suas vítimas entre os frequentadores desses locais.

Escolhido para a missão por ter o tipo físico das vítimas, Burns aceita servir de isca para que a polícia de Nova York encontre o criminoso, e, para isso, passa a frequentar assiduamente bares e clubes noturnos voltados à prática específica de sadomasoquismo. Escondendo a missão até mesmo da namorada, Nancy (Karen Allen), ele se envolve gradualmente com a situação, testemunhando a forma como a própria polícia trata a comunidade homossexual e participando, sem querer, da vida de um novo vizinho, que sofre com os ciúmes do namorado violento. Abalado com o andamento das investigações, Burns inicia um lento processo de desconstrução de si mesmo - que acarreta até mesmo dúvidas a respeito de sua própria sexualidade. E é nesse tom dúbio de um protagonista complexo e multifacetado que William Friedkin mostra sua coragem: às vésperas de entrar em um período de extremo puritanismo, o público dos EUA realmente não tinha como abraçar um filme como "Parceiros do crime". Não apenas por sua violência, por mostrar uma sexualidade alternativa que repudiava o estereótipo ou por colocar um ator popular como Al Pacino no centro da narrativa, mas sim por ousar eleger como protagonista um policial que que destoa radicalmente do herói com que a plateia já estava acostumada no gênero. Embaralhando suas cartas com pistas falsas, mesnagens subliminares e um final em aberto que deixa qualquer um pensando por muito tempo após a sessão, Friedkin mostra que um filme policial não precisa necessariamente abrir mãos dos clichês para provocar e instigar. A estrutura do seu roteiro é simples - apresentação, desenvolvimento, desfecho - e não há maiores ousadias visuais. O que o eleva a um patamar acima de seus congêneres é a inteligência de buscar algo mais do que simplesmente apresentar um jogo de gato e rato: "Parceiros do crime" é desconfortável, tenso e, levando-se em consideração que já tem quase quatro décadas, um filme à frente de seu tempo. Pode parecer datado em alguns momentos, mas ainda é forte o bastante para resistir à passagem dos anos.

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