domingo, 19 de março de 2017

AMY (Amy, 2015, Film4/On The Corner Films, 128min) Direção: Asif Kapadia. Fotografia: Rafael Bettega, Jake Clennell, Ernesto Herrmann. Montagem: Chris King. Música: Antonio Pinto. Produção executiva: Adam Barker, David Joseph. Produção: James Gay-Rees. Estreia: 16/5/15 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi meteórica, mas foi marcante e inesquecível. A passagem da cantora britânica Amy Winehouse pela vida - breve, de meros 27 anos - não deixou ninguém indiferente. Dona de uma voz peculiar, um estilo próprio e uma existência recheada tanto de sucesso quanto de polêmicas, Winehouse deixou o mundo em 23 de julho de 2011, e seu final melancólico nem chegou a ser surpreendente. Foi a crônica de uma morte anunciada: seus problemas com álcool e drogas, que a levavam constantemente às páginas de tabloides sensacionalistas mais do que às reportagens sobre música, estavam claramente a conduzindo para um desfecho trágico. E pior ainda: o mundo estava testemunhando calado sua decadência física, mais preocupado no folclore ligado a seu nome no que na qualidade de seu talento. Vítima frequente de deboche e caricaturas, Winehouse pereceu diante da mesma audiência que um dia a cobriu de aplausos - e no outro viu nela o alvo perfeito para uma perseguição mórbida e criminosa. Uma personalidade fascinante e complexa, a cantora que tirou o pó do jazz e o apresentou para uma geração de fãs de música pop é o tema de "Amy", o belo e triste documentário dirigido pelo mesmo Asif Kapadia do celebrado "Senna" (2010). Vencedor do Oscar da categoria e outros 50 prêmios em festivais e por associações de críticos, o filme é um retrato fiel e carinhoso da artista - e uma feroz crítica à indústria das celebridades.

Com acesso a imagens exclusivas e raras da adolescência e juventude de Amy - cortesia da família da cantora, que posteriormente rejeitou o resultado final do projeto, alegando que o filme não lhes era simpático ou ao menos justo - o documentário de Kapadia é um presente para os fãs, mostrando um lado de Winehouse que poucas vezes chegava até à mídia. Através de filmes caseiros, é possível conhecer um Amy ainda bastante jovem e já concentrada em seu desejo de fazer música, mas cercada de amigos e familiares que lhe davam amor e apoio - ao menos até que a ausência paterna tenha começado a fazer seus estragos: sofrendo de bulimia e uma insegurança quase patológica, Amy viu no palco e nos estúdios a válvula de escape para uma existência mais significativa, mas jamais poderia supor que, ao lado do sucesso, de mãos dadas com ele, estava o fim da privacidade que tanto amava. Sem buscar o sucesso a qualquer preço ou a celebridade oca, sua intenção era compor e cantar seus sentimentos mais profundos - o que acabou levando-a, com o tempo, a chegar nas paradas de sucesso e ver-se soterrada por responsabilidades e cobranças que ela preferia evitar. Por trás do abuso de drogas e álcool, sempre esteve a menina deslumbrada com seus ídolos (Tony Bennett entre eles) e a filha carente de amor paterno, que, como qualquer pessoa normal, errava ao escolher seus amores da mesma forma com que conquistava o coração de milhares de admiradores de boa música.


Sem medo de apontar o dedo para aqueles que certamente contribuíram para a decadência física e mental de Amy, o documentário dá ênfase a dois homens que nortearam a vida e a carreira da cantora. O primeiro deles, seu próprio pai, Mitch Winehouse, que aproveitou-se do sucesso da filha para lucrar mesmo que isso fosse contra sua vontade (e as necessidades médicas e psicológicas). O segundo, seu marido, o músico Blake Fielder, que inspirou seu álbum mais famoso, "Back to black" quando a abandonou para voltar para uma ex-namorada e aprofundou seu consumo de drogas, lhe apresentando a heroína e iniciando um relacionamento marcado por escândalos, clínicas de reabilitação, manchetes sensacionalistas e uma série de decepções que transformaram a Amy Winehouse vencedora do Grammy, fenômeno do jazz e adorada por milhares de fãs na Amy Winehouse agressiva, irresponsável e alvo mais de chacotas e críticas do que de elogios. Sua fragilidade física e mental é mostrada de forma clara e direta por Kapadia, que novamente descarta qualquer tipo de narração em off para construir seu filme unicamente com imagens e áudios, que dão a exata noção de como vivia (e como morreu) uma das mais exploradas figuras da música popular do século XXI. E, como não poderia deixar de fazer, também responsabiliza o público por seu drama pessoal.

Perseguida incansavelmente pela mídia, Amy Winehouse passou de estrela da música a atração de programas e jornais sensacionalistas. Em pouco tempo sua música deixou de ter o destaque que merecia e foi substituída por um interesse quase doentio da imprensa, que sabia que, a cada escândalo, a cada internação, a cada show cancelado e a cada fofoca de bastidores, mais jornais e revistas venderia. Amy virou a pessoa certa para quem procurava barracos e situações constrangedoras, um fato alimentado pelos leitores e telespectadores que começavam a enxergá-la como parte do folclore do mundo das celebridades. O documentário não hesita em forçar o espectador em colocar a mão na consciência e perceber o quanto isso tudo influenciou negativamente na trajetória de Amy, uma jovem que queria apenas cantar suas dores e frustrações e se viu diante do furacão incontrolável da fama mundial. Enquanto se faziam piadas sobre seu estado e a colocavam como uma patética personagem de si mesma, ela se afundava mais e mais em um estado irremediável de angústia e solidão. Esse retrato sem piedade de um ser humano e suas tentativas de sobreviver diante de fatos sobre os quais não tinha controle é o mais triste de "Amy", mas é também o que o faz imprescindível para se compreender a verdadeira Winehouse por trás da fama, dos boatos e do falso glamour da fama. Um filme obrigatório, e não somente para os fãs.

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